Nossa América, nosso tempo

junho 2013 / Nossa América, nosso tempo / Jornalismo cultural: promessas e impasses

Texto publicado na edição #158

Jornalismo cultural: promessas e impasses

Diante da vitalidade que começo a caracterizar, vislumbrar o “vazio” não deixa de ser uma façanha intelectual…

> Por JOÃO CEZAR DE CASTRO ROCHA

Ilustração: Bruno Schier

Ilustração: Bruno Schier

Caricatura involuntária
Na coluna do mês de abril, tratei de uma tendência atual, a “melancolia chique”. Como a própria denominação sugere, considero essa tendência uma caricatura involuntária da atividade crítica, pois, em geral, os severos juízes do aqui e agora não explicitam seus pressupostos. Pelo contrário, agem como se fossem os herdeiros de um fantasmático patrimônio cultural. Daí, amargurados com o presente, que não está à altura de sua impecável formação e de seu sibilino gosto, contemplam desde o Olimpo em que se veem a planície dos escritores e ensaístas que insistem em aumentar-lhes a dose diária de pessimismo.

O dilema, no entanto, é mais complexo. Por isso, dedico uma série de artigos à discussão do tema.

Anuncio minha hipótese: a circunstância contemporânea apresenta uma potência inédita na história da cultura brasileira; potência que se encontra nublada pelo blaseísmo dos adeptos da “melancolia chique”. Em consequência, pretendo apontar os elementos criativos e promissores na cena atual.

Contudo, somente um “funcionário do contemporâneo” confundiria potência inédita com situação ideal ou realização plena de promessas. Nesta coluna começarei a discutir o jornalismo cultural, pois o gênero possui uma vitalidade que deve ser estudada. Porém, seria risível imaginar uma análise meramente “otimista”; ora, há pouco mais de um mês esse mesmo jornalismo cultural sofreu um duro golpe com a extinção do Sabático, suplemento de O Estado de S. Paulo, dirigido com brilho e rigor por Rinaldo Gama.

No fio da navalha, portanto, deve ser a reflexão acerca do aqui e agora; afinal, numa estrutura contraditória, impasses e promessas se equivalem.

Na corda bamba
De um lado, verifica-se um movimento intenso na área da literatura, em particular, e da cultura, em sentido amplo. Festivais literários se multiplicam; jovens leitores criam blogs e vlogs para discutir suas leituras; autores se desdobram em oficinas e palestras; pequenas editoras surgem com propostas ousadas; o fenômeno da auto-publicação se firma no cenário das letras brasileiras, etc. etc..

De outro lado, escuta-se um coro orquestrado de teóricos, críticos e jornalistas decretando a decadência do momento atual, e, em casos extremos, diagnosticando o “vazio cultural” como a marca-d’água dos tempos que correm.[1]

Ora, em meio ao tiroteio, que partido tomar?

No primeiro momento, partido algum. Trata-se de estudar o presente com uma dupla mirada, destacando as promessas, porém assinalando os impasses.

Em segundo lugar, deve-se analisar, concretamente, a cena contemporânea; caso contrário, como evitar o ridículo de uma frase que se ouve e lê com uma frequência preocupante? Eis: afirma-se que a literatura brasileira contemporânea pouco vale; e a crítica, nada conta. Nesse caso, pergunta-se ao casmurro magistrado: “mas que autores contemporâneos o senhor leu recentemente?”. A resposta, primorosa em sua perversão, encerra o diálogo, como se os famosos antropólogos de gabinete do século 19 retornassem sem constrangimento: “Eu? Nenhum, claro! Pois se a literatura brasileira contemporânea pouco vale…”.

Adoto atitude oposta, partindo sempre de estudos de caso. Como regra, apenas um cuidado: substituir as declarações grandiloqüentes pelo exame deste ou daquele suplemento literário, deste ou daquele caderno cultural. Análise que desdobrarei nos próximos artigos desta coluna, e dedicarei um texto para o estudo da crítica literária realizada no universo digital.

(Este artigo deve ser lido como um primeiro passo.)

Estudos de caso
Começo por uma ordem arbitrária, que não representa um juízo de valor. E reitero meu método: identificar o perfil da publicação e o estilo de colunistas e colaboradores, privilegiando os que se dedicam mais regularmente à literatura.

O Segundo Caderno, de O Globo, realizou uma reformulação editorial há aproximadamente dois anos, reunindo novos colunistas.

Daniel Galera tem utilizado seu espaço, às segundas-feiras, para apresentar uma inovadora poética do romance de sua geração. Em ‘Fausto’ e ‘Bioshock’ (20/05/2013), por exemplo, discutiu o filme de Alexander Sokurov e o jogo “Bioshock Infinite” com dicção programática: sem estabelecer hierarquias prévias, destacando o potencial narrativo e reflexivo de cada meio. É um traço ao qual retorna com freqüência. Em Forçados a matar (11/03/2013), ele discute “o jogo de tiro em primeira pessoa ‘Spec Ops: The line’”, chegando ao ponto-chave: “Por um lado, é um jogo de tiro comum (…). Por outro lado, é uma metanarrativa que questiona o jogador a pensar no que está fazendo”.

Às quartas-feiras, Francisco Bosco exercita um modelo próprio; forjando um estilo singular. Talvez se possa caracterizá-lo como o resultado de uma escrita deliberadamente híbrida, oscilando entre a crônica pessoal, o ensaio curto de fôlego filosófico e a crítica cultural. Em seus melhores momentos, é capaz de propor reflexões de alta intensidade para um grande público. Penso, em especial, no texto O cheio e o vazio (20/03/2013). Nele, com uma intuição crítica irretocável, Bosco coloca em xeque-mate o propalado diagnóstico do “vazio cultural”: “a sensação de vazio (…) é em larga medida um efeito dialético da abundância” (grifos do autor).

Às sextas-feiras, a coluna de Hermano Vianna realiza um mapeamento do contemporâneo, sempre surpreendendo o leitor com referências geralmente desconhecidas. E seu olhar nada tem a ver com os gabinetes de curiosidade setecentistas; pelo contrário, sua perspectiva antropológica desnaturaliza preconceitos culturais, destacando eixos de produção muito além do nó górdio do centro Rio-São Paulo. Na querela sobre o “vazio cultural”, escreveu um texto definitivo, Era melhor antes (15/02/2013), mostrando que a nostalgia por uma utópica idade de ouro é um lugar-comum: “Essa modinha pessimista já dura 30 séculos: ninguém pode pretender ser original dizendo que hoje tudo vai mal”.

Aos sábados, José Miguel Wisnik desenvolve uma crítica cultural de alto nível, seguindo a linha de seus últimos livros. Destaco seu esforço em sincronizar um amplo repertório artístico e uma sólida formação acadêmica com as urgências do calor da hora. Desse modo, busca alcançar a justa medida entre rigor universitário e agoridade jornalística. O exemplo paradigmático talvez seja o artigo Ordem na casa (06/04/2013). Wisnik associou a “Proposta de Emenda Constitucional” relativa aos empregados domésticos à obra de Clarice Lispector, desenhando o ângulo mais agudo do problema: “que a existência, de si e do outro, é o grande luxo”. Penso também no texto Pontos (20/04/2013), no qual retornou à querela do “vazio”: “Acho o Brasil um país de grande vitalidade cultural (…). Ao mesmo tempo, essa vitalidade contracena com o baixo letramento médio brasileiro”. Promessas e impasses é mesmo o Leitmotiv dessa discussão.

Um traço distintivo dos colunistas do Segundo Caderno é o que se pode denominar “endogamia harmônica”, pois os colaboradores citam uns aos outros com assiduidade.[2] Aqui, a estrutura contraditória se insinua. A prática tanto pode dar margem à cordialidade intelectual dos elogios recíprocos, quanto pode originar a modalidade instigante de jornalismo que lança mão da intertextualidade como forma de dialogar com o presente. Na minha percepção, embora vez ou outra os colunistas incorram num circuito auto-indulgente, em geral, o sistema de auto-referência contribui para a voltagem crítica, em lugar de domesticá-la.

No caderno Ilustrada, da Folha de S. Paulo, a diversidade de pensamento é muito maior, o que ocasiona uma interessante “endogamia agônica”, por assim dizer. Um bom exemplo são as críticas, justas a meu ver, de Marcelo Coelho a Luiz Felipe Pondé. Em seu permanente afã de chocar, Pondé tende a substituir a vocação polêmica pela deselegância intelectual.

Recentemente, um texto provocador e instigante de Contardo Calligaris acerca da eficiência da tortura em situações-limite, Para que serve a tortura (21/02/2013), provocou reações contrárias de Marcelo Coelho e de Vladimir Safatle, colunistas do mesmo jornal, permitindo o desenvolvimento de uma discussão de grande importância, especialmente no instante em que se constituiu a Comissão da Verdade. O parágrafo final do artigo transferiu ao leitor uma pergunta cuja resposta obriga a uma complexa revisão dos próprios valores: “Uma criança foi sequestrada e está encarcerada em um lugar onde ela tem ar para respirar por um tempo limitado. Você prendeu o sequestrador, o qual não diz onde está a criança sequestrada. Infelizmente, não existe (ainda) soro da verdade que funcione. A tortura poderia levá-lo a falar. Você faz o quê?”.

O tema rendeu réplicas e tréplicas. Na Ilustríssima, o artigo de Helio Schwartzman, Genealogia da moral (03/03/2013), procurou colocar os pingos nos iis. A “endogamia agônica” produziu um debate relevante, chegando a favorecer o aparecimento de uma instância metacrítica. O fecho do artigo de Schwartzman evidenciou a potência do jornalismo cultural: “o interessante nessa história toda é que, quanto mais nos embrenhamos nessas reflexões, mais precário parece o edifício lógico no qual sustentamos as convicções morais que expressamos com tanta veemência”.

Não vou ficar em cima do muro: acompanhei com grande interesse a discussão, que se desdobrou num debate entre Contardo Calligaris e Marcelo Coelho no programa da TV Cultura, “Metrópolis”.[3] A questão levantada por Calligaris não se esgotou. E muito embora admire a escrita e as reflexões de Marcelo Coelho, sua posição na querela ficou aquém de sua inteligência.

Ainda na Ilustrada, às sextas-feiras, Michel Laub aborda temas variados, com destaque para o cinema e o universo digital. No artigo, Existe amor no FB (01/02/2103), o leitor é surpreendido por uma associação inteligentíssima de Antonio Vieira, Jonathan Franzen e o Facebook! De fato, em sua reflexão sobre ensaio de Vladimir Safatle, Relativa prosperidade, absoluta indigência,[4] Laub explorou o limite do argumento dos arautos do “vazio cultural”: “Ao avaliar os últimos dez anos, Safatle não cita a palavra internet. É ela que, com o barateamento dos meios de produção de conteúdo, num impacto análogo ao da invenção da imprensa ou da revolução industrial, tornou a nova era tão difícil de ser interpretada”.

Eis o gesto que deve ser incorporado como método crítico: manter os olhos bem abertos para a diferença da cena presente, em lugar de investir numa tediosa arqueologia da ausência, sempre lastreada numa projeção anacrônica de um passado que no fundo não se conhece a contento.

Reitere-se: diante da vitalidade que começo a caracterizar, vislumbrar o “vazio” não deixa de ser uma façanha intelectual…

E, no entanto, há menos de dois meses O Estado de S. Paulo tomou a decisão de acabar com o Sabático.

A contradição é mesmo a respiração artificial da circunstância contemporânea.

É o que tentarei mostrar nos próximos artigos.


[1] Recordando: o número 734 da revista Carta Capital, publicada em fevereiro de 2013, estampou na capa o diagnóstico: “O vazio cultural”. O título do editorial, de Mino Carta, sintetiza o espírito da publicação: “A imbecilização do Brasil”. Em alguma medida, a pauta reforçava as teses expostas no romance de Mino Carta, O Brasil (Record, 2013).

[2] Mas o impulso não é somente endogâmico. No artigo “Bessa-Luís, Ecad etc.” (21/04/2013), Caetano Veloso reconheceu: “Sou grato ao colunista da Folha de S. Paulo João Pereira Coutinho por ter sugerido que atentássemos para Augustina Bessa-Luís”.

[3] O programa pode ser visto.

[4] A generalização do raciocínio de Safatle é definidora da “melancolia chique”: “Há de se reconhecer que a produção contemporânea é, em várias partes do mundo, substancial. Olhemos para nossos vizinhos. Muito se fala sobre a qualidade do cinema argentino, da literatura chilena. Da mesma forma, artistas plásticos promissores continuam a aparecer em várias partes do mundo. Isso serve para nos mostrar como, na verdade, há um problema especificamente brasileiro” (Carta Capital, n° 734).

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