Ensaios e Resenhas

outubro 2011 / Ensaios e Resenhas / Jesus corredor

Texto publicado na edição #129

Jesus corredor

Em novembro estive em Paris. Acordava às cinco da manhã e saía para correr, estava hospedado nas imediações da Gare […]

> Por LUIZ HORÁCIO

Em novembro estive em Paris. Acordava às cinco da manhã e saía para correr, estava hospedado nas imediações da Gare St- Lazare. O frio começava a se estabelecer e minha indumentária era a mesma do inverno porto-alegrense. Costumava ir até o Parc des Buttes-Chaumont e, não fosse o fato de sempre encontrar o casal parisiense Cristophe e Irene, tudo estaria conforme Porto Alegre. No ato de correr, nenhuma mudança, excetuando-se o cenário. Às vezes, encontrava corredores e conversávamos, dentro das limitações do “meu francês”. Quando sozinho, não pensava em nada de especial, tampouco em meus compromissos. De vez em quando vinha a mente un canard, un vin rouge, coisas do gênero. Ao ler Do que falo quando eu falo de corrida, me veio a sensação da mais sincera obviedade nas páginas dessa auto-ajuda genérica de Haruki Murakami, temperada com altas doses de filosofia de botequim. E dizer que o próprio é autor de Kafka à beira-mar. Lamentável, para não dizer constrangedor. Repare:

Tento não pensar em nada de especial enquanto estou correndo. Na verdade, corro com a minha cabeça totalmente vazia. Mesmo assim, acho que exatamente por estar me concentrando em nada, alguma coisa surge naturalmente e, como um susto, de repente já está no meu pensamento. Essas coisas, eventualmente, acabam virando idéias que participam da minha criação literária.

São várias como essa, nesse mesmo tom, que aproxima o diário de Murakami de um testemunho de presidiário convertido à Igreja Universal. Murakami aceitou seu Jesus, seu Jesus corredor. Francamente!

Não estou condenando o autor, mas ele diz o óbvio do óbvio. Quem, que corra diariamente, não sabe das modificações que o hábito exige, quem? Escrito em forma de diário, Do que eu falo quando falo de corrida narra os acontecimentos relacionados aos treinos e maratonas de que participou o autor, em seis dias de 2005, dois de 2006 e, perdido, um dia de 1996, no qual o autor conta sua experiência numa corrida de cem quilômetros.

Murakami também aproveitou para fazer seu merchandising de tênis para corrida. A relação corredor/romancista está no segundo capítulo: Dicas para se tornar um romancista corredor. Calma, apressado leitor, poupe seu dinheiro: compre um calção e esqueça o livro. No caso de você ser escritor, o segundo passo é o mais fácil, correr. Mas se você for um corredor, alto lá. Diminua o ritmo. Correr 300, 400, 500 quilômetros por mês não fará de você um escritor. Digo isso porque o autor trata essas atividades como sublimes. Pura bobagem. Nada que o ser humano faz pode ser sublime.

Murakami diz que maratonistas e romancistas precisam desenvolver alta concentração e perseverança para alcançar seus objetivos, que o resultado só aparece após trabalho duro e contínuo. Lavar vidros no vigésimo andar, pelo lado de fora, também exige concentração e perseverança. Lendo Do que eu falo quando eu falo de corrida, me ocorreu a idéia de escrever um livro sobre o ato de caminhar nas grandes cidades. Começará assim: “É aconselhável não ocupar o mesmo lugar que os automóveis quando em movimento”.

Enfim, quem corre diariamente não encontrará novidade alguma no relato do pastor Murakami. Quem não corre dificilmente se sentirá estimulado a fazê-lo. Sublime demais. Coisa para escritores. Quem sabe pintores. Por isso, corra à livraria e compre Minha querida Sputnik ou Kafka à beira-mar. Parece mentira, mas trata-se do mesmo Murakami. Quanta saudade de Paris!

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murakami

Haruki Murakami
Trad.: Cássio de Arantes Leite
Alfaguara
152 págs.