Conversa, escuta

janeiro 2020 / Conversa, escuta / Instruções urgentes para sobreviver aos tempos de guerra (4)

Texto publicado na edição #237

Instruções urgentes para sobreviver aos tempos de guerra (4)

Não há nada mais temido pelo inimigo reacionário do que um corpo em forma e um espírito livre

> Por Alcir Pécora

Ilustração: Paula Calleja

Ilustração: Paula Calleja

A guerra do presente segue a todo vapor, sem sinais de que vá amainar nos próximos anos. Isso justifica que eu continue a buscar formas de convívio e de sobrevivência razoável no folheto do Dr. Clegg? Acredito que sim. Como sabem os leitores da coluna, o folheto de sua autoria intitulado How to keep well in Wartime, editado pelo Gabinete Churchill, na Londres sitiada de 1943, pretendia instruir a população sobre procedimentos saudáveis que poderiam ajudá-la a suportar as duríssimas circunstâncias da Segunda Guerra. Hoje, traduzo o quarto capítulo, intitulado Mantenha corpo e mente ativos.

Aqueles que podem ir à praia durante a guerra são sortudos. Além de tomar sol e ar puro, podem banhar-se. Há poucas maneiras de exercitar melhor o corpo do que nadar, seja no mar, no rio ou em piscinas. A tentação, entretanto, é exagerar. É estúpido ficar na água até os dedos ficarem brancos ou azuis. E realmente não faz sentido exibir-se para os amigos e parentes seja nadando até muito longe, seja com uma frequência excessiva.

Quando você se exercita a pé, de bicicleta, nadando ou cuidando do jardim, há sempre um sinal que lhe dirá se você está exagerando o da fadiga que se torna exaustão. Isso é muito diferente do cansaço saudável posterior ao exercício, que lhe dá uma sensação de relaxamento. A exaustão significa que você se fez mal em vez de bem.

Dr. Clegg também dá lições atinentes ao tópico Feriados em casa:

Para o tempo livre e os feriados, você deveria desejar duas coisas. A primeira é relaxamento. A segunda é mudança. A mudança irá ajudá-lo a relaxar. E não precisa ser uma mudança drástica.

Eis o que ele sugere:

Deve fazer anos que você não visita certo lugar bacana apenas 5 ou 6 km de onde você vive. Você não deve ter ido a um concerto ou ao teatro por meses, ou mesmo anos. Talvez você nunca tenha pensado em dar um pulo na biblioteca pública.

E continua:

Não gaste todo o seu tempo com bilhar e carteado em atmosferas pesadas e enfumaçadas. Faça algo diferente. Há muitas coisas a fazer que trarão mudança e renovação para a sua vida, mesmo quando a guerra torna aconselhável passar o feriado em casa.

O tópico seguinte é: Aproveite ao máximo o tempo livre. Segundo o Dr. Clegg, isso

é absolutamente necessário para relaxar mentalmente e fisicamente durante a semana de trabalho normal. A melhor maneira de fazê-lo varia de acordo com as circunstâncias. Se o seu trabalho exige grande força braçal, seus músculos estarão cansados e o que talvez você mais precise seja apenas descansar. Se o seu trabalho o obriga a ficar de pé o dia todo, ou envolve repetição monótona, você provavelmente precisa de alguma mudança, como andar, mais do que descansar. Aliás, meninas e mulheres devem usar saltos baixos para andar ou ficar em pé. Se você passa o dia sentado num escritório ou loja, você não estará fisicamente ou muscularmente cansado, mas você pode sentir moleza e até exaustão ao fazer exercício.

O que é preciso, qualquer que seja o trabalho, é mudar de atividade para alguma coisa que irá exercitar os músculos que você não usa durante o dia de trabalho, e nem serão usados durante as ocasiões de desfile da Guarda ou nas obrigações da Defesa Civil.

Para a maioria de nós, exercício é essencial para a saúde. Se possível, alguma forma de exercício deveria ser feita diariamente ao ar livre. Uma maneira de fazer isso é levantar meia hora mais cedo e ir a pé parte do caminho para o trabalho. Se você não estiver muito cansado ao fim do dia, você poderia fazer o mesmo na volta. Durante esta guerra, muitas pessoas começaram a ir trabalhar de bicicleta e se sentiram melhor.

Diante dessa observação do Dr. Clegg, me ocorreu pensar se essas tantas bicicletas disponíveis pela rua poderiam ser usadas em nossa guerra contemporânea. Caramba, não é pouco armamento!

O próximo tópico assinalado pelo Dr. Clegg é: Músculos são feitos para ser usados. Diz ele que “as massas de músculos no braço, perna, coxa, costas e barriga não são apenas ornamentais. Estão ali para ser usadas. Se não o são, cedo ou tarde, você vai saber disso”. Isso soa um pouco ameaçador para mim. “Reumatismo é uma queixa comum no país e uma precaução é manter juntas e músculos em movimento para que o sangue flua livremente através deles. Os seus músculos estão ficando definidos? Você consegue ficar de pé com os joelhos juntos e tocar as pontas dos dedões com as pontas dos dedos? Tente. Nos fins de semana, quando puder, ande, pedale, nade, escave, reme — e curta. Não adie. Comece agora, e não se preocupe ao sentir alguma rigidez no início.”

Dr. Clegg não está dando mole pra ninguém neste quarto capítulo. E ainda reserva uma séria Advertência aos obesos. Diz ele que

se você está com sobrepeso, é preciso começar o exercício gradualmente, e aumentá-lo gradualmente. É verdade que algumas pessoas são gordas por natureza. Em outras, a obesidade pode ser resultado de um excesso de alimentação e de falta de exercício. Um homem chamado Daniel Lambert deve ter batido o recorde de obesidade. Ele pesou 330 kg e a medida de sua cintura chegou a 286 cm. Morreu antes dos 40. Companhias de seguro afirmam que gordos não vivem tanto como os magros.

Admito que sutileza não é o forte do Dr. Clegg, mas é favor não confundir as suas advertências, feitas em 1943, segundo as indicações científicas mais aceitas na época, com o reles bullying a gordos. Saúde é arma nossa, bullying é baixaria inimiga.

Se você está com sobrepeso e sente que a sua saúde não está em cima, procure um médico antes de fazer algo a respeito. E, em qualquer caso, não tome pílulas para emagrecer ou remédios para a tireoide sem receita médica. Muitas pessoas já morreram por tomar comprimidos que supostamente as fariam emagrecer.

O conselho habitual para os obesos que querem emagrecer é dizer-lhes para comer menos, especialmente doces e amidos. Nos dias atuais de racionamento, entretanto, qualquer ajuste na dieta tem de ser feita com muito cuidado. Naturalmente, você não precisa comer toda a sua porção de doces. Concentre-se em fazer mais exercícios e começá-los gradualmente.

Simetricamente, Dr. Clegg também faz Advertências aos muito magros. Embora admita que, para a saúde, “ser muito magro é um pouco melhor do que ser muito gordo”, ele está longe de ser fanático da magreza:

Em mulheres jovens, especialmente, magreza não é vantagem. Infelizmente, nos últimos anos se tornou moda para garotas e jovens mulheres ser magras, e elas usualmente dão um jeito de comer muito pouco, com ou sem racionamento. Mulheres jovens, especialmente, deveriam comer a porção completa, porque a tuberculose é mais comum entre elas do que entre outras pessoas. A subalimentação, especialmente de gordura, permite um avanço maior da tuberculose.

E encerra o tópico alertando que “não existe isso de ‘alimentos emagrecedores’”.

Assim, camaradas, saúde tem a ver com exercício físico e mente tranquila. A fórmula é singela, mas não há nada mais temido pelo inimigo reacionário do que um corpo em forma e um espírito livre.

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