Dom Casmurro

junho 2019 / Dom Casmurro / Isabela Sancho

Texto publicado na edição #230

Isabela Sancho

Dois poemas de Isabela Sancho

> Por Isabela Sancho

As regras

O rosado salta
da multidão da serra
no mesmo momento
do mesmo mês.

A derrubada
de folhas sincrônicas
de propósito e em burla
das pragas que nos assolam.

Eu menstruo, você menstrua
e as árvores-da-china
amarelam de graça
todas juntas.
Alva

Branca como o halo lunar,
uma boneca de porcelana,
a louça guardada
com ricos palmitos.

Pérolas de água-doce,
leite-de-flor.
Nunca me ocorreu
usar pó-de-arroz.

Branca-renascimento,
um bebê batizado.
A debutante,
a noiva virgem.

Branca, ave-maria.
Renda-sinhazinha.
Branco-gelo,
os dedos pingantes.

Branco-rosa-porquinho.
Branco-refluxo.
Branco, o suor azedo
de quem mal começou a suar.

Branca, metal-nobre.
Branca —
uma bala-perdida,
alvejante.

Branca como a anemia.
Branca como a amnésia.
Branca, é uma menina.
Branca-borracha.

Com a palidez de um susto —
branca-próprio-fantasma.

Branco, minha-nossa.
Branco-não-adianta-ir-à-missa.
Branco-horror-do-holocausto
debaixo do branco nariz.

Branca, não-mais,
eu te rogo.
Branca —
esse tempo todo.

(Espelho intolerável
em nada comparável
com estar
no outro lado da história.)

Branco, amarelo-cólera.
Branco-verde-enjoo.
Branco-roxo-nervoso.
Branco, que fizeste dos outros?

Branca de constrangimento —
como me verá o esquimó?
Branca rosa?
Branca-amarela?

Branca nesga na pele.
A cicatriz mútua se nega.
Negror não é o que te cega,
branca cicatriz que é minha.

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