Dom Casmurro

janeiro 2012 / Dom Casmurro / José Emilio Tallarico

Texto publicado na edição #114

José Emilio Tallarico

Tradução: Ronaldo Cagiano Para o rio O que o mundo pode perdi-te mais que um orgasmo ou uma morte? Brilha […]

> Por JOSÉ EMILIO TALLARICO

Tradução: Ronaldo Cagiano


Para o rio

O que o mundo pode perdi-te
mais que um orgasmo ou uma morte?
Brilha no céu um zodíaco esmaltado.
Os fantasmas do rio se incham com o primeiro resplendor.

Lâmina após lâmina recorrem a instantes azuis, insulares,
como se a alma nada tivesse que afrontar,
como se a homenagem das águas provessem
de temor suficiente, e fosse carne iluminada
a que desce agora, lenta, transformando-se em esquecimento.
Tudo é póstumo no zumbido lunar.

A brisa do sudeste cruzou desencaixada destas veredas
Ardeu e fugiu alguma vez. Mas já é outra.
Se parece com as costas de uma mulher branquíssima.

Ansiava transparência a metade de seus olhos
mas eis aqui a água com seus limites:
areia suja, pedraria, movimento de objetos abandonados.
Alguém tinha que olhar estas águas, essa extensão coberta.
Princípio ou fim? Alguém tinha que abaixar, respirar fundo este ar.

 

Toca-me
A Solange Schiaffino

Estas palavras que vêm de meus primeiros balbucios
e que talvez direi no instante prévio à morte,
inútil, sutil, pomposamente, voltam a subjugar meu ouvido.
Umas vezes foram cruzes quebradas por minha boca,
outras vezes um grito, um buraco.
Toca-me — ah, ordinários? com que topete
de pássaro dançante querem cravar a noite?
Não preciso delas. Ainda que reclamem por
suas pedras de luz, por sua estatura milenar
no fundo de meu próprio arrabalde
velo o atrito sutil de um deus.
Mas também escuto, desolado, as pedradas do tempo
Toca-me — diziam isso?
Essas desejantes, feridas, porque sim, loucas, cavernosas, perdidas?

 

Tributo a Billie Holiday

Uma pétala de tua gardênia,
uma asa que a memória usa
para ingressar no túnel do trombone
e reencontrar o outro lado, lady,
sustentada em tua nota, feliz.
Onde quer que estejas te despregas de tua profundidade
e um alento de velhas emoções
canta em mim, com teu Bronx, com teu Deus
(que vigia meninos nas noites bêbadas)
e as teclas perseguem abundantemente
essa tua rouquidão, esse teu gritinho elástico, o ar.
“aloja-te em minha voz, sua intermitência azul cura o espírito”.
E tua gardênia é branca e luminosa e grave
quando começa a voar.

 

A prostituta

Bíblica até a espessura.
Oito fatalidades na frente
e um perdão por chegar:

sonhei aquele ramo de impalpável ser
que se ocultava na noite?

Apenas compartilhamos,
severamente expostos à chuva,
os reflexos distantes.

 

A mãe

É tarde
ninguém poderá entristecê-la

é ávida e noturna
mas a desfaz a piedade

aí vem
com o fraco café do meio-dia
sem saber que a observo.

 

Em memória de C. O.

Alguma vez te ouvi dizer
(ah, lacaniano, insaciável leitor dos bares)
que no eixo de cada ação humana
primeiro resplandece o brutal,
o mais inóspito do inconsciente.
Não deste validade às minhas apostas pelo sujeito reflexivo.
“Não defendo o cinza” — advertias.
O que traçaríamos nós, teus amigos, os leigos,
diante de uma xícara de café? Coerência intolerável a tua.
Porque também não deste ao mundo outra oportunidade
poucos anos mais tarde,
a partir desse Magnun — motivo de teu orgulho —,
esse terrível ferro que ativastes para imolar teu coração.

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