Simetrias dissonantes

dezembro 2017 / Simetrias dissonantes / Hoje acordei muito triste, com saudade do trema

Texto publicado na edição #212

Hoje acordei muito triste, com saudade do trema

Confesso que levei certo tempo pra compreender o macete do trema

> Por NELSON DE OLIVEIRA

Ilustração: Matheus Vigliar

Ilustração: Matheus Vigliar

Não aguento mais escrever aguento. Não suporto mais escrever cinquenta, eloquente, linguiça, pinguim, tranquilo, sequestro.

Confesso que, no ensino médio, levei certo tempo pra compreender & memorizar o macete do trema. Mas quando finalmente assimilei, percebi a beleza sutil desse sinal diacrítico, e tomava o maior cuidado ao usá-lo. Até me envaidecia, ao perceber que, em cartas & e-mails, a maioria das pessoas nem se importava, mas eu sim.

O Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa pode ter trazido muitos benefícios aos países que falam & escrevem nesse idioma, mas jamais perdoarei as autoridades lusófonas pela morte do trema.

Nem pela supressão do acento agudo na palavra pára (verbo).

Nem pela supressão do acento circunflexo no substantivo pêlo (o pêlo do gato, do braço etc. precisa muito do circunflexo).

Do caderno de Sofia Soft
Ninguém distribui moedas de ouro, pois todos, até os bilionários, sempre acham que têm pouco. Mas opinião a galera distribui aos montes.

Da série Resgatando obras
Adaptação do funcionário Ruam. Já ouviram falar desse livro?

Tenho certeza que não.

É um romance bem curto, tem cento e vinte páginas, com muito espaço em branco. Foi escrito por Mauro Chaves (de quem sei pouco) e publicado em 1975, pela editora Perspectiva.

Não fiquei sabendo de sua existência num jornal ou numa revista de grande circulação. Fiquei sabendo quase por acaso, num blogue, entre outras indicações de leitura.

Comprei meu exemplar na Estante Virtual.

Não perdoo nossa gloriosa crítica especializada, que enche páginas & páginas de digressões perfunctórias, por jamais ter indicado essa preciosidade obscura.

Que esse livro provocativo & inventivo seja sistematicamente ignorado pelos nossos formadores de opinião, esse fato lamentável apenas confirma a indigência de nossa cultura literária.

No Brasil, a verdadeira literatura marginal é a ficção científica.

Justificativa: o adjetivo marginal, na expressão literatura marginal, refere-se a que marginalidade? À marginalidade socioeconômica (uma literatura produzida pela parcela mais pobre da sociedade) ou à marginalidade estética (uma literatura desprezada pelas autoridades culturais)?

Durante muito tempo, a literatura produzida pela parcela mais pobre da sociedade também era desprezada pelas autoridades culturais. Mas isso mudou na virada do século, com o sucesso comercial de Cidade de Deus, de Paulo Lins, e Capão pecado, de Ferréz. Hoje, a periferia e a favela são temas constantes não apenas na literatura, mas também na canção, na tevê e no cinema brasileiros. Essa literatura produzida pela parcela mais pobre da sociedade, expressando seus dramas & suas tragédias particulares, já foi acolhida & legitimada pelas autoridades culturais. Uma vitória muito bem-vinda, por sinal.

Enquanto isso, apesar do número cada vez maior de ficcionistas talentosos & obras inquietantes, a ficção científica brasuca continua sofrendo da mais injusta & estúpida invisibilidade. Isso não significa que o leitor brasileiro não goste de ficção científica. Obras estrangeiras — clássicas ou contemporâneas — não fazem feio nas livrarias. E os filmes e as séries também costumam ser apreciados por centenas de milhares de nós.

Significa apenas que o brasileiro — leitor, editor, crítico, professor acadêmico — prefere não prestigiar a produção brasuca de ficção científica, por acreditar que “se é coisa de brasileiro só pode ser ruim”. O notório complexo de vira-lata, de que falava Nelson Rodrigues, vence mais uma vez.

Adaptação do funcionário Ruam é uma distopia insólita, um pesadelo muito mais aberrante do que o celebrado Não verás país nenhum, de Ignácio de Loyola Brandão. Nesse breve romance futurista narrado em forma de relatório por uma Unidade de Computação, nosso país encontra-se sob o regime totalitário do Grande Sistema comandado pela Potestade Brazileina.

O funcionário Ruam, antes um seguidor fervoroso do supremo líder — uma figura misteriosa criada talvez apenas para promover os interesses financeiros internacionais —, aos poucos vai rejeitando as falsas verdades da propaganda oficial e se aproximando dos párias políticos do Departamento de Contestação.

Se o enredo mirabolante já é espantoso por si só, o vocabulário usado pelos cidadãos dessa nova realidade é uma tecitura muito inventiva, que mistura italiano, francês & inglês. Exemplos: armitropa brazileina (tropa brasileira), batimento (edifício), batimento tribranchado (condomínio com três blocos), bundencoxar (essa dispensa explicação), chanquedado (caído no chão), delatochoques e jusconfessores (métodos de tortura), erexcitado e sexerétil (essas também dispensam explicação), esterola (esteira rolante), funebrário (cemitério), granavenida (grande avenida), luzofe e luzon (luz apagada e acesa), novasciente (a par das últimas novas), punitransplanto (transplante punitivo de órgão), regalolho (olho arregalado), senjeitar (ficar meio sem jeito), temperômetro (termômetro), tubo de guar (garrafa de guaraná).

Do caderno de Sofia Soft
O pessimista diz: o universo não tem um propósito. O otimista diz: o universo tem um propósito, mas nosso cérebro é primitivo demais pra compreender qual. O pessimista diz o mesmo que o otimista, mas com menos palavras.

O futuro da privacidade
Se você curte a série Black mirror, vai curtir O círculo, porque esse longa-metragem (baseado num romance de Dave Eggers, que eu ainda não li) é exatamente isto: um competente episódio estendido de BM, sobre o fracasso da privacidade no mundo contemporâneo.

É verdade que, de modo geral, as adaptações audiovisuais tendem a reduzir a obra literária original, achatando os personagens & simplificando o enredo. Não li o livro, não sei dizer se isso aconteceu aqui. Parece que não.

Detalhe importante: o filme dirigido por James Ponsoldt oferece ao menos um desenlace bastante verossímil.

Quem me conhece sabe: sou o fiscal dos finais. O chato. O resmungão. E sou um dos mais severos, pra não dizer um dos mais implacáveis. Não tolero final vagabundo. E a indústria anglófona só sabe fazer final vagabundo, incoerente, destrambelhado, mentiroso, vexatório, enfim, VAGABUNDO, tipo o final dos filmes de super-herói.

Então, quando encontro um longa com ao menos um final aceitável, subo na pedra e anuncio: juntem as moedas, esse vale o preço do ingresso.

Determinismo versus livre-arbítrio
Embate clássico na filosofia e na teologia, esse tem sido meu tema predileto, atualmente. Pena que apareça tão pouco na literatura e no cinema.

Terminei de ler o conto História de sua vida, do qual saiu o longa-metragem A chegada, e fiquei surpreso com a reflexão sobre o eterno conflito entre determinismo & livre-arbítrio, reflexão ausente do filme (maravilhoso, mas por motivos diferentes).

Outro ponto positivo no conto de Ted Chiang é a questão inquietante: por que nossa linguagem escrita é escrava de nossa linguagem falada? Por que escrevemos linearmente, uma palavra depois da outra (tempo), em vez de compormos imensas mandalas verbais, muito mais expressivas (espaço)?

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