Ensaios e Resenhas

dezembro 2011 / Ensaios e Resenhas / Impotência expressiva

Texto publicado na edição #121

Impotência expressiva

  A crítica não costuma dar ouvidos (nem olhos) às obras produzidas por autores que fazem certo “turismo” pela literatura. Não […]

> Por MARCOS PASCHE

Fernanda Young por Ramon Muniz

 

A crítica não costuma dar ouvidos (nem olhos) às obras produzidas por autores que fazem certo “turismo” pela literatura. Não há aqui nenhuma condenação, pois é compreensível que o crítico, tendo incontáveis projetos na cabeça e inúmeros livros sobre a mesa (todos clamando por atenção), espere que os escritos do autor viajante, o qual é normalmente uma celebridade em sua área original de atuação, ganhem maturidade e efetivem-se como uma obra, para, a partir de então, dirigir suas reflexões à mesma. E quando isso acontece, é quase regra haver por todos os lados da ação reflexiva uma pré-disposição ao desmerecimento.

Em nosso país, são muitos os exemplos de literatos esporádicos ignorados (no sentido do desconhecimento e do desprezo) pelos especialistas. Dentre tantos outros, destaco o caso das atrizes Bruna Lombardi e Maitê Proença (a primeira escreve poemas; a segunda, crônicas e ficção), o do senador e romancista maranhense José Sarney e o do cantor, compositor e ficcionista Chico Buarque de Hollanda (sobre este há opiniões bem divididas, mas, a bem da verdade, ele é recebedor de mais atenção do que os outros).

É este também o caso da fluminense Fernanda Young, personagem do universo televisivo que já atuou como atriz e hoje apresenta um programa de entrevistas informais de relativo sucesso. Além disso, Fernanda atua regularmente como roteirista de outros programas, e, no embalo de uma celebridade midiática, posou nua para uma revista masculina de ampla circulação nacional. No que tange ao currículo literário, ela possui uma bibliografia considerável (em especial para uma autora que chega agora à casa dos 40 anos), composta por quase dez títulos, sendo a maioria romances.

O pau
Por conta da reunião desses fatores, é “natural” que a crítica sequer se dê conta de O pau, novo romance de Fernanda Young. Caso ocorra o contrário, também será perfeitamente esperável que as opiniões emitidas sobre o livro já sejam, de antemão, condenatórias.

Mas alguns itens do romance permitem ver que sua autora não é desinformada a respeito da construção narrativa, e isto é verificável na disposição dos capítulos, os quais não seguem o tradicional encadeamento gradativo dos fatos, e por isso são organizados em “antes e depois” de dois acontecimentos centrais da narrativa: o primeiro é a descoberta por parte de Adriana (protagonista) de que seu namorado a traiu, sendo chamada pela amante de seu namorado de “velhota” (Adriana tem 38 anos e o rapaz é 14 anos mais jovem); o segundo, conseqüência imediata, é uma cena grotesca de castração psicológica a que Adriana submete o moço.

Noutras partes do livro, o arranjo de vozes narrativas alcança sucesso quando se alternam, em diálogo indireto, as observações do narrador e o pensamento de Adriana, como se aquele soprasse sugestões aos ouvidos desta, numa intercalação bem construída (em termos formais):

“Meu Deus! Como que eu me tornei a Suzana Vieira?!”

Da mesma forma que a Suzana Vieira se tornou a Suzana Vieira. Ela, também, uma mulher bonita, nada tola e notoriamente jovial.

“É isso, então? As mulheres são umas bobas?”

Mais ou menos isso.

“Mas eu nunca gostei de caras mais jovens! Eu nunca estive atrás de pica, perdendo a noção do ridículo! Eu sou uma esteta!”

Talvez a Suzana Vieira não possa ser chamada de esteta, mas é uma mulher inteligente e talentosa (…), até que, de repente, só os mais jovens se interessavam por ela.

“Por quê?”

Porque tinha algo a oferecer, que eles precisavam (…) — ela tinha recursos.

“Mas eu não sou rica.”

Recursos, não dinheiro.

Artificialidade
Mas a história literária prova que o conhecimento técnico não leva o autor necessariamente à criação de uma obra expressiva, e O pau vacila e declina em todos os seus outros elementos. Sabe-se que a arte moderna preferiu a pequenez das poças à caudalidade dos rios, porém essa não foi a razão de ser exclusiva de suas maiores obras: a felicidade dos modernos foi demonstrar que profundidade não é um fenômeno objetivamente relacionado a tamanho ou a volume físico. Por isso, o primeiro e maior item de redução do romance de Fernanda Young constitui-se por ser a narrativa centrada na idéia tola de Adriana amarrar seu namorado na cama e, estando ele nu, passar sobre seu corpo toda sorte de coisas repugnantes, como miúdos de boi apodrecidos.

O tema, como se vê, instiga a vontade de qualificar todo o livro como simplório (o que, ao fundo, ele é), mas a forma poderia dignificar tal nulidade em termos literários, mas ocorre algo bem longe disso. Imagine-se, leitor (ou leitora, fazendo as concordâncias necessárias), amarrado a uma cama, tendo à frente sua parceira amorosa, uma mulher absolutamente desequilibrada e histérica, vingando-se do suposto adultério cometido por você, e, por isso, falando as coisas mais estapafúrdias possíveis para a ocasião, como, por exemplo, o significado de “falo” em mais de quinze línguas, ou a média aritmética do número de estrelas em relação ao de galáxias. O que você faria, leitor, se por intermináveis minutos e por intermináveis páginas fosse submetido a tal sessão de insanidade? Uma reação nervosa e brusca? Um xingamento, no mínimo? Pois nem mesmo isso o namorado de Adriana faz da maneira esperada, visto que, mesmo considerando que os capítulos não são lineares, a Desconstrução (assim Adriana intitula sua ação para inviabilizar para sempre as ereções da sua vítima) começa de fato na página 41, e somente na 87 (depois de muitas falas, registre-se) o rapaz revida com um “Vai te foder”.

A artificialidade não se encontra somente no apagamento psicológico do personagem citado. A linguagem empregada é também muito carente de melhor elaboração, de uma elaboração que dela faça criadora e criatura do universo ficcional instaurado. Num texto que pretende escandalizar pela postura rebeldemente informal (como é o caso da própria autora, que espalha pela imprensa declarações hipoteticamente polêmicas), o narrador (que em nenhum momento se apresenta personalizado, tampouco simboliza uma alma inconstante e contraditória) põe lado a lado, em sua voz, passagens em que o nível lingüístico é bastante coloquial, comportando gírias e o vocabulário bem próprio de ocasiões lascivas — “Foi quando [Adriana] sentiu o pau ficar duro, por trás da calça fina, e sorriu maliciosa. Caiu de joelhos em seguida, já abrindo a braguilha e mandando, com autoridade de perita” —, e outras que, tratando das mesmas ocasiões, afastam a forma do conteúdo por conta de uma formalidade imprópria para maiores de 18 anos em estado de franca combustão: “Umedeceu os lábios e aproveitou que o órgão não estava duro em sua totalidade para abocanhá-lo inteiro, pela primeira vez”.

Pieguice
Como se vê, o narrador, em fragmentos absolutamente vizinhos no livro, alterna-se, mas sem diversificar-se, pois a variação de termos, no livro, obedece a um critério mais gramatical que literário, e ouvimos a voz narrativa sem podermos distinguir se ela é proferida por um diretor de filme erótico ou por um delegado de polícia.

Ainda sobre isso, outras passagens do livro fazem a narrativa descambar para a pieguice: “Pára! Chega! Se não gozou, não vai mais gozar, esquece! Porque seu pau está me assando, tira ele daí! Que cara chato! Com esse pau maior que o necessário!”. E, além, a infantilidade (no sentido negativo do termo) toma conta de todo o capítulo Durante o segundo cigarro, constituído por uma conversa entre Adriana e o namorado:

— Eu estou nervosa porque está na hora de começar o nosso programa.

— Que programa?

— De perguntas e respostas. Chamado Ovo na Boca, gostou? É assim: eu enfio um ovo na sua boca e você tem que responder a umas perguntas. Cada resposta errada, “é uma brasa, mora?”, eu dou uma queimadinha [com cigarro] nesse teu corpitcho de Adonis. Legal, né? Vamos começar? Abre a boca.

— Adriana, eu…

— Abre a boca!

— Você não… mmmmm mmmmmmmm mmm!

— Primeira pergunta: quem é o autor da seguinte frase: “Um dia vem na vida o desejo de conhecer a paixão exterminadora”?

— Mmm?

— Resposta errada, péééééééééééé. O autor é Sándor Márai, em De verdade, livro que você fingiu ter lido. “É uma brasa, mora?!”.

— Hummmmmm!!!…

Sendo o livro uma manifestação impregnada de artificialidade, não poderiam faltar nele elementos artificiais da vida social brasileira (mas não só dela). Também no que tange a esse quesito o romance é vacilante, pois a amostragem do universo vip poderia render uma ampla observação crítica do quanto ele é vazio. Mas O pau retrata partes da realidade elitista sem qualquer tipo de densidade reflexiva: “Aí aparece Adriana. Chique, bonita, com grana. Famosa no meio. Livre de compromissos. Convidada vip de todas as festas mais faladas, de todos os melhores shows internacionais”.

E é esta atmosfera — de uma observação rasa da realidade, de uma inexpressiva transfiguração do real para o ficcional, e de uma linguagem algo tonta e farta de gratuidades — que se mantém pelas outras partes do livro. Seus poucos lances formais dignos de nota, por não alavancarem a narrativa ao patamar da densidade, permitem supor que sua autora, que costuma responder de maneira ríspida aos seus críticos (como ocorreu recentemente com um colunista de um jornal do Rio de Janeiro), tentou imprimir no livro certas técnicas para imunizá-lo das puxadas de tapete por parte daqueles que não o leram e dele não gostaram. Por isso os recursos técnicos são, em O pau, pedaços de uma jangada espatifada, a boiarem solitários sem irem a lugar algum. Apesar do teor abusado e polêmico do título, o livro é frágil, especialmente por ser fruto de uma ideologia muito corrente atualmente, a qual diz que toda nudez, só por ser nua, será celebrada.

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FERNANDA YOUNG

Fernanda Young_divulga_PB_121

Nasceu em Niterói (RJ), em 1970. Além de escrever ficção, trabalha como roteirista de programas televisivos e apresenta, no canal GNT, o programa Irritando Fernanda Young. Publicou, dentre outros, os livros Vergonha dos pés (1996), Cartas para alguém bem perto (1998), Aritmética (2004) e Tudo que você não soube (2007).

Paus são pintos, de tão covardes. Paus trabalham no sistema urinário, que é responsável pelo despejo de dejetos tóxicos no meio ambiente. Um pau, maior ou menor, mais grosso ou mais fino, não acrescenta nada ao caráter de um homem. Ter uma barata gigante no meio das pernas acrescentaria. Constatação que nos leva à seguinte conclusão: paus têm menos relevância para a humanidade do que as baratas gigantes de Madagascar.

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Fernanda Young
Rocco
184 págs.