Tudo é narrativa

junho 2018 / Tudo é narrativa / História das almas que se atrasam

Texto publicado na edição #218

História das almas que se atrasam

Essa história — presente em algum filme cujo nome escapa — eu ouvi do Gentil Barreira, no dia em que ele me convidou para integrar um projeto fotográfico

> Por Tércia Montenegro

Ilustração: Eduardo Souza

Ilustração: Eduardo Souza.

Aconteceu no México. Certo homem contratou um grupo de nativos para fazer o transporte de mercadorias por umas montanhas, e no começo eles andaram bastante rápido, avançaram bem — até que pararam em determinado local para o descanso. O tempo foi passando, passando, o contratante já achava que estava na hora de retomar o trajeto; falou com um dos nativos, e ele disse que não era possível seguir ainda, precisavam aguardar mais um pouco. O homem se chateou e foi falar com o chefe dos transportadores. Mesma resposta: tinham de esperar. Mas por quê?, perguntou o homem. Havia um prazo a cumprir; eles estavam ali parados, esperando o quê? Então o chefe lhe disse que, como tinham feito a travessia muito depressa, suas almas ficaram pelo caminho; agora eles deviam esperar que elas chegassem.

Essa história — presente em algum filme cujo nome escapa — eu ouvi do Gentil Barreira, no dia em que ele me convidou para integrar um projeto fotográfico. A série nasceu de um desejo, ou de um tormento (o que tantas vezes quer dizer o mesmo). Consistia em capturar a relatividade da luz, numa experiência de que só a fotografia é capaz: uma figura podia aparecer em três lugares simultaneamente, dissolvida pelo movimento.

Ele me pediu para fotografar com objetos sertanejos. Primeiro, um remo encontrado no açude Castanhão, que em época de seca expõe seus tesouros escondidos pela água. Depois, uma folha do tamanho do meu rosto, ferruginosa e estranhamente parecida com um peixe. Eu devia dançar, fazer movimentos sob o flash contínuo, devia agitar o vestido, sim, girar a saia farfalhante, o cabelo num ritmo insano, criando uma nuvem negra no lugar da cara.

No cenário, uma velha lona de algodão, do tipo antigamente usado para cobrir a carga em caminhões. Estendida como uma parede flexível no estúdio, ela criava uma textura sépia — e, junto com os objetos sertanejos que iam compondo as cenas, tudo parecia de uma ancestralidade selvagem.

A série já continha várias imagens. De início, veio Lara. Segurando dois globos luminosos (na verdade, ratoeiras semelhantes a armadilhas para a pesca de lagosta, recheadas com minúsculas lâmpadas de led), ela posou, agitando-se de várias maneiras. Eu vi reflexos esverdeados, sensações de néon, bolas de fogo, manchas crispadas. Depois, Ângela — levando cipós originalmente usados para amarrar pés de tomate — surgiu como uma camponesa na colheita. O seu gesto suspenso era coisa fértil, sagrada, uma oferenda de trigo. Mas em seguida ela também se agitou, e vi um banho vertical de feixes dourados.

Marina, artista dos malabares, mostrou a mágica de ter relâmpagos nas mãos. Raios ríspidos foram as lâmpadas de led suspensas, virando força centrípeta, desenho de trajeto numa escrita chamejante: bambolês de luz. E Sara, dançarina, transformou seu vestido num jorro branco flutuante. Valéria — a fisiculturista — posou estática, mas usando na cabeça um crânio de boi. Era o seu corpo um minotauro-fêmea, versão que sequer Picasso imaginou.

E então, lá estava eu, usando uma saia de flamenco que se transmutava em asas; um xale tecido com reflexos. Feita no instante do salto, a fotografia me permitia levitar. O flou era o seu feitiço: criava cortinas, véus, ritmos nublados. A fluidez no resultado dava exatamente a sensação de que a lente capturava minha alma errante, que se atrasa — porque o corpo é sempre mais ansioso, mais acelerado.

A velha história de que a fotografia sequestra a alma adquiria uma nova perspectiva. Porque capturava para nos devolver a ela. Se nosso olhar deseja parar um pouco, buscar a unidade em formas dissolvidas pelo gesto, é isso o que encontramos. E — embora talvez Gentil Barreira não tenha planejado — existe uma lição implícita em seu ensaio fotográfico. Ele faz ponderar sobre a pressa constante em que vivemos, o afã, a ansiedade, a correria de alcançar, mesmo que com o sacrifício de alguma parte — mesmo que não cheguemos inteiros.

Agora lembro Virginia Woolf, que em texto sobre abadias e catedrais (integrando o livro Cenas londrinas) comenta como tais construções são capazes de nos submeter à “pausa, expansão e liberação da pressa”. Pois também as fotografias — apesar de conterem arquitetura mais discreta — trazem um efeito parecido. E, se pensarmos bem, não é pouco quando uma arte, para além de qualquer traço estético ou espiritual, ensina a harmonia de estarmos quietos.

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