Ensaios e Resenhas

dezembro 2018 / Ensaios e Resenhas / Insurgências da poesia na cidade

Texto publicado na edição #224

Insurgências da poesia na cidade

Poemas de Luiz Felipe Leprevost evidenciam o desequilíbrio das forças que nos cercam e (des)unem

> Por Cristiano de Sales

Luiz Felipe Leprevost, autor de Tudo urge no meu estar tranquilo

Luiz Felipe Leprevost, autor de Tudo urge no meu estar tranquilo

O que parece urgente na escrita de Luiz Felipe Leprevost é o rasgo no tempo sedimentado sem poesia. “A poesia está nos fatos”, disse-nos há bastante tempo Oswald de Andrade. Sim, ela está. E Tudo urge no meu estar tranquilo parece atento a isso, porém, sem perder de vista outras questões. Nos fatos — sejam de um tempo que já não há mais (vulgarmente chamado de passado), sejam do único tempo que existe (o agora) —, estão os esforços para forjar uma ética capaz de equilibrar a vida em sociedade, ou comunidade. Mas o que a poesia desse livro quer fazer aparecer é justamente o desequilíbrio dessas forças que medeiam nossas vidas, cercam nossos corpos e separam o que é da ordem da “felicidade clandestina”, dos desejos escusos, da loucura íntima etc., daquilo que está mais na ordem de uma vida saudável, higienizada ou socialmente aceitável. Vejo que a poesia de Leprevost opera nesse rasgo, ou hiato, e faz isso sem ser panfletária, ou superficialmente política.

O livro sugere três campos de entrelaçamento do homem com sua ecologia (refiro-me ao sentido que Félix Guattari atribui ao termo para trabalhar o conceito de ecosofia). No primeiro campo de entrelaçamento, o homem transa com seu próprio estar no mundo: “perguntava como consagrar a minha vida/ ao exercício de compreender”, e nesse exercício, os poemas flertam com a vontade de pensar memórias. E pensam. Porém, a pensam na esteira dos rastros materiais do esquecimento, “não existe uma única ausência/ que tendo ido embora de mim/ não tenha em mim permanecido”; em outro poema: “a memória é/ essa constelação/ de passados mortos/ que se projetam como/ as luzes de estrelas que/ podemos ainda ver/ sem que lá estejam”. Assim, o poeta parece se dar conta de que evocar memórias é um processo de (re)encarnação: “não é possível haver aura naquilo/ que não contem algo pulsante/ endógeno, enraizado”. Enfim, não há memória e percepção ética de um tempo ido que não estejam instaladas na carne do que somos no agora.

Os poemas de Tudo urge no meu estar tranquilo parecem se instalar nesse rasgo estético sem o qual não haveria possibilidade de vivência ética. Ficamos com a impressão, nesses escritos, que fermentamos nossa vida comum (em comunidade) a partir dos restos do que vimos e fomos em breves instantes, brechas, intervalos e insurgências de coisas simples e orgânicas. Ana C. talvez chamaria isso de resíduo, logo, poesia.

O homem e o mundo
No segundo momento do livro, percebemos um gesto de transar com o outro, movimento que dialoga com o percurso que Carlos Drummond de Andrade assume a partir dos idos de 1940. Porém, no caso de Leprevost, a conversa se insinua mais íntima. Não se trata de pensar o homem moderno e o mundo, caso do poeta de Claro enigma (1951), mas sim de pensar o homem em sua economia, em sua ecologia; o homem e o que o cerca imediatamente: sexo, ambiente, sociedade, hipocrisia, amor.

A lição que herdamos do poeta que fez ver uma flor crescer feia e fraca no asfalto da cidade moderna foi a de que o homem, ciente da imperfeição e crueldade do mundo, ainda escolheu seguir com ele (o mundo) o curso da significação. Essa potente herança deixada por Drummond, que complexificou em outra chave o niilismo à brasileira, parece atravessar muitas poéticas contemporâneas — e não é diferente com Leprevost. O que vemos hoje em bons poetas fazendo seus versos é, entre outras coisas, a percepção de que poesia é “coxa, fúria, cabala”.

Se em Drummond o homem significava-se com o outro que era o mundo moderno, em Tudo urge no meu estar tranquilo o homem se volta às próprias vísceras para desacelerar um pouco o tempo. Essa provocação fica explícita na terceira parte do livro, momento em que os poemas falam sobre a cidade. Numa primeira leitura, poderíamos reduzir o livro da seguinte forma: primeiro se fala com o eu, depois com o outro e por fim com a cidade. No entanto, lendo com menos pressa os poemas da primeira parte, notamos que é ali que a cidade de Curitiba, com todo seu orgulho, está sendo ironizada. Bem como notamos que na segunda parte a lírica não revela uma transa entre duas pessoas apenas. Evoca-se ali um transar com tudo que não sou eu, com uma pessoa, com a natureza, com os limites do espaço, enfim.

E naquela que seria a parte dedicada à cidade, vemos um retorno ao homem, que seria o mote da primeira parte, pois se reconhece que será no homem, quando esse ocupa o hiato do mundo (ou seja, faz poesia), que a cidade continuará existindo.

E se ainda há poetas
É porque continuam em palavras
(que nenhum corpo pode mentir)
As cidades que vão por baixo
Da cidade do século XXI

Ao misturar as partes do livro, Leprevost oferece ainda outra leitura do que chamou “tudo urge no meu estar tranquilo”. Ele abre a possibilidade de lermos um confronto entre as tranquilidades. As urgências no estado tranquilo do poeta colidem com as urgências da cidade e é justamente dessa contradição que (in)surge a poesia e continua-se a cidade. Enfim, se prevalece as urgências do estar tranquilo do poeta, testemunha-se uma insurgência na dinâmica hipócrita da cidade. Mesmo que ambos sejam carne do mesmo signo, não há coincidência entre os estados de tranquilidade do poeta e da cidade.

 

 

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Tudo urge no meu estar tranquilo
Luiz Felipe Leprevost
Encrenca
115 págs.

 

 

O AUTOR
Luiz Felipe Leprevost
Nasceu em Curitiba (PR), em 1979. Hoje vive no Rio de Janeiro (RJ). Formado em artes cênicas, também atua no teatro como ator, diretor e dramaturgo. Escreve, além de poemas, romances e contos, além de compor canções. Foi um dos fundadores do selo Encrenca.

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