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junho 2020 / Nossa América, nosso tempo / Intervenção: um documentário-colagem do caos contemporâneo

Texto publicado na edição #242

Intervenção: um documentário-colagem do caos contemporâneo

Ascensão do conservadorismo nas últimas duas décadas paralisou a esquerda, que se mostra incapaz de entender a importância de uma juventude de direita

> Por JOÃO CEZAR DE CASTRO ROCHA

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A ascensão da direita
Mencionarei brevemente quatro fatores, cuja inter-relação esclarece o caráter orgânico da ascensão da direita nas últimas duas décadas. A redução desse momento à vocação golpista, atribuída ao impeachment de 2016, tem paralisado a esquerda, que, assim, se revela incapaz de entender a importância de uma juventude de direita, força decisiva na política brasileira dos últimos anos.

A simples enumeração dos fatores ilumina a incompreensão ainda hoje corrente: 1) a ação inicialmente positiva de Olavo de Carvalho na década de 1990, ampliando o repertório bibliográfico e fortalecendo a musculatura da direita por meio de polêmicas estratégicas contra ícones da esquerda; 2) uma fissura geracional que escapou completamente aos cálculos da esquerda, em geral, e do Partido dos Trabalhadores, em particular. As quatro eleições presidenciais, legitimamente vencidas pelo PT, possibilitaram a associação automática entre establishment, sistema político e campo da esquerda; 3) o conflito geracional foi agravado pela difusão da tecnologia digital e sua apropriação criativa e irreverente pela juventude de direita, cuja presença nas redes sociais materializou-se nas ruas nas multitudinárias manifestações a favor do impeachment da presidente Dilma Rousseff; 4) por fim, a partir de 2013, no princípio timidamente, mas ostensivamente já em 2015, a direita começou a disputar as ruas com o campo da esquerda, um desdobramento surpreendente para qualquer analista da cena política brasileira, pois, historicamente, as ruas pareciam propriedade simbólica dos que estavam à margem do poder, ou seja, antes do triunfo do PT, a própria esquerda. Os 14 anos de permanência, democraticamente legítima, do PT no governo federal alterou de forma profunda a ecologia da política brasileira, sem que tal abalo fosse imediatamente perceptível.

Iniciadas em março de 2015, e ampliadas em abril, agosto e dezembro do mesmo ano, as manifestações de direita, a favor do impeachment de Dilma Rousseff, explodiram em março de 2016, revelando ao país uma organização sólida de grupos conservadores, com destaque para movimentos articulados nas redes sociais, que, com grande desenvoltura, tomaram os céus de assalto, não para defender a revolução, porém, para derrubar o único partido de esquerda que chegou à presidência do Brasil.

Em relação aos quatro fatores que terminei de elencar, o último é o mais relevante e muitas vezes o único considerado na ascensão da direita. Por isso, não surpreende que ela seja reduzida ao ânimo golpista. Pelo contrário, proponho que os dois primeiros fatores são os realmente decisivos para desenhar o cenário no qual a eleição de Jair Messias Bolsonaro se tornou possível.

Para dizê-lo de forma direta: desde meados dos anos 1980, como uma reação à distensão implementada pelo general Ernesto Geisel, na década anterior (1974 — 1979), e sobretudo à redemocratização, conduzida aos trancos e barrancos pelo general João Batista Figueiredo (1979 — 1985), um movimento subterrâneo de direita foi articulado, inicialmente na caserna e posteriormente na sociedade civil.

É fato que esse movimento de duas décadas explodiu em 2015 e 2016, porém sua intensidade foi preparada lentamente por meio da criação de uma linguagem própria, saturada de clichês anticomunistas com ressonâncias bolorentas da Guerra Fria, do recurso a uma moldura narrativa de repúdio à esquerda brasileira, naturalmente em acordo com o movimento comunista internacional numa vasta trama de proporções apocalípticas, e, por fim, do milagre às avessas da proliferação de teorias conspiratórias que deixariam boquiaberto o próprio Dr. Simão Bacamarte.

O documentário Intervenção — Amor não quer dizer grande coisa[1], realizado em 2017, é uma contribuição notável para o entendimento da fusão caótica desses fatores. O filme, a seu modo, presta homenagem ao Walter Benjamin das Passagens (Das Passagen-Werk), autêntica biblioteca de citações, ensaio-colagem de uma miríade de “passagens” num dispositivo único, cujo sentido necessariamente depende de um leitor aventuroso. De igual modo, Intervenção é um filme-colagem que alinhava fragmentos de vídeos de youtubers de direita ou, na maior parte dos casos, de extrema direita, nos momentos mais agônicos do segundo mandato da presidente Dilma Rousseff.

No primeiro momento, a reação é de pura incredulidade, como se uma realidade paralela tivesse tomado conta do mundo em que vivemos. Os discursos são desencontrados; as teorias apresentadas são ilógicas; as ameaças à segurança nacional, sempre reveladas em tom estridente de melodrama mexicano, parecem envolver os seres abissais e os incas venusianos; e, como se não bastasse, surgem seitas neopentecostais com milícias de inspiração paramilitar perfilando rapazes com uniforme verde-oliva, ao lado de jovens evangélicas, cuja coreografia propriamente bélica anuncia um Armagedon semanal.

Não exagero!

Acompanhe comigo a transcrição de uns poucos fragmentos (nada amorosos) do filme.

Comecemos com uma fala característica da verve bocagiana de Olavo de Carvalho, após lamentar a ausência no ordenamento jurídico brasileiro do sistema de “recall” nos poderes Executivo e Legislativo:

Por isso que eu acho que o panelaço é a maior invenção. A coisa mais eficaz que tem no país é o panelaço. Não deixa falar mais! Não deixa falar, não obedeça, não reconheça! “Ah, a senhora é a presidente [referindo-se a Dilma Rousseff]? Presidente é o caralho! Você é uma usurpadora!”[2]

Eis o retrato da retórica do ódio, ensinado por Olavo de Carvalho. A reiteração pouco criativa do advérbio de negação evidencia o propósito: não reconheça, isto é, trata-se de eliminar simbolicamente o outro. O uso obsessivo e francamente monótono de palavrões desempenha o mesmo papel de desqualificação completa do adversário, transformado em inimigo, cuja destruição é favorecida pela própria desqualificação. Inaugura-se, assim, um perverso círculo vicioso do qual a sociedade brasileira tem dificuldade de se libertar.

O resultado dessa técnica, transmitida para centenas de milhares de pessoas, sobretudo jovens, por meio de cursos online ou simplesmente pelo consumo de uma miríade de vídeos disponíveis na internet, é o ensurdecimento deliberado em relação a tudo o que não espelhe as próprias convicções, em geral radicais e favoráveis à resolução violenta de conflitos.

A fala que inspirou o subtítulo do documentário vale pela conclusão de um tratado:

Nós estamos lidando com pessoas que não têm amor à pátria. Amor não é grande coisa. Falar “eu te amo” não significa coisa nenhuma! A palavra mais vazia é “eu te amo” (sic.). Porque amor é ação! Não adiante o cara falar que ama a pátria e olhar pra bandeira e chorar de emoção, se eu não tiver ação. Então, é necessário ir pra rua![3]

Napoleões de hospício
As pontas se atam, mas só permanecem presas porque um alvo fixo reúne os delírios mais inverossímeis, dando consistência ao que, pelo contrário, pareceria uma assembleia de Napoleões de hospício.

Dois exemplos são suficientes.

(Mais do que isso também já seria pura impertinência.)

Começo com um relato que poderia muito bem ter sido recolhido na Casa Verde machadiana:

(…) o PT não é nada comparado com o problema. E aí a gente entra em globalismo, em Nova Ordem Mundial, em illuminati, em maçonaria, todas essas coisas (…). Enfim, pessoal, por que que não adianta a gente fazer o impeachment da Dilma? Com o impeachment, quem assume é o Michel Temer. O Michel Temer, como todo mundo poder ver, tem vídeo dele saudando a maçonaria. (…) Se a maçonaria controla o PSDB — e a gente já sabe que o PT e o PSDB sempre foram aliados —, é lógico: o PT tá lá fazendo o jogo da maçonaria, fazendo o jogo dos illuminati, dos globalistas.[4]

Nessa sopa de alusões crípticas e de citações explícitas, delineia-se a idiotia erudita, definidora das massas digitais — conceitos que proponho para decifrar a esfinge bolsonarista.

Sem maiores comentários, ofereço o complemento do desarrazoado:

(…) Tá rodando, aí, nas páginas de direita, em várias páginas da internet, que 50 mil [fuzis] AK47 passaram, ali, na fronteira com a Bolívia e estão escondidos em várias fazendas no interior do Mato Grosso do Sul, fazendas que estão sobre o controle do MST (Movimento dos Sem Terra).[5]

O alarme vermelho foi dado por um professor de história, formado na Universidade Federal de Goiás, Alexandre Ângelo Seltz, que se tornou conhecido pela militância bolsonarista nas redes sociais. O mais surpreendente é o incontestável déficit cognitivo de um historiador incapaz de diferenciar uma fonte fidedigna, de um lado, e, de outro, uma informação evidentemente espúria: é como se entre fato e rumor a diferença não fosse qualitativa: verdadeira seria a notícia com maior grau de circulação nas redes sociais. Outra vez, retornamos ao padrão tautológico da retórica do ódio.

Por isso, importa mais assinalar o ponto de fuga que dá sentido aos fragmentos desconexos do documentário-colagem: a mescla, nem sempre inteligível com facilidade, dos quatro fatores que se adensaram ao longo de duas décadas num movimento subterrâneo de articulação de forças de direita e, em alguns casos, mesmo de extrema direita.

Em outras palavras, a passagem da caricatura à caracterização exige a reconstrução daqueles fatores, sem a qual não parece possível compreender o alcance do bolsonarismo como fenômeno político de massas com uma invejável capacidade de mobilização.

[1] Direção e montagem de Rubens Rewald, Tales Ab’Saber e Gustavo Aronda; o argumento é de Tales Ab’Saber.

[2] Ver, no documentário, de 14:00 a 14:50.

[3] Ver, no documentário, de 45:25 a 45:50.

[4] Ver, no documentário, a partir de 22:17.

[5] Ver, no documentário, a partir do minuto 50:37.

 

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