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julho 2012 / Quase-diário / Ionesco, Drummond, Candido…

Texto publicado na edição #147

Ionesco, Drummond, Candido…

28.05.1988 Leio na revista italiana Panorama entrevista com Ionesco a propósito de sua última peça/livro, A busca intermitente, e do […]

> Por AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA

28.05.1988
Leio na revista italiana Panorama entrevista com Ionesco a propósito de sua última peça/livro, A busca intermitente, e do libreto de ópera Maximiliano Kolbe. Curioso: confessa que não gosta de teatro, por isto fez A cantora careca, em 1950.

Diz também: “Gostaria de ter escrito ensaios e romances ou não escrever nada e ser um pequeno empregado honesto ou um professor ou padre. Me disse sempre que quando tivesse tempo o escreveria. Mas tive tempo a não ser tardiamente e então não tive mais vontade de escrever nada”.

Ver: a síndrome de modéstia só dada a quem já conseguiu fama. Talvez se não tivesse alcançado o sucesso cedo… Ou então é uma boutade típica e natural do seu modo paradoxal de pensar: ironia, antítese.

Sintomático que, na entrevista, Ionesco comece a desenvolver seu lado místico, a falar de Deus, etc.

02.06.1988
Plínio Doyle me conta que num dos caixotes doados por Murilo Miranda (cunhado de Rubem Braga, ex-diretor da Rádio MEC) ao Museu de Literatura da Casa Rui Barbosa descobriu um documento do Drummond fazendo a adaptação do poema Os bens e o sangue para teatro. Texto autógrafo.

Rachel de Queiroz ontem no Clô para os íntimos (TV Manchete), numa entrevista muito simpática e honesta dizendo que achava “um horror” escrever e que era “muito doloroso”. Que fazia aquilo porque era o que sabia.

Mas algo aí me incomoda: se acha um “horror”, pode fazer outras coisas, não é obrigada: você não deve passar a vida inteira fazendo o que lhe causa tanto desprazer.

09.07.1988
Curioso Helen Hanft (Charing Cross Road) dizendo em entrevista ao Geneton Moraes, no caderno Idéias, do Jornal do Brasil, que não gosta de Joyce e Beckett, nem de romances.

Interessante seria alguém pesquisar (em diários, entrevistas) a opinião de gente famosa sobre obras famosas. Seria um quadro duplo: não conferiria exatamente com o consenso. Ver-se-ia que a unanimidade preserva certos clássicos, intelectuais citariam por hábito (ou constrangimento) alguns autores. Há uma inércia (meias verdades, mentiras), como na física, falsificando o quadro artístico-literário.

De novo João Cabral joga farpas contra Drummond (morto ano passado). Em entrevista à revista Diálogo (para médicos, onde colaboro como cronista), diz que Drummond “desbocou” depois que leu Neruda. Se somarmos isto a outras entrevistas em que falou mal do verso lírico e longo, ou outras em que disse que o Drummond que lhe interessa é o dos primeiros livros…

11.08.1988
Outro dia Antonio Candido aqui em casa contava que um aluno lhe perguntou sobre o conceito de alegoria em Benjamin. Candido respondeu que não sabia, que usava um conceito antigo que tinha aprendido. E me confessou que não leu Benjamin. Começou Adorno, mas achou-o chato.

Dizia isto a propósito de uma conversa em Paris em que um professor teve a coragem de dizer que não tinha lido Guerra e paz.

Demonstrou de novo seu entusiasmo por Ungaretti. Narra que professores como Braudel representavam quando ensinavam. Tudo planejado, até a hora em que os alunos deviam chorar quando ele contava certas estórias.

27.06.1988
Morre o fotógrafo que esteve há algum tempo aqui e me mostrou fotos que tirou de Picasso, Andy Warhol, Mitterrand, Kennedy, Aznavour, Klee, Chagall e mais 50 outros, até do Imperador do Japão. Seu nome: Eddy Novarro — West Germany.

Se bem me lembro (e não me lembro mais…), fez uma foto minha para um álbum sobre personalidades locais. Onde? Pra quê? Esqueci.

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