Dom Casmurro

agosto 2020 / Dom Casmurro / Joseph Ceravolo

Texto publicado na edição #244

Joseph Ceravolo

Oito poemas de Joseph Ceravolo

> Por André Caramuru Aubert

Tradução e seleção: André Caramuru Aubert

Spring

All I will amount to: knowing
your sound, small bees,
the winter wind
is green.

Primavera

Tudo para mim se resumirá em: conhecendo
seu som, abelhinhas,
o vento do inverno
é verde.

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Forest dreams

Thunder on the shore
Voices nearby against
the crashing of storm waves
against the silence.
But like them
never stops long enough,
this pain.

Sleep, sleep, the boat rocks nearby
like a song of giant
waves against the island
rocking the sleeping
volcanic bowels of Spring.

Rocking like the beyond
where no one comes
in the thunder of nighttime

So we could see in the lightning
and breathe and live
among the forests
all the time
and waken
from the dream.

Sonhos na floresta

Trovão no litoral
Vozes bem perto, diante
das ondas de tempestade quebrando
contra o silêncio.
Mas, como elas
nunca cessa por tempo suficiente,
essa dor.

Dorme, dorme, o barco balança aqui perto
como a canção de gigantescas
ondas contra a ilha
balançando as sonolentas
entranhas vulcânicas da primavera.

Balançando como o além
aonde ninguém chega,
no trovão das horas noturnas

E então poderíamos enxergar no relâmpago
e respirar e viver
no meio das florestas
por todo o tempo
e despertar
do sonho.

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His universe eyes

Can we look through
this slanty night without getting dizzy,
and barking somewhere?
What was it about the first,
what wasn’t it?

What kind?

Whereat?

Then again the clouds
are bearable more than before.

We’re invited to the river
by the river
and the wet flowers
that go along river
might not die again
tonight.

Seus olhos do universo

Será possível que olhemos através
desta noite oblíqua, sem ficarmos tontos,
e latindo em algum lugar?
O que a respeito do primeiro,
o que não era?

De que tipo?

Onde?

E então, de novo, as nuvens
ficam mais manejáveis do que antes.

Somos atraídos para o rio
pelo rio
e as flores encharcadas
que há junto ao rio
talvez não voltem a morrer
hoje à noite.

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Happiness in the trees

O height dispersed and head
in something joining
these sleeps. O primitive touch
between fingers and dawn
on the back

You are no more
simple than a cedar tree
whose children change
the interesting earth
and promise to shake her
before the wind blows
away from you
in the velocity of rest

Felicidade nas árvores

Ó, a altura espraiada e a cabeça
em alguma coisa que se junta
a essa sonolência. Ó, toque primal
entre os dedos e a aurora
lá atrás

Você nada mais é
que um mero cedro
cujos filhos mudam
a terra atraente
e prometem chacoalhá-la
antes que o vento sopre
para longe de você
na velocidade do repouso

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Stampeding visualizations

Clouds at 15 knots cutting
the rays of the sun,

blocking, not blocking, blocking,

not blocking, not stopping the movement

of a village in the dawn-remains,

or a town in the after birth or

a city morning storm before stampede.

Clouds over the brown March meadows

showering sun, filtering sun

over the bodies that walk

and over their spirits ascending
through the veins to
the cerebral cortex
that explodes with chills of early Spring.

Visualizações em debandada

Nuvens a quinze nós cortando
os raios do sol,

bloqueando, não bloqueando, bloqueando,

não bloqueando, não interrompendo o movimento

de uma aldeia nos resquícios da aurora,

ou de uma vila no pós-parto ou

da tempestade matinal de uma cidade antes da debandada.

Nuvens sobre as campinas marrons de março

sol de enxurrada, sol que filtra

sobre os corpos que caminham

e sobre os espíritos deles em ascensão
através das veias para
o córtex cerebral
que explode em arrepios de começo de primavera.

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Migratory noon

Cold and the cranes.
Cranes in the
wind
like cellophane tape
on a school book.
The wind bangs
the car, but I sing out loud,
help, help
as sky gets white
and whiter and whiter and whiter.
Where are you
in the reincarnate
blossoms of the cold?

Meio-dia migratório

O frio e as garças.
Garças ao
vento
como encadernações de celofane
num livro escolar.
O vento bate
no carro, mas eu canto bem forte,
socorro, socorro
enquanto o céu fica branco
e mais e mais e mais branco.
Onde está você
nas reencarnadas
floradas do frio?

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Rain

Rain is not surrounded by sleep like a drum
that pours song for song
all the body’s soft weakness.
That’s why I’m afraid.

So I don’t feel sorry,
o chatter of birds’ wings in
the clouds.

Chuva

A chuva não está rodeada pelo sono como um tambor
que jorra canção por canção
toda a doce fragilidade do corpo.
É por isso que sinto medo.

Portanto eu não lamento,
ó, o tagarelar das asas dos pássaros
nas nuvens.

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Not a baby

Fish is swimming near top
of the water

Two people are happy
They are sitting on the floor
In the bar.

The floor is dirty One
leg each is crossed over
each others

A frog is kissing
surface of the water
from underneath

Your love could
be a tent for my
babyness. It rains

Little children
worry that their parents
won’t come home. They play.

Protect me, like a
bush protects
a flower

Não sendo um bebê

O peixe nada perto do cimo
da água

Duas pessoas felizes
Sentadas no chão
Do bar.

O chão está sujo Uma
perna cruzada sobre
as outras duas

Um sapo beijando
a superfície da água
desde o fundo

O seu amor poderia
ser uma tenda para a minha
bebezisse. Está chovendo

Crianças pequenas
têm medo que seus pais
não voltem para casa. Elas brincam.

Me proteja, como um
arbusto protege
a flor

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