Dom Casmurro

maio 2017 / Dom Casmurro / James Tate

Texto publicado na edição #205

James Tate

Seis poemas do norte-americano James Tate

> Por André Caramuru Aubert

Ilustração: FP Rodrigues

Ilustração: FP Rodrigues

Tradução e seleção: André Caramuru Aubert

James Tate (1943-2015) foi um dos mais admirados poetas norte-americanos da segunda metade do século 20. Totalmente oposto à tendência confessional de boa parte dos seus pares, os versos de Tate narram histórias e usam muito a primeira pessoa, mas raríssimas vezes é ele o personagem dos poemas. Estes com frequência trazem relatos de situações absurdas, ora tristes, ora bem-humoradas, sempre com uma escrita limpa e precisa. Tate tinha como fãs incondicionais poetas como John Ashbery, W. S. Merwin e Charles Simic. Ganhou o Pulitzer de 1992 e o National Book Award de 1994.

To each his own

When Joey returned from the war he worked
on his motorcycle in the garage most days. A
few of his old buddies were still around — Bobby
and Scooter — and once or twice a week they’d
go down to the club and have a few beers. But
Joey never talked about the war. He had a
tattoo on his right hand that said DEVI and he
wouldn’t even tell what that meant. Months
passed and Joey showed no interest in getting
a job. His old Indian motorcycle ran like a
top, it gleamed, it purred. One night at dinner
he shocked us all by saying, “Devi’s coming to
live with us. It’s going to be difficult. She’s
an elephant.”

 

A cada um o que é seu

Quando Joey voltou da guerra ele passava quase
todos os dias na garagem mexendo em sua moto. Alguns
de seus velhos amigos ainda estavam por ali — Bobby
e Scooter — e uma ou duas vezes por semana eles iam
até o bar e tomavam umas cervejas. Mas
Joey nunca falava da guerra. Ele tinha uma
tatuagem na mão direita onde se lia DEVI e ele
também jamais explicou o que aquilo significava. Meses
se passaram e Joey não demonstrava o menor interesse em
arranjar um emprego. Sua velha moto Indian corria como
um foguete, ela brilhava, ela roncava. Uma noite no jantar
ele nos chocou a todos, dizendo “Devi está vindo morar
com a gente. Vai ser difícil. Ela é
um elefante.”

>>>

Ilustração: FP Rodrigues

Ilustração: FP Rodrigues

The cookie

I was sleeping on the couch when I heard a light
knocking on the door. It could have been the wind, but
I went to see anyway. I opened the door and who was standing
there but my mother, dead these past eight years. I said,
“Mother, how nice to see you. What a surprise.” She said,
“Jack, I’ve been thinking. I was so wrong to spank you when
you were eight. I feel so bad about it.” I said, “I don’t even
remember it.” “We were in Ma’s Grocery Store. I thought
you stole a cookie from her cookie jar and I spanked you.
Then Ma told me she had given it to you. I felt so bad,”
she said. “But, Mother, I don’t even remember it,” I said.
“That’s all there is,” she said. “Can I get you a glass
of tea?” I said. She started to fade. “Mother,” I said,
“don’t go. We have so much else to talk about, please.”
But she was gone. But wait a minute, it’s coming back to
me. I did steal the cookie but Ma wanted Mother to stop
spanking me. That Ma was a saint. But Mother shouldn’t
give up so much of her eternal rest over such a small
thing as a cookie.

 

O biscoito

Eu estava dormindo no sofá quando ouvi uma luz
batendo na porta. Podia ter sido o vento, mas
por via das dúvidas fui olhar. Abri a porta e quem é que estava lá
senão a minha mãe, que está morta há oito anos. Eu disse,
“Mãe, como é bom vê-la. Que surpresa.” Ela disse,
“Jack, andei pensando. Eu estava tão errada quando você tinha oito
anos e eu bati em você. Eu me sinto muito mal por isso.” Eu disse, eu nem
sequer me lembro disso.” “Nós estávamos na mercearia da Ma. Eu achei
que você tinha roubado um biscoito do pote de biscoitos dela e te dei uma surra.
Então Ma me contou que ela o tinha dado a você. Eu me senti tão mal,”
ela disse. “Mas, mãe, eu nem sequer me lembro disso,” eu disse.
“Isso é tudo,” ela disse. “Posso te oferecer um copo de
chá?” eu disse. Ela começou a se dissipar. “Mãe,” eu disse,
“não vá embora. Temos tanto o que conversar, por favor.”
Mas ela já tinha ido. Mas espere um pouco, a coisa está voltando a
mim. Eu roubei mesmo o biscoito, mas a Ma queria que Mãe parasse
de me bater. Aquela Ma era uma santa. Mas Mãe não deveria
desperdiçar tanto de seu descanso eterno só por uma coisa tão
insignificante quanto um biscoito.

>>>

Goodtime Jesus

Jesus got up one day a little later than usual. He had been dreaming so deep there was nothing left in his head. What was it? A nightmare, dead bodies walking all around him, eyes rolled back, skin falling off. But he wasn’t afraid of that. It was a beautiful day. How ‘bout some coffee? Don’t mind if I do. Take a little ride on my donkey, I love that donkey. Hell, I love everybody.

 

Jesus de boa

Jesus se levantou um dia um pouco mais tarde do que o habitual. Ele sonhou tão profundamente que não havia mais nada em sua mente. O que foi aquilo? Um pesadelo, defuntos andando em volta dele, olhos revirando, peles se descolando dos corpos. Mas ele não estava com medo daquilo. Era um belo dia. Que tal um café? Não se incomode se eu fizer. Dê uma volta no meu burrico, eu amo aquele burrico. Diabos, eu amo todo mundo.

>>>

I wrote myself a letter

I sat down at my desk and wrote myself a letter. And
then I threw it away. I wrote my grandfather a letter and
I tore that one up also. I wrote my mother a letter, but
I kept that one. I was exhausted. Three letters in one
sitting. I had myself a schnapps. I looked out the window.
It was snowing. A mother and father went jogging up the
street pushing a baby carriage. A hawk was circling
overhead. My grandfather was dead and so was my mother.
But that didn’t mean we couldn’t communicate. At least
I could share my thoughts with them. They didn’t answer,
of course, but that didn’t matter. My mother had been a
nurse and, of course, that helped. My grandfather sawed
lumber and that didn’t help, but who cared. He was a kind
man. He made model airplanes in his spare time. I went into
the living room and sat down on the sofa. My father ran away
from home when I was three. My mother never told me why.
We never heard from him again. But I don’t think about
any of this. It was a beautiful day outside. Three little
mice tiptoed across the lawn. One of them had its arm
in a sling.

 

Escrevi para mim uma carta

Me sentei à escrivaninha e escrevi para mim uma carta. E
então a joguei fora. Escrevi uma carta para meu avô e
também a rasguei. Escrevi uma carta para minha mãe, mas
esta eu guardei. Eu estava exausto. Três cartas em uma
sentada. Precisei tomar um trago. Olhei pela janela.
Nevava. Uma mãe e um pai iam ligeiro pela
rua, empurrando um carrinho de bebê. Um falcão circulava
no alto. Meu avô estava morto, assim como minha mãe.
Mas isso não queria dizer que nós não podíamos nos comunicar. Pelo menos
eu podia compartilhar meus pensamentos com eles. Eles não respondiam,
é claro, mas isso não importava. Minha mãe foi uma
enfermeira e isso, claro, ajudava. Meu avô cortava madeira
e isso não ajudava, mas quem ligava. Ele foi um bom
homem. Ele construía aeromodelos nas horas de folga. Fui
até a sala e me sentei no sofá. Meu pai saiu de casa quando
eu tinha três anos. Minha mãe nunca me explicou o motivo.
Nós nunca mais ouvimos falar dele. Mas não fico pensando em
nada disso. Lá fora estava um dia lindo. Três camundongos
atravessaram o quintal na ponta dos pés. Um deles tinha uma
tipoia no braço.

>>>

James_Tate_Escrevi_mim_carta_Cor_FP_Rodrigues_205

Pride’s crossing

Where the railroad meets the sea,
I recognize her hand.
Where the railroad meets the sea,
her hair is as intricate as a thumbprint.
Where the railroad meets the sea,
her name is the threshold of sleep.

Where the railroad meets the sea,
it takes all night to get there.
Where the railroad meets the sea,
you have stepped over the barrier.
Where the railroad meets the sea,
you will understand afterwards.

Where the railroad meets the sea,
where the railroad meets the sea —
I know only that our paths lie together,
and you cannot endure if you remain alone.

Encruzilhada do orgulho

Onde a ferrovia encontra o mar,
eu reconheci a mão dela.
Onde a ferrovia encontra o mar,
o cabelo dela fica intricado como uma impressão digital.
Onde a ferrovia encontra o mar,
o nome dela é o portal do sono.

Onde a ferrovia encontra o mar,
leva-se a noite toda para chegar lá.
Onde a ferrovia encontra o mar,
você caminhou sobre a barreira.
Onde a ferrovia encontra o mar,
você haverá de entender depois.

Onde a ferrovia encontra o mar,
onde a ferrovia encontra o mar —
eu sei apenas que nossos caminhos estão juntos,
e você não vai suportar se permanecer só.

>>>

Storm

The snow visits us,
taking little bits of us with it,
to become part of the earth,
an early death and an early return —

like the filling of tax forms.
And all you can say after adding up
column after column: “I’m not myself.”

And all you can say after the long night
of searching for one certain scrap of paper:
“It never existed.”

And when all the lamps are lit
and the smell of the stew
has followed you upstairs
and slipped under the door of your study:
“The lute is telling the story
of the life I might have lived,
had I not —”

In my study, which is without heat,
in mid-January, in the hills
of a northern province — only
the thin white-haired volumes
of poetry speak, quietly, like
unfed birds on a night visit

to a cat farm. And an airplane is lost
in a storm of fitting pins.
The snow falls, far into the interior.

Tempestade

A neve nos faz uma visita,
arrancando com ela nacos de nós,
para que se tornem parte da terra,
uma morte precoce e um precoce retorno —

como o preenchimento de formulários de impostos.
E tudo o que você pode dizer depois de somar
coluna após coluna: “Eu não sou eu.”

E tudo o que você pode dizer depois da longa noite
de busca de um certo pedaço de papel:
“Ele nunca existiu.”

E quando todas as lâmpadas são acesas
e o aroma de ensopado
o seguiu até o andar de cima
e se esgueirou por baixo da porta de seu estúdio:
“O alaúde está contando a história
da vida que eu poderia ter vivido,
não fosse eu —”

No meu estúdio, que não tem aquecimento,
no meio de janeiro, nas colinas
de uma província do norte — só
os magros volumes esbranquiçados
de poesia falam, serenamente, como
uma visita noturna de pássaros esfomeados

a uma fazenda de gatos. Um avião se perdeu
em uma tempestade de pinos de fixação.
A neve cai, distante, no interior.

Print Friendly