Inquérito

março 2020 / Inquérito / Identidade no mundo

Texto publicado na edição #239

Identidade no mundo

26 perguntas a Luisa Geisler

> Por RASCUNHO

Luisa Geisler, autora de Enfim, capivaras

Luisa Geisler, autora de Enfim, capivaras

A gaúcha Luisa Geisler chegou com tudo no meio literário. Em 2011, aos 19 anos de idade, venceu o Prêmio Sesc de Literatura com seus Contos de mentira. No ano seguinte, levou o mesmo prêmio pelo romance Quiçá e fez parte da antologia Os melhores jovens escritores brasileiros — uma edição especial da revista britânica Granta. Mestre em processo criativo pela National University of Ireland, Luisa foi aluna de Luiz Antonio de Assis Brasil, que há mais de 30 anos conduz uma oficina de criação literária na PUC-RS, e tem textos publicados da Argentina ao Japão. Desde que passou a ser publicada pelos selos da Companhia das Letras, lançou Luzes de emergência se acenderão automaticamente (2014), De espaços abandonados (2018) e Enfim, capivaras (2019).

• Quando se deu conta de que queria ser escritora?
É algo a tratar em terapia como escrever é parte da minha identidade no mundo. Escrevia muito quando pequena: fui de fazer meus próprios livros infantis com grandes ilustrações em folhas A4 até produzir fanfics de Harry Potter na pré-adolescência. Acho que só nunca parei de escrever. Mas ressalto: escrever, não necessariamente publicar.

• Quais são suas manias e obsessões literárias?
Sonecas para pensar. Ao ler: sublinhar. Ao escrever: revisar, reescrever, espaçamento duplo.

• Que leitura é imprescindível no seu dia a dia?
Audiobooks para lavar a louça. Pia suja é o primeiro passo dentro do vórtice da procrastinação.

• Se pudesse recomendar um livro ao presidente Jair Bolsonaro, qual seria?
Algum desses infantis com grandes ilustrações e uma lição de moral no final, tipo “mentir é errado” e “não devemos machucar os animais”.

• Quais são as circunstâncias ideais para escrever?
Modo avião no celular, uma cadeira confortável e fones de ouvido.

• Quais são as circunstâncias ideais de leitura?
Uma rede, várias almofadas e cheiro de chá preto.

• O que considera um dia de trabalho produtivo?
Quando dou qualquer passo para frente.

• O que lhe dá mais prazer no processo de escrita?
Reler algo que escrevi anos atrás e gostar de um jeito diferente.

• Qual o maior inimigo de um escritor?
Os boletos.

• O que mais lhe incomoda no meio literário?
A mesma coisa de que mais gosto: as pessoas.

• Um autor em quem se deveria prestar mais atenção.
André de Leones, cujo romance Eufrates foi finalista do Jabuti agorinha em 2019. É brilhante, tem linguagem e olhares únicos desde seu primeiro livro, Hoje está um dia morto — adaptado para o cinema recentemente.

• Um livro imprescindível e um descartável.
A leitura por si só é imprescindível. Uma leitura descartável são as tretas no Twitter.

• Que defeito é capaz de destruir ou comprometer um livro?
Uma linguagem ruim, no sentido de que não beneficia a história que quer contar.

• Que assunto nunca entraria em sua literatura?
Tudo dá literatura: é tudo uma questão de ângulo.

• Qual foi o canto mais inusitado de onde tirou inspiração?
Em geral, sou uma escritora que liga pontos. Ligo um panfleto que peguei no centro da cidade com uma conversa que ouvi no trem com um livro que li dois anos atrás e de que nem me lembro o enredo, só de um personagem. Os pontos já estão todos ali. A inspiração, para mim, é esse juntar. Sei que não respondi a pergunta, mas é porque não tenho uma resposta. Minha mente é um poço de informações inúteis que um dia se prestam.

• Quando a inspiração não vem…
Faço que nem quando estou num restaurante para um almoço marcado e levo bolo em cima da hora. Finjo que era pra ser assim mesmo e ajo normalmente. Tenho prazos.

• Qual escritor — vivo ou morto — gostaria de convidar para um café?
Thomas Pynchon para o café. James Joyce para uma cerveja. Elvira Vigna para um almoço de domingo.

• O que é um bom leitor?
O que entende que o livro é uma pergunta, não uma resposta.

• O que te dá medo?
Tenho um monte de romances distópicos, biografias de nazistas e fascistas, um CID, um DSM-V, livros de antropologia, e um Thesaurus em casa. Faça as contas.

• O que te faz feliz?
Gatos dormindo em poses tronchas.

• Qual dúvida ou certeza guiam seu trabalho?
A dúvida como certeza (e vice-versa).

• Qual a sua maior preocupação ao escrever?
Quando vou conseguir tirar uma soneca. Quando vou ter bebido os dois litros de água que tenho de beber por dia. Se já deveria começar a fazer o almoço/janta/lanche. Se estou de fato com fome ou entediada. Se a dor que sinto na perna pode ser câncer. Se tenho câncer. Se tiver câncer, para quem contar primeiro. Já que tenho câncer, qual a relevância de seguir escrevendo. Decidir que horas pré-aquecer o forno para fazer a janta. Essa é a segunda garrafa de água já?

• A literatura tem alguma obrigação?
Deus me livre.

• Qual o limite da ficção?
Deus me livre mais ainda.

• Se um ET aparecesse na sua frente e pedisse “leve-me ao seu líder”, a quem você o levaria?
Aos meus gatos.

• O que você espera da eternidade?
A soneca eterna.

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Enfim, capivaras
Luisa Geisler
Seguinte
176 págs.

 

 

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