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janeiro 2012 / Rodapé / José Lins do Rego — A obra e os críticos (2)

Texto publicado na edição #116

José Lins do Rego — A obra e os críticos (2)

O regionalismo (termo que remete a local) de José Lins do Rego refuta, em grande medida, o típico, o pitoresco. […]

> Por RINALDO DE FERNANDES

O regionalismo (termo que remete a local) de José Lins do Rego refuta, em grande medida, o típico, o pitoresco. Recobre dramas comuns a homens de todos os lugares — é universal. Como chama a atenção o referido (na coluna anterior) José Aderaldo Castello: “Regionalismo para ele não é a simples fotografia de traços típicos ou característicos de uma região. É muito mais. É o depoimento sentido, profundamente humano e lírico da própria natureza e das condições humanas sob contingências telúricas e sob os efeitos de transformações econômicas e sociais. É a alteração de valores, ao mesmo tempo que a fixação de tradições, assim como também a compreensão de aspectos esclarecedores da realidade brasileira, convergindo para o interesse da posição humana. Visa, em última análise, muito mais ao universal do que o limitadamente típico ou mesmo exótico, procurando conduzir o interesse do leitor para o drama humano que encerram esses depoimentos sobre a vida do Nordeste, que são os próprios romances cíclicos de José Lins do Rego”. Acrescente-se que, quanto ao valor da obra, é sempre superficial o embate Regionalismo/Regional x Universal/Cosmopolita. Não há que valorizar esta ou aquela vertente sem primeiro verificar o arranjo, a composição da obra. O bom romance pode ser ambientado em qualquer recanto do mundo — e valerá, antes de tudo, por sua força ou consistência estética. É bem o caso de José Lins, notadamente num livro como Fogo morto. A crítica é unânime em reconhecer Fogo morto como sendo a obra-prima de José Lins do Rego. É, com efeito, um romance refinado, de rico investimento na interioridade dos personagens, ao mesmo tempo um registro primoroso de um ambiente social em transformação — o da Várzea, o do mundo do engenho sendo substituído pelo da usina. Nas boas palavras de Eduardo F. Coutinho: “Fogo morto apresenta como núcleo temático básico a decadência de uma sociedade rural escravocrata apoiada numa economia mercantil de ranço colonial frente a uma nova ordem de valores de cunho burguês e a uma economia emergente de base capitalista. Em outras palavras, é a radiografia da realidade nordestina em um momento de crise: o da dramática transição entre os engenhos decrépitos e a usina nascente”. O romance é um exemplo irretocável de emprego da técnica do monólogo interior. É através desta técnica, em especial, que nos é apresentada a psicologia problemática dos principais personagens do livro.

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