Dom Casmurro

abril 2020 / Dom Casmurro / Jogo, água, fogo, mágoa

Texto publicado na edição #240

Jogo, água, fogo, mágoa

Conto Inédito de Luiz Ruffato

> Por LUIZ RUFFATO

Ilustração: Mello

Ilustração: Mello

Para Pedro Hallack

Eu era um estudante pobre em Juiz de Fora, onde fora fazer um curso técnico de eletrônica no Instituto Granbery, sonho, que, aliás, cumpri, de abrir uma bancada própria em Cataguases. Morava numa república com mais cinco colegas, estudava à noite, e, para me manter, trabalhava numa loja de produtos agropecuários, na rua Floriano Peixoto, no centro da cidade. No fim do mês, comprava, com bons descontos, xampu, condicionador e perfume para cachorro, que usava no dia a dia, para espanto do pessoal da república. Ao patrão, seu Latif, mentia, dizendo que tinha um pastor alemão, e para ele até nome inventei, Viriato. Seu Latif, hoje tenho certeza, não acreditava na minha história, desconfiava que eu usava os produtos, e, talvez por ser imigrante sírio, que começara mascateando de porta em porta nas cidades da região, condoía-se com minha penúria. Quando fechávamos a loja, às seis horas, era eu que permanecia mais um pouco ajeitando as coisas para o dia seguinte. Algumas vezes cheguei atrasado na primeira aula por causa disso, mas ele gostava de mim, eu precisava do emprego, e assim ia levando a vida.

Seu Latif tinha uma mania. Não dava um passo sem consultar o Além. E não guardava qualquer preconceito. Frequentava com a mesma desenvoltura terreiros de umbanda, cartomantes, quiromantes, jogadores de búzios… Em todos os videntes acreditava, embora não se ativesse a nenhum. Eu sabia disso porque, depois do expediente, enquanto preparávamos para sair, ele comentava, ou melhor, falava em voz alta, para si mesmo, com forte sotaque árabe, que decidira comprar umas casinhas em Santa Luzia, pois uma mãe-de-santo confirmou que a transação ia ser produtiva, ou que desistira de vender as terrinhas, parte de uma herança, em Yabroud, porque o tarô indicou ser melhor esperar mais um pouco.

Uma sexta-feira, fevereiro ou março, seu Latif disse, após descerrar a porta de aço, “Silvio, você pode ir comigo amanhã viajar pra pertinho?”. Pensei, sábado a gente largava ao meio-dia, eu aproveitava para descansar… Mas não queria contrariar o velho, perguntei, “Pra onde, seu Latif?”. Ele respondeu, “Pra ver uma senhora, dizem que muito boa, pra orientar Latif”. Chateado, mas procurando não demonstrar, falei que iria, sim. Ele recomendou, “Você aparece pelas sete e meia, deixo a Firmina tomando conta, ela abre e fecha as portas”. Firmina trabalhava no caixa e era de confiança.

No dia seguinte, cheguei no horário combinado e deparei com seu Latif conversando com a Firmina. Daí a pouco, saímos, pegamos o carro, que estava no estacionamento, um Opala usado que servia também para transportar mercadorias, e tomamos a Rio-Brasília, recém-inaugurada. Seu Latif seguia calado, atento às curvas da estrada, pois dirigia mal, o tronco em cima do volante, o rosto projetado para a frente, os olhos castanhos escondidos por trás dos óculos-aviador. Cerca de uma hora e meia depois, deixamos a rodovia principal, apanhamos a sinuosa União e Indústria. Em Pedro do Rio, percorremos uma rua estreita, até que ele parou, conferiu a numeração, estacionou em frente a um prédio de cinco andares, bastante precário, e disse, “É aqui”. Subimos devagar uma escada apertada e escura, até o último andar. Caminhamos por um corredor, cuja meia-parede, à esquerda, dava para a rua lá embaixo, perfilando, à direita, as portas dos apartamentos, seis ao todo, sendo o sexto, em frente onde paramos, o único disposto transversalmente.

Resfolegando, seu Latif apertou a campainha e logo um rapaz, regulando idade comigo, atendeu, e mandou-nos entrar, franqueando a sala de visitas, minúscula, sofá de dois lugares, poltrona e televisão. No chão, um tapete desfiado. As paredes, um dia brancas, careciam de uma demão de tinta. “Fiquem à vontade”, ele disse, sumindo por trás da cortina de tiras de plástico multicolorida. Seu Latif sentou na poltrona, esticando as pernas. Eu aproximei da janela, que dava para um terreno baldio. Dali, avistava as águas enfezadas do rio Piabanha, correndo espremidas entre as montanhas. Ao longe, nuvens pretas anunciavam chuva para mais tarde. Uma Kombi passou devagar propagandeando descontos do Supermercado Rodrigues. Voltei, sentei no sofá. O teto tinha manchas de mofo. Fazia calor. Seu Latif suava, desconfortável. Aguardamos, em silêncio, ainda por uns 15 minutos, até que o rapaz ressurgiu, falou, “O senhor pode me acompanhar”, e vi os vultos de ambos entrarem na porta à esquerda do corredor interno.

Sozinho, o tempo custa a passar. Pensei na roupa suja para lavar, acumulada num canto do guarda-roupa. Imaginei como seria aquele ano em Juiz de Fora, o último, antes de voltar para Cataguases. Lembrei da Dodôra, com quem estava namorando firme e pretendia casar — o que acabou acontecendo três anos depois. Cataloguei possíveis nomes de criança para nossos filhos — desejava um casal, e tive, Milene e João Pedro, escolhidos por ela. Levantei, debrucei de novo na janela e percebi que, prestando atenção, dava para ouvir o barulho longínquo dos motores dos carros, ônibus e caminhões que trafegavam pela 040. Vi uns meninos brincando num parquinho improvisado no terreno baldio. Acompanhei algumas pessoas que perambulavam pela calçada. Sentei novamente na poltrona, amuado, suando e com sede.

Não levava relógio, mas acredito que decorreu mais de meia-hora antes de eles reaparecerem na sala. Na hora não percebi, preocupado que estava em solicitar um copo d´água, mas seu Latif trazia o semblante mudado. O rapaz perguntou se seu Latif também queria, ele agradeceu com a cabeça, tenso. Depois que devolvi o copo, descemos mudos as escadas, entramos no Opala, cortamos a União e Indústria até o acesso à Rio-Brasília. Um aglomerado de nuvens carregadas eclipsava o sol. Já andáramos uns dez quilômetros, quando pingos grossos começaram a alvejar o vidro dianteiro. Em seguida, desabou um temporal tão forte que não dava para ver nada à frente. Seu Latif ainda dirigiu por um tempo, mas acabou obrigado a parar no acostamento, perto de Areal. Ficamos assim, dentro do bafor do carro, aguardando, só o ruído do vento e a algazarra da chuva chicoteando a lataria.

Aí, de repente, seu Latif murmurou, daquele jeito que não era bem para estabelecer uma conversa, apenas uma forma de organizar as ideias: “Mulher estranha, essa Mãe Eva!”. Esperei que ele continuasse, demonstrando interesse, mas sem pronunciar uma palavra. Depois de suspirar e mexer no banco, ele retomou: “Falou que em um ano tudo vai mudar. Falou: cuidado com jogo, cuidado com água, cuidado com fogo, cuidado com mágoa…”. E riu um riso nervoso. Eu nunca intervinha nessas ocasiões, pois sabia que ele não estava requerendo minha opinião. Porém, não sei por que, nesse dia, talvez por encontrarmos ilhados no meio do nada, e, portanto, sentindo-nos mais próximos, resolvi perguntar: “O que isso quer dizer, seu Latif?”. Ele resmungou algo em árabe, que não entendi, completou, “Não sei”, e apertou as mãos no volante do carro, com angústia. A chuva finalmente cessou e prosseguimos. Seu Latif permaneceu quieto, enquanto eu distraía a cabeça observando a deslumbrante serra da Mantiqueira que descortinava pela janela. Em Juiz de Fora, seu Latif me deixou no centro, almocei uma feijoada na avenida Getúlio Vargas e dormi o resto do sábado.

Depois daquela viagem, seu Latif mudou. Mostrava-se ansioso, emagreceu, os cabelos embranqueceram, tornou-se ranzinza e desconfiado com os empregados, enjoado com os fregueses. No meio do ano, não aguentando mais o mau humor dele, deixei a loja. Passei as férias de julho em Cataguases, o que foi bom, pois comecei a ajeitar as coisas para a minha volta, e com o dinheiro que tinha acumulado decidi vencer os meses restantes em Juiz de Fora só por conta dos estudos. Quando chegou o começo de dezembro, formado e diplomado, resolvi me despedir do seu Latif, antes de ir embora de vez, porque, afinal, havia trabalhado lá dois anos e meio, e, apesar de tudo, gostava do velho. Eu o encontrei acabado. Em outubro, um de seus filhos, Jamil, o caçula, tinha morrido afogado no rio do Peixe, perto de Rosário de Minas, onde possuía um sítio. Ele me tratou com rispidez, culpava o mundo por sua tragédia.

Somente uns dois anos depois voltei a Juiz de Fora. Minha mãe andava reclamando de dores nas costas, remédio algum dominava, e os médicos de Cataguases recomendaram levar ela para a Santa Casa de Misericórdia, que tinha mais recursos. O primeiro dia gastei entretido com a papelada de internação, mas, na manhã seguinte, ela recolhida para exames detalhados, dispus a passear pela cidade, espairecer dos sofrimentos da mãe e das amolações com o casamento próximo. Peguei um ônibus e desci no segundo ponto da rua Moraes Sarmento, no bairro Santa Catarina. A pé, cruzei pela calçada oposta à casa onde havia morado, o Vaguinho, que cursava Engenharia na Universidade Federal, estava saindo, não me reconheceu — eu usava barba agora. Continuei caminhando, relembrando os velhos tempos, o Hospital-Escola, a igreja da Glória, o bar da Bebel, que à meia-noite servia uma sopa, elaborada com as sobras do dia, disputada por bêbados, prostitutas, desempregados e estudantes pobres… Avancei pela avenida Rio Branco, deu saudades do seu Latif, rumei para a rua Floriano Peixoto.

Para minha surpresa, no lugar da Agropecuária Ghazal, havia um empório de condimentos, temperos, especiarias e molhos, Tesouro do Oriente. Embaraçado, entrei e perguntei pelo antigo dono. Logo, um rapaz aproximou, indagou quem queria saber, expliquei que havia trabalhado ali, em outra época, ele informou que era sobrinho do seu Latif e que o tio, infelizmente, tinha morrido de uma hora para outra, “Não ficou doente nem nada, simplesmente encontraram ele caído, no banheiro”. E concluiu: “Deve de ter sido porque a loja pegou fogo”. “Pegou fogo?”, perguntei, boquiaberto, “Quando?”. Ele pensou, respondeu, displicente, “Janeiro, janeiro do ano passado”. Ou seja, pouco depois que eu formei, pouco depois que despedi dele… Na manhã seguinte, minha mãe ganhou alta, retornamos para Cataguases no primeiro horário.

***

Mais um ano correu. Casado, a bancada de conserto de aparelhos eletrônicos engrenara, comprei um Chevette Hatch verde seminovo, e com ele fomos, a Dôdora, grávida, e eu, comprar o enxoval da neném em Juiz de Fora, bem mais em conta. Deixei o carro num estacionamento na rua Batista de Oliveira e a Dodôra na parte baixa da rua Marechal Deodoro, e, sem paciência para acompanhá-la, embiquei para o calçadão da rua Halfeld. Esbarrando nas pessoas que perambulam apressadas por ali, subi devagar até o Parque Halfeld, desci até a avenida Getúlio Vargas, satisfeito, recordando outra quadra, não tão distante no tempo assim, mas já longínqua na memória. Quando preparava para refazer o percurso, avistei no meio do povo o seu Mancuso, um calabrês de estopim curto, representante de um laboratório que fornecia medicamentos veterinários para a loja do seu Latif. Ele vestia um terno preto arruçado, carregava sua inseparável bolsa trapezoidal de couro, surradíssima, os mesmos vastos cabelos e bigode pretíssimos, pintados e bem aparados. Interceptei seus passos, ele assustou, não me reconheceu de começo, talvez por causa da minha barba, mas quando me apresentei, ele abriu um sorriso, bateu a mão pesada no meu ombro, “Mas, Silvino, que coisa, Silvino, que coisa!”. Ele me chamava de Silvino. Expliquei que tinha formado e voltado para Cataguases, que tinha negócio próprio, que tinha casado. “Aliás, a Dodôra, minha esposa, está de barriga”, disse. Ele ficou sinceramente feliz. Me parabenizou, falou, com o marcado sotaque italiano, “Sempre achei que você ia longe, sempre achei”, e convidou para tomar um café. “Eu pago, Silvino, eu pago.”

Entramos na galeria João Beraldo, ele pediu dois cafés. A garçonete depositou os copos americanos pela metade no balcão. Ambos de pé, observando o frenesi que sinaliza o arremate da manhã, falei: “Seu Mancuso, que tristeza o que aconteceu com seu Latif…”. “Pois é, ataque fulminante.” “Como assim?” “É, morreu do coração. Desgosto…” “Do coração?” “Não sabia?” “Não… O sobrinho disse que ele murchou, depois que pegou fogo na loja.” Seu Mancuso fez um esgar irônico, “Então, você não conhece a história?”, aspirou forte o ar fresco de abril, disse: “Seu Latif andava com aquela moça…”. “Moça?” “É, a do caixa…” “A Firmina?!” “Isso, Firmina… Nem bonitinha ela era… Mas, como dizem, Chi non guarda, non vede…” E seu Mancuso contou que seu Latif estava apaixonado, mas como a Firmina era bem mais nova, ele, inseguro, morria de ciúmes. Para compensar a diferença de idade, enchia ela de presentes. No entanto, por medo de que os gastos levassem a família a desconfiar do caso, começou a frequentar a jogatina do Clube Sírio e Libanês para fazer dinheiro. Nesse meio tempo, a morte do Jamil, o caçula, deixou ele transtornado. Sentindo culpa pela vida que vinha levando, resolveu romper com a Firmina e largar o carteado, mas tanto a Firmina quanto os credores passaram a ameaçá-lo. Desesperado, decidiu pôr fogo na loja: assim, livrava-se da Firmina, e, com a indenização, acertava com os agiotas. Só que a seguradora descobriu a fraude e entrou com processo contra ele. Tudo veio à tona e, envergonhado, seu Latif sofreu um colapso… Seu Mancuso ainda acrescentou alguma coisa, mas eu já não ouvia mais nada, apenas lembrava da viagem a Pedro do Rio e da predição da Mãe Eva, cuidado com o jogo, cuidado com a água, cuidado com o fogo, cuidado com a mágoa…

Luiz Ruffato
Autor de Eles eram muitos cavalos, Inferno provisório e O verão tardio, entre outros. Seus livros estão publicados em 12 países.

Print Friendly