Ensaios e Resenhas

fevereiro 2020 / Ensaios e Resenhas / Homens e mulheres de ação

Texto publicado na edição #238

Homens e mulheres de ação

"A véspera", de Ivan Turguêniev, é o retrato de uma geração perdida em plena ebulição intelectual russa

> Por YURI AL'HANATI

Ivan Turguêniev, autor de A véspera

Ivan Turguêniev, autor de A véspera

Convenciona-se chamar de “projeto literário” o conjunto das interseções ou possíveis correlações entre as obras de um mesmo autor. O que pode ser tomado em chave negativa como repetição, maneirismo, vício ou falta de imaginação pode igualmente ser lido como exploração, aprofundamento, obsessão artística, tentativa de esgotamento e formação de universo. Um projeto literário, que no mosaico das obras compreende uma leitura singular da história ou da geografia. Não à toa, o livro considerado fundamental da obra do escritor russo Ivan Turguêniev (1818-1883), o romance Pais e filhos, de 1862, é o que aborda suas maiores preocupações: o choque de gerações, os descaminhos do amor diante dos papéis na sociedade e a vida do “homem supérfluo” (lishnii tchelovek) — arquétipo literário cuja invenção é atribuída à sua novela de 1850, Diário de um homem supérfluo, e que viria a influenciar muitas outras obras da mesma época, de maneira mais notória o grande romance Oblómov (1859), de Ivan Gontcharóv. Entre o Diário e Pais e filhos, entretanto, Turguêniev foi aperfeiçoando esse projeto literário, como em seu romance de estreia, Rúdin (1856), e, mais singularmente, em A véspera, publicado originalmente em 1860.

O livro, que no Brasil já se chamou Um búlgaro, é um fotograma do instante anterior ao surgimento do niilismo de Bazárov e das transformações de ideias que colocariam o motor russo a rodar em direção aos intensos abalos que se abateram sobre o país até 1917. Nele, temos de um lado três homens supérfluos — jovens ilustrados e subaproveitados pelo engessamento social e intelectual da Rússia — e do outro três representantes da geração anterior, barreiras morais para qualquer anseio de mudança que possa surgir entre os jovens. Chúbin, um escultor talentoso, Bersiéniev, filósofo e teórico, e Elena, que anseia por transformações em sua rotina modorrenta, sendo ela mesma um núcleo à parte em um bildungsroman, compõem o primeiro núcleo e ensaiam um triângulo amoroso de intenções. A tensão amorosa, entretanto, não chega a se desenvolver em um círculo fechado pela inserção, por parte da narrativa, de um quarto elemento, que desestabiliza a todos: Dmítri Insárov, um estudante búlgaro. Pobre, inteligente e revolucionário, tem o desejo mais profundo de voltar à Bulgária e libertar seu povo do domínio turco. É Bersiéniev quem se encanta por ele primeiro e resolve apresentá-lo ao convívio dos outros personagens, e a partir daí os dramas de amor, ambição e de choques geracionais são reconfigurados.

Internacionalismo
Um parêntese se faz necessário nesse ponto. Caso fôssemos dicotômicos, é notório que Turguêniev teria uma predileção pela segunda das duas formas de grandes histórias identificadas na célebre sentença de Tolstói, a saber: um homem sai em uma aventura ou um estranho chega à cidade. Insárov é um dos estrangeiros do escritor, junto com Rúdin, do romance homônimo, e Bazárov, de Pais e filhos. Isso há de se dever, principalmente, por seu contato com as ideias que estavam em voga na Europa ocidental de sua época, com as quais teve contato ainda estudante na Alemanha. Considerado por muitos o mais europeu dos russos, teve bom trânsito com escritores e filósofos franceses e alemães e tratou de, em sua obra, contrapor as movimentações do resto do continente europeu ao provincianismo da Rússia pré-revolução. É bem verdade que explorou também as histórias do primeiro tipo, que compreende a jornada de um viajante, em obras menores, como Ássia (1858) e Águas de primavera (1872), certo de que suas experiências em terras distantes teriam seu valor. Mas é em livros como A véspera que sua literatura ganha grandeza, muito em parte pela literatura russa do século 19 ter sua recepção inescapavelmente atrelada a um espaço de discussão e interpretação do país e seus rumos. Aos russos, mais importante do que saber como a vida russa poderia ser moldada no exterior era entender como as correntes vanguardistas europeias poderiam reconfigurar a vida nacional.

Estrangeirismo sedutor
Diante de seu espírito indômito, o que Insárov significa para cada um de seus personagens? Ao núcleo jovem do romance, é o chamado à ação, a vida que existe fora da mente e fora das artes, a transformação direta do estado das coisas. Todos se sentem diminutos diante do estudante Búlgaro: Bersiéniev não passa de um teórico; Chúbin, um mestre das superficialidades; e Elena, por sua vez, ainda não é nada além de uma jovem cobiçada pelos outros dois, razão pela qual sente-se emocionalmente impelida a amá-lo em segredo. No amor de Elena está o amor que se apropria da grandeza. Amar o búlgaro revolucionário é tornar-se, ela também, grandiosa, razão pela qual abraça esse amor e toda a causa política que vem atrelada a ele. Porque Insárov é um homem comedido em seus prazeres, discreto e correto em suas relações. A ele só interessa a revolução.

Tal poder sedutor do estrangeiro é comum em Turguêniev. O autor frequentemente metamorfoseia o encanto por ideias e causas internacionais em histórias de amor, como se ao russo restasse pouco mais em termos intelectuais do que se atirar de cabeça na próxima vanguarda. Assim é, mais uma vez, em Rúdin e Pais e filhos, com consequências desastrosas em todos os casos.

“Questão da mulher”
O choque de gerações, por sua vez, aparece na contraposição dos personagens apresentados com o núcleo familiar de Elena. Nikolai Artiémievitch, seu pai, Anna Vassiliévna, a mãe, e Uvar Ivanovitch, um tio distante de seu pai, compõem a Rússia clássica, com seus status no funcionalismo e no militarismo, seus bailes e seus casamentos arranjados. A eles, comove a pobreza e a retidão de Insárov, mas a existência extrema causa repulsa e apreensão. O fato de serem todos parentes de Elena não é mero acaso narrativo: mais do que contrapor pais e filhos, velhos e jovens, Turguêniev, sempre atento às transformações sociais de sua época, evidenciou na formação da jovem personagem a fagulha da primeira onda feminista russa, aquela cujas mulheres se libertam das vontades familiares, escolhem seus pretendentes e tomam parte em grandes feitos, como a revolução de Insárov. É bom lembrar que no ano seguinte ao da publicação de A véspera, um outro romance extremamente contundente na “questão da mulher” (jiénski voprós) viria à luz pelo olhar sensível da autora Nadiêjda Khvoshchínskaia: A moça do internato, já comentado em uma resenha anterior. Era o protagonismo feminino da Rússia ganhando corpo com o crescimento da intelligentsia.

É bom sublinhar que tais movimentações percebidas pelo autor não necessariamente despertavam sua simpatia. O artigo de Nikolai Dobroliúbov sobre o romance publicado na revista Sovriemiénnik no mesmo ano de seu lançamento provocou controvérsia para Turguêniev. O texto ressaltava as características progressistas da escolha de Elena — um revolucionário sobre um artista ou um intelectual — diante de um autor que sempre foi defensor do liberalismo russo. Turguêniev não aceitou a crítica, mas as bases interpretativas de seus personagens já estavam dadas. Turguêniev, o grande escritor russo que se propôs a mapear as vanguardas de sua época acabou sendo ultrapassado por seu próprio mapeamento, descrição e análise da conjuntura. E não é isso o que faz a boa e grande literatura?

Ivan Turguêniev_A véspera_238

A véspera
Ivan Turguêniev
Trad.: Paula Vaz de Almeida
Boitempo
200 págs.

O AUTOR
Ivan Sergéievitch Turguêniev
Nasceu em 1818, em Oriol, Rússia. Filho de aristocratas rurais, mudou-se para Moscou junto com a família em 1927, onde cursou filosofia e começou a publicar seus primeiros poemas. Estudou na Alemanha até 1941, e lá entrou em contato com o pensamento de Hegel, reitor da sua universidade. Seu trânsito na Europa ocidental — voltaria a morar fora da Rússia posteriormente — fez de si um dos maiores divulgadores da literatura russa em terras estrangeiras. Entre as principais obras deixadas destacam-se Diário de um homem supérfluo (1850), Rúdin (1856), A véspera (1860) e Pais e filhos (1862).

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