Tudo é narrativa

outubro 2019 / Tudo é narrativa / Jim Sumkay, de Liège

Texto publicado na edição #234

Jim Sumkay, de Liège

As imagens eram muito inteligentes e divertidas, compondo situações irônicas pelo diálogo entre texto visual e verbal

> Por Tércia Montenegro

Uma parte do meu recém-lançado romance Em plena luz (Companhia das Letras) se passa em Liège, cidade belga onde vivi durante um semestre. À parte o fato de ser a terra natal de Georges Simenon, o local não prometia grandes descobertas culturais — mas logo encontrei ótimas surpresas. Os excelentes museus e cinemas, além da Biblioteca Chiroux, fizeram a minha felicidade na época. Entretanto, dentre tantas boas lembranças, a mais especial talvez esteja ligada a um episódio de reconhecimento estético que me impressionou profundamente.

Aconteceu assim: na primeira semana da estada, eu — durante uma visita ao Curtius Museum — encontrei uma exposição que trazia fotos e projeções fotográficas de “coincidências visuais”. As imagens eram muito inteligentes e divertidas, compondo situações irônicas pelo diálogo entre texto visual e verbal. Por exemplo, numa das fotos viam-se três policiais de costas passando por uma rotisserie onde havia a placa “Les trois poulets”, como se fossem aqueles agentes da lei os tais frangos anunciados. Em outra, uma porção de gansos se amontoava em frente a uma porta de igreja em que se lia a faixa “Venham a Deus com todo o seu coração”.

Eu me via rindo quase às gargalhadas com esses achados, que — além do aspecto de humor — eram também fotografias de alta qualidade. Mas na ocasião o nome do artista, Jim Sumkay, me fez imaginar um jovem magro, estadunidense, que estivesse incursionando pela Europa. Provavelmente alguém ligado ao cinema, ou a histórias em quadrinhos, pelo tipo de narratividade em suas composições.

Não cuidei de guardar esse nome ou investigá-lo pela internet.

Alguns meses depois, eu andava em direção à Universidade de Liège, para resolver compromissos profissionais, e de repente flagrei um homem, com cerca de cinquenta anos de idade, usando bigode, cavanhaque, óculos e chapéu. Ele segurava uma pequena câmera, tentando enquadrar uma pessoa que andava e dali a um instante estaria diante de um caminhão com um anúncio de um frigorífico. Eu li a frase do anúncio, observei a pessoa, antecipei mentalmente a foto que aconteceria — e fiquei paralisada.

A minha suspensão alertou o homem, que se empertigou meio desconfiado: “Bonjour?”. Eu devia estar com os olhos tão arregalados que provavelmente parecia uma louca. Com um ímpeto impossível à minha timidez, avancei para ele, estendendo a mão a cumprimentá-lo. “O senhor”, perguntei, “estava expondo umas fotos no Curtius, um tempo atrás?” Agora quem se espantava era ele: “Sim, mas como…?” Eu estava à beira da euforia: “Eu reconheci! Essa cena, essa situação… era uma fotografia sua, bem aqui!”.

Aquela evidência estilística, materializada num acaso que considerei milagroso, fez com que confraternizássemos, numa breve conversa. Ele me contou que tinha superado o alcoolismo “substituindo um vício por outro” — e não se passava um dia sem que saísse para fotografar.

Nunca mais reencontrei Jim Sumkay, mas comecei a visitar sua página virtual. Principalmente depois que voltei ao Brasil, suas imagens ganharam em afetividade, na medida em que me faziam tornar às ruas de Liège. Entretanto, eu não me dava conta de como seguir o seu trabalho impregnava a escrita do romance que ia elaborando. De modo consciente, sabia que as cenas ambientadas na cidade belga nasciam de anotações e demais registros que eu própria tinha acumulado durante a vivência por lá. Era esse material o alvo das minhas consultas diretas, à medida que a história ia sendo construída. A página de Sumkay eu espiava em momentos “de folga”, despretensiosamente, por assim dizer.

Percebi a dimensão dessa influência há pouco tempo, já na fase de preparação editorial do Em plena luz. Em determinado dia — enquanto descansava do trabalho de revisar os originais —, entrei na página do fotógrafo e achei um casal abraçado na Praça Saint-Lambert, bem diante do monumento em homenagem às vítimas do terrorista Nordine Amrani, que ali atacou em 2013. Foi um efeito madeleine: involuntariamente, me lancei de volta à sensação de andar pelo mesmo local, eu também em busca de memórias.

Encontrei em outra foto, comovida, um personagem que frequentava o refeitório da Biblioteca Chiroux, um idoso que eu associava a uma figura de Dürer. E descobri, dentre tantos gatos clicados por Sumkay (é um de seus temas preferidos), aquele que um dia eu própria fotografei, dentro de uma loja na rua Féronstrée.

Em certo trecho do livro, minha protagonista diz: “Afinal, trago coisas que não compartilho. Basta me acalmar, e estão lá — as ruas estrangeiras. Liège, Lieja, Luik: o refúgio que ela significou para mim. ‘Cortiça’, eu disse para mim mesma, ‘é o que significa Liège.’ E a cidade me fez boiar, sim, na espuma confusa daqueles dias”.

Jim Sumkay é igualmente náufrago. É mais alguém que se salvou — e que nos salva — através da arte.

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