Dom Casmurro

janeiro 2018 / Dom Casmurro / Jan Wagner

Texto publicado na edição #213

Jan Wagner

Cinco poemas de Jan Wagner

> Por VIVIANE DE SANTANA PAULO

Jan Wagner, autor de Austrália.

Jan Wagner, autor de Austrália.

Tradução: Viviane de Santana Paulo 

Jan Wagner nasceu em Hamburgo (Alemanha), em 1971. Em 2001, surgiu sua primeira coletânea de poemas Probebohrung im Himmel. Em seguida, Guerickes Sperling (2004), Achtzehn Pasteten (2007), Austrália (2010), The Owlhasters in the Hall Houses (2012) e, finalmente, Selbstporträt mit Bienenschwarm (2016). Jan Wagner recebeu vários prêmios, entre eles, o Prêmio Feira do Livro de Leipzig, em 2015, com a coletânea Regentonnenvariationen (2014), e em 2017, o Prêmio Georg Büchner, o mais prestigiado de língua alemã. Wagner chama atenção através da sensibilidade aguda com a qual capta os momentos corriqueiros, aparentemente insignificantes, e os transforma em uma fotografia, em um curta-metragem, tal é a força da imagem metafórica que se desfigura na imaginação do leitor. Os poemas focalizam determinadas situações ou objetos cotidianos convertendo-os em figuras que ilustram o estado de espírito momentâneo do indivíduo.

alter biker

steigt schnaufend von seiner maschine,
knarzend in seinem leder, langhaarig, steif
wie eine mumie aus der bronzezeit.
wohnt ansonsten, sagt er, in den bergen
montanas, sagt: vor über fünfzig jahren
sprang eine junge frau bei ihm auf, kam mit,
für die er einen fischteich aushob, zehn
japanische karpfen darin, dann sieben, zwei,
bis er den grauen reiher sah, der satt
davonflog. wohnt sonst einsam, sagt er, auf dem
berg in montana, aber tourt jetzt wieder,
schwebt breitbeinig über die landstraßen hin mit seiner
gotteswolke von vollbart, gleitet vorbei
an fernfahrern, hoch auf ihren dieselkanzeln;
fragt sich noch immer, sagt er, die augen selbst
im stehen zusammengekniffen in einem fahrtwind,
von dem wir nichts ahnen, wie der vogel
gerade seinen teich entdecken konnte,
ausgerechnet seinen winzigen fischteich
im ungeheuren, riesigen montana.
o velho motociclista

desmonta resfolegante de sua máquina,
rangendo o seu couro, os cabelos longos, ele endurecido
como uma múmia da Idade do Bronze.
vive à exceção disso, diz ele, nas montanhas
montanas, diz: há mais de cinquenta anos
veio uma jovem mulher morar com ele, junto de si,
para a qual ele cavou um viveiro de peixes, dez
carpas japonesas ali, em seguida, sete, duas,
até que viu a garça cinzenta, que empanturrada
voou longe. agora vive sozinho, diz ele, sobre o
montanha em montana, mas está em turnê de novo,
montado flutua pelas estradas afora com a sua divina
barba espessa de nuvem, desliza passando
pelos caminhoneiros, elevados nos seus púlpitos a diesel;
ainda se pergunta, diz ele, com os olhos
estreitados mesmo parado a sotavento,
daquilo que nada sabemos, como o pássaro
descobriu justo a sua lagoa,
exatamente o seu pequeno lago com peixes
na enorme, vasta montana.

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tang

wieder ist da sein duft, durchdringt all die jahre, schwächer, unverkennbar: tang, in einem bestseller von miller oder young, gepreßt mit etwas sand, mürbe wie alte lederriemen, meereszügel; porös wie ein rangabzeichen, ein ordensband aus glorreichen zeiten, das uns peinlich berührt. kaum zu glauben, daß er einst unsichtbares in tanz zu übersetzen wußte; anmut ist eine frage der strömung, er beweist es, etlicharmige unterwassersirene, wenn auch stumm, ohne gesang. wie er sich um die schrauben schlang, mit all seiner nachgiebigkeit, ölig glänzend wie ringerkörper; wie er dem schwimmenden kalt ans bein griff, ihn als ertrunkenen begrüßte unter seinesgleichen. nach dreißig stunden sturm und wellengang als brandungsschlacke am strand: müde haufen von braun, die immer noch mühelos die dackel der urlauber verschlingen könnten; die abgestreifte puppe von etwas gewaltigem, das über nacht schlüpfte und fortflog, uns unerkannt entkam.
alga

novamente aqui a sua frangância, penetra em todos os anos, cada vez mais fraca, inconfundível: alga, em um best-seller de miller ou young, comprimida com um pouco de areia, esboroa-se como velhas tiras de couro, rédeas do mar; porosa igual uma insígnia, uma medalha de tempos gloriosos, que nos toca constrangedor. difícil acreditar, que ela soubesse se traduzir em invisível dança; gloriosidade é uma questão de correnteza, comprova ela, sirene do fundo do mar repleta de braços, embora calada, sem cantar, como serpenteia em parafuso, com toda a sua elasticidade, brilhante oleosa, feito corpo anelado; como agarrou as pernas do frio flutuante, cumprimentou-o que nem um naufragado entre os seus semelhantes. depois de trinta horas de tempestade e o movimento das ondas feito a escória da rebentação na praia: um combalido monte de marrom, que facilmente poderia ainda engolir o cãozinho do turista; tal qual um casulo livre de algo gigantesco, que durante a madrugada nasceu e voou para longe, imperceptível nos escapou.

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krebsfischen

der fisch muß stinken, marie,
so sehr, daß alle vier enden der erde
sich krümmen und die sterne
noch schneller in ihr dunkel eilen.

öffne die truhe am hafen,
wo er seit tagen ruht, für unruhe sorgt,
so tot und verborgen er ist — passanten
drehen sich um und liebespaare flüstern.

mit seil ist er ein lot der verrottung,
das du ins hafenbecken senkst —
so schwarz und kalt wie eine galaxie,
ins rechteck gezwängt, mit nur drei meter tiefe —,

und du spürst, wie du leer wirst in den minuten
des wartens, wie sie näherkommen
aus ihrer welt, wie ihre scheren
sich öffnen, sie nicht widerstehen können,

ihr eigenes süßes fleisch verwahrt
im winzigen safe ihrer selbst — es könnte
der anfang eines transatlantikkabels
sein was du hältst, so fern sind sie uns. und wie sie

dich lachen lassen, marie, sobald sie
gefangen sind in der plastikwanne, klacken
und rasseln, zahnräder, die nicht mehr greifen,
panische konstellationen. aber

sie kochen? nein. du läßt sie frei,
siehst zu, wie sie zur kante eilen, fallen,
jeder von ihnen eine gepanzerte pythia,
die langsam zurücksinkt in ihr delphi aus schlick.

crustáceo

o peixe deve feder, marie,
tanto que todos os quatro confins da terra
se enverguem e as estrelas
sigam ainda mais céleres à sua escuridão.

abra a arca no porto,
onde ele há dias sossega, criando desassossego,
tão morto e oculto ele está — passantes
se viram e sussurram os pares de amantes.

amarrado na corda ele é um peso a apodrecer,
que tu afundas na doca do cais —
assim negro e frio como uma galáxia,
forças para o canto, com apenas três metros de profundidade —

e tu sentes em ti, o vazio neste minuto
de espera, como eles se aproximam
do seu mundo, como suas tesouras
se abrem, e não conseguem resistir,

sua própria carne doce resguardada
em um ínfimo cofre de si — poderia ser
o início de um cabo transatlântico
o que tu imaginas, deveras distantes estão de nós, e como

te fazem rir, marie, uma vez que
são capturados na banheira de plástico, estalos
e chocalhos, engrenagens que já não mais agarram,
assustadas constelações. mas

cozinhá-los? não. tu os libertas,
observas como se apressam para a borda, caindo,
cada um deles uma pítia encouraçada,
que devagar afunda em seu delfos de lodo.

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glastisch

ich war sechs jahre alt und unsinkbar,
wenn nicht der tisch gewesen wäre, glitzernd
und kalt, der mich seit anbeginn erwartete
wie ein eisberg seine titanic.

etwas ging zu bruch an jenem tag,
und es war nicht nur glas, wenngleich ich
wie sterntaler dalag, erschlagen von all der pracht.
sechs jahre alt, zum ersten mal verlobt,
was wir für uns behielten, doch es war
dein vater, der mich in die klinik brachte,
um mich mit sieben stichen zu vernähen.

vielleicht die erste aller katastrophen.
ich mußte eben wieder daran denken,
als ich mir über den hinterkopf fuhr, mich wieder
fallen spürte, auf mein spiegelbild zu.
mesa de vidro

eu tinha seis anos e inafundável,
se não fosse a mesa, brilhante
e fria, esperando por mim desde o início
como um iceberg espera o seu titanic.

algo se rompeu naquele dia,
e não foi somente o vidro, embora eu
como um vale de estrelas lá jazia, com todo o esplendor vencido.
seis anos de idade, pela primeira vez apaixonado,
o que mantivemos em segredo, mas foi
teu pai, que me levou à clínica,
para me costurar com sete pontos.

talvez o primeiro de todos os desastres.
precisei de novo pensar nisso
ao passar a mão por trás da minha cabeça, e de novo
sentir-me cair, na minha imagem no espelho.

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weißdorn

weißdorn, sein lokal
begrenzter schneefall, der nicht
aufhört, nicht aufhört;

wie er sich im mai
ereignet, an den rändern
von feldern, wiesen,

duftender blizzard,
den kein wettersatellit
erfassen könnte;

perfekt geformte
kugeln, wie jene aus glas
in touristenhand,

wo das gestöber
sich plötzlich legt, man es sieht:
das brautpaar, stoisch

vor kirche, rathaus,
dem winzigen zug weit weg,
der vorüberrauscht.

espinheiro-alvar

espinheiro, seu lugar
limitada queda de neve, que não cessa
não cessa;

como ele acontece
em maio, na margem dos campos
nos campos, nos prados,

perfumada nevasca,
que nenhum satélite
poderia capturar;

perfeitamente formada
bolas, tais como as de vidro
nas mãos dos turistas,

onde o floco
de repente pousa, você pode vê-los:
os recém-casados, estoicos

em frente à igreja, à prefeitura,
do pequeno trem ao longe
que ruidoso e rápido passa.

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