Ensaios e Resenhas

março 2014 / Ensaios e Resenhas / Inventor de si mesmo

Texto publicado na edição #167

Inventor de si mesmo

Zemaria Pinto defende que Augusto dos Anjos foi expressionista muito antes que os poetas alemães

> Por MARCOS PASCHE

Num dos mais percucientes textos escritos acerca do autor de Psicologia de um vencido — o ensaio Augusto dos Anjos ou Vida e morte nordestina (1976) —, Ferreira Gullar, ao se deter sobre dominância e dependência cultural, afirma que, nos países metropolitanos, as alterações do panorama literário correspondem a modificações estruturais da interpretação da realidade. Noutro contexto — o dos países em que a colonização efetivou-se como fato político e permanência ideológica —, o corrente revezamento dos estilos tende a ser algo ornamental, visto que a troca obedece a um mero e irrefletido desejo de sincronia com o centro.

As ruminações de Ferreira Gullar convergem para esclarecer a posição peculiar de Augusto dos Anjos no curso histórico da literatura brasileira. Ao questionar as tendências estéticas que lhe eram contemporâneas (especialmente o Parnasianismo e o Simbolismo) e, mais fundamente, ao questionar a própria literatura (como sinônimo tradicional de um tipo de beleza), o Poeta do Hediondo subverteu um ciclo secular, e inseriu na poesia nacional uma insígnia análoga à que Machado de Assis estampou na prosa: a insígnia dos autores cujas obras se revelam irredutíveis ao que as rotulações estilísticas possuem de redutor.

Afinada a esse tópico do debate crítico, a tese A invenção do Expressionismo em Augusto dos Anjos, do ensaísta, poeta, dramaturgo e professor universitário paraense Zemaria Pinto, efetua uma dúbia tarefa, visto negar as classificações correntes em torno do poeta paraibano, como simbolista e pré-modernista, ao mesmo tempo em que o vincula a uma tendência estética: “(…) Augusto dos Anjos aproximou-se de tal forma dos expressionistas alemães — antes deles —, que é absolutamente aceitável classificá-lo como poeta expressionista”. O indicativo temporal, que antepõe o nordestino aos germânicos na construção da estética deformadora, instaura uma segunda dubiedade, a qual reforça as colocações de Gullar: o Expressionismo surgiu antes de seu surgimento, ou seja, no Brasil do início do século 20, transitando entre o Nordeste e o Sudeste do Brasil, Augusto dos Anjos já elaborava uma poética com traços que poucos anos à frente seriam postos em evidência na Alemanha:

O título deste trabalho — A invenção do Expressionismo em Augusto dos Anjos — reflete literalmente o que pretendo demonstrar: Augusto dos Anjos desenvolveu processos expressionistas antes mesmo dos poetas alemães, que só começaram a dar publicidade à sua produção em 1910, quando o poeta brasileiro já estava havia quatro anos produzindo sob a luz da nova estética.

Baseando-se atentamente nas publicações em jornal, visto que o autor de Versos íntimos lançou apenas um livro — Eu, em 1912 —, Zemaria Pinto divide a produção de Augusto dos Anjos em quatro fases: a primeira, de 1900 a 1903; a segunda, de 1903 a 1906; a terceira, de 1906 a 1912; e, por fim, ocorrida entre 1912 e 1914. A divisão tem caráter declaradamente didático, e busca apontar quando em Augusto vai despontando, por assim dizer, a expressão expressionista, para que se veja no despontar a primazia do paraibano acerca da estética a que o estudioso o associa:

A partir de determinado ponto numa hipotética linha do tempo — localizado em junho de 1906, com a publicação de “Queixas noturnas” —, Augusto dos Anjos dá uma guinada na sua expressão poética. É como se o eu lírico desse lugar a um outro — sua máscara lírica. Sua poesia adquire um tom mais agressivo, abordando temas como o “novo homem” e “uma nova humanidade”. Essa nova expressão, inominada, dá o tom da maioria daqueles 45 poemas [constitutivos da terceira fase e que integraram o livro único do poeta].

Logo no parágrafo seguinte ao da parte citada, ainda na seção introdutória, Zemaria diz que a dificuldade de enquadrar estilisticamente a obra de Augusto dos Anjos foi desqualificada em razão de uma “estratégia utilizada por boa parte da crítica”, que, de acordo com os termos colocados, procurou camuflar seus limites (entenda-se incapacidade de classificar corretamente) concebendo como desimportante o expediente classificatório. Páginas à frente, mas na mesma seção, o ensaísta sublinha a originalidade do poeta, e diz que o traço original é unanimemente observado por seus críticos, “desde Hermes Fontes até Ferreira Gullar”. A observação de tais críticos, meritória a meu ver, recebe a ressalva de não apontar para o vínculo com o Expressionismo, e leva Zemaria a concluir que nos dois estudiosos referidos “é flagrante a dificuldade de explicar o que diferencia Augusto dos Anjos dos demais poetas de seu tempo”.

Antes de comentar a passagem, devo mencionar o belo prefácio de Hildeberto Barbosa Filho, grande conhecedor da obra de Augusto e de sua fortuna crítica. Após destacar com pertinência os méritos do livro — a sistematização dos elementos interpretativos, a procedência da bibliografia consultada e a escrita isenta do gesso normalmente verificável em trabalhos acadêmicos (o livro de Zemaria deriva de uma dissertação de Mestrado) —, o poeta e professor paraibano diz ser possível “discordar dessa ou daquela afirmação teórica interpretativa”. A esse respeito, penso que o estudo deixou de alcançar maior brilho justamente nos momentos em que, desejoso de confirmar seus pressupostos, subiu o tom além do devido em relação àquilo que não se lhe afigurou especular. Digo isso porque, no lugar de apontar dificuldade explicativa da parte de quem não chamou Augusto de expressionista, caberia perguntar se a envergadura do poeta não continua a tornar lacunares as etiquetas que dela se acercam. Tanto é que o próprio Zemaria reconhece traços de estilos diversos na poesia de Augusto, bem como dá a ver a problemática definição de Expressionismo em termos de movimento e/ou estilo.

À parte isso, o livro confirma o quanto obra do autor de As cismas do Destino (para Zemaria Pinto, o poema-núcleo do expressionismo augustiano) permanece atual, principalmente pela repulsiva e deslumbrante maneira de comover.

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Zemaria Pinto

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Nasceu em Santarém, no Pará, em 1957, e é radicado em Manaus, no Amazonas. Como poeta, publicou Corpoenigma (1994), Fragmentos de silêncio (1996) e Música para surdos (2001). É professor de Teoria da Literatura e Literatura Brasileira, e escreveu, em parceria com Marcos-Frederico Krüger, dois livros de ensaios sobre obras indicadas para o vestibular da Universidade Federal do Amazonas (2000 e 2001). Também é dramaturgo, autor de Nós, Medéia (2003).

Fortemente influenciada pela filosofia de Schopenhauer e pelo pensamento budista — não necessariamente nessa ordem; percutindo as vibrações inovadoras da poesia de Baudelaire; tomada por uma sede de conhecimento que não obtinha respostas satisfatórias das ciências; obstinada pelo mundo microscópico que só àquela época começava a ser explorado; reflexo, enfim, de um país em transformação, em um mundo em transformação, a poesia de Augusto dos Anjos encontra o seu Zeitgeist, o espírito dionisíaco de seu tempo, em uma expressão inédita na literatura brasileira, que desnorteou, por muito tempo, sua recepção crítica.

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Zemaria Pinto
Valer
309 págs.