Simetrias dissonantes

agosto 2015 / Simetrias dissonantes / Haverá arte e literatura numa sociedade respeitável?

Texto publicado na edição #184

Haverá arte e literatura numa sociedade respeitável?

Kafka vive! A lei e a ordem estão ganhando terreno, limitando cada vez mais o movimento e o pensamento dos […]

> Por NELSON DE OLIVEIRA

O argentino Pablo Katchadjian

O argentino Pablo Katchadjian

Kafka vive! A lei e a ordem estão ganhando terreno, limitando cada vez mais o movimento e o pensamento dos cidadãos. Vejo nos jornais que a arte e a literatura mais provocativas estão virando caso de polícia. Aconteceu com as biografias não autorizadas. Aconteceu com a série Inimigos, do artista Gil Vicente, denunciada por uma suposta apologia ao crime.

Continua acontecendo com o teatro. O grupo Os Fofos Encenam percebeu isso da pior maneira. Antes, a peça Edifício London, do grupo Os Satyros, foi censurada pelo Tribunal de Justiça de São Paulo. E o diretor e os atores do Teatro Oficina foram processados judicialmente pela encenação da peça Acordes.

E o blogue satírico Falha de S. Paulo foi convidado, também judicialmente, a se retirar da web. Ideias são combatidas com ideias, dizia o velho bordão da democracia. Mas agora as ideias estão voltando a ser combatidas com mordaças e algemas.

Na esfera da ficção e da poesia brasucas, não sei de livro censurado ou processado recentemente. Isso era comum na Ditadura Militar. Mas percebo certo receio difuso nos agentes da cultura literária e editorial, que estão evitando a todo o custo contrariar a opinião pública. Se no passado a transgressão era a regra da grande arte e da literatura relevante, hoje a norma é a correção política-social-cultural.

Pergunto ao meu teclado se esse respeito exagerado é bom para a criação literária. Olho pra direita e vejo instituições respeitáveis promovendo concursos, festas e feiras respeitáveis. Olho pra esquerda e vejo editoras respeitáveis em busca de obras e autores respeitáveis. Que dizer dos informativos culturais? Até na web, local da liberdade anarquista, proliferam as páginas respeitáveis.

As autoridades da teoria literária, que sempre cultivaram a respeitabilidade na academia e na imprensa, agora parecem incentivar essa prática também entre os escritores. Um manto de invisibilidade envolve o poeta maldito, maconheiro ridículo que não toma banho. Uma capa de silêncio aprisiona o ficcionista excêntrico, gauche risível que não tem modos à mesa.

Em nome do respeito artificial às minorias e maiorias, o Estado está fortalecendo mais ainda o sistema penal. Processem o artista e o dramaturgo, censurem a peça e o livro! Se a obra não é respeitável, os operadores da justiça — não a crítica — cuidarão dela. Pergunto à tela do meu computador: haverá arte e literatura numa sociedade respeitável?

Enquanto escrevo, com o canto do olho assisto a uma cena da novela (Sete vidas). Um rapaz de dezessete anos está em frangalho. A garota que ele ama o rejeitou. Ele está numa padaria, o rosto vincado de humilhação e amargura. O rapaz parece estar enchendo a cara. O copo enfim entra no quadro. Um copo de suco de laranja. Nesse momento eu vejo o futuro.

Na sociedade da correção política-social-cultural, não haverá mais cigarro, drogas ou álcool na arte e na literatura. É preciso dar bom exemplo, cumprir a lei. Na vida e — por que não? — na representação estética da vida. Desenhos, pinturas, peças de teatro, balés e romances se parecerão cada vez mais com as novelas da tevê.

Não estou falando apenas das transgressões de crenças e costumes, que atingem o comportamento social e contrariam a opinião pública. As muito bem-vindas transgressões formais — a maior conquista do modernismo do século 20 — também estão em perigo.

Releituras
Artistas e escritores menos respeitáveis gostam de parodiar e subverter os clássicos. A Monalisa com bigodinho, de Duchamp, não foi a primeira nem a última releitura irônica aplaudida pela crítica. A quantidade de obras modernas que parodiam pinturas de Da Vinci e Michelangelo é incontável. Na música erudita ou popular o cenário não é diferente. Infinitos compositores já esticaram variações sem fim sobre temas famosos de outros compositores.

O cubismo e o dadaísmo legitimaram pra sempre a arte da colagem, que é outro modo de incorporar material alheio na elaboração de uma obra original. A paródia e a colagem dialogam dialeticamente com as referências originais — nobres ou vulgares, expressivas ou banais —, modelando uma homenagem-reflexão.

Na literatura, esses procedimentos criativos são uma força anárquica que põe em xeque a legitimidade de outros textos e da noção tradicional de autoria. “Ao destronar reconhecidas normas literárias, a paródia — a apropriação e o plágio também — questiona o estatuto da arte como propriedade individualizada.” (Linda Hutcheon em Uma teoria da paródia)

Todos sabem que o dionisíaco Valêncio Xavier pesquisou revistas e jornais antigos, da segunda década do século 20, pra compor sua novela mais famosa, O mez da grippe. Dividida em três partes — outubro, novembro e dezembro de 1918 —, a novela é feita de recortes da imprensa da época, com intervenções poéticas do autor.

Todos também sabem que Seth Grahame-Smith fez muito sucesso ao lançar o mash-up classic (clássico mistureba) Orgulho e preconceito e zumbis, adicionando detalhes bizarros ao romance de Jane Austen, agora rebaixada a coautora.

Mas poucos sabem que o artista multimídia Kabe Wilson separou cada uma das quase trinta e oito mil palavras do ensaio A room of one’s own, de Virginia Woolf, e durante quatro anos reordenou todas elas, criando um romance-anagrama intitulado Of one woman or so.

Bem perto daqui, na Argentina, o escritor Pablo Katchadjian colocou em ordem alfabética todos os verso do Martín Fierro, obra máxima de José Hernández, e criou seu dadaísta Martín Fierro ordenado alfabeticamente. Em outro projeto de paródia e releitura, Katchadjian engordou o conto O aleph, de Borges. A versão original, de quatro mil palavras, ganhou cinco mil e seiscentas palavras e foi rebatizada justamente de O aleph engordado.

Processo judicial
Então, a surpresa bizarra: María Kodama, viúva e herdeira de Borges, está processando judicialmente Pablo Katchadjian, por plágio. O assunto ganhou as páginas das publicações internacionais. No código penal argentino, o crime de plágio prevê uma pena de um a seis anos de prisão. Katchadjian pode ir pra cadeia por fazer algo que Pierre Menard e o próprio Borges defendiam e incentivavam: o exercício da intertextualidade.

A teoria literária em peso está do lado do parodista, afinal a apropriação-dessacralização de material alheio — colagem, remix, samplers, paródia, pastiche, plágio criativo etc. — revigora o sistema cultural. Mas o sistema jurídico não é coordenado por especialistas em arte e literatura. Legisladores e juízes raramente leem ou concordam com Julia Kristeva, Roland Barthes e Linda Hutcheon. Essa contradição é preocupante. Para a lei, intertextualidade é crime.

Os operadores da justiça são treinados pra enxergar na arte e na literatura apenas um bom negócio. É o capital tentando domesticar a criatividade humana, cercando com arame farpado a famigerada propriedade intelectual. A situação é tão bizarra que a lei iguala o plágio, criativo ou não, ao roubo. Mas se nada foi tirado do lugar como poderia ser um roubo? O conto original de Borges continua onde sempre esteve, na coletânea homônima.

Em solidariedade a Pablo Katchadjian, eu e meus outros eus autorizamos qualquer jovem escritor a parodiar, reescrever, engordar, emagrecer, melhorar, piorar — em resumo: plagiar criativamente — qualquer conto, romance ou poema nosso. Se eu gostar do resultado, elogiarei. Se não gostar, criticarei. Mas jamais chamarei a polícia. Luiz Bras e Valerio Oliveira também não. Ideias são combatidas com ideias, não com algemas.

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