Ensaios e Resenhas

janeiro 2013 / Ensaios e Resenhas / Guerra santa

Texto publicado na edição #101

Guerra santa

Há pouco tempo minha filha começou a dar sinais de que já não acredita na fadinha do dente. “Mas se […]

> Por FLÁVIO PARANHOS

Há pouco tempo minha filha começou a dar sinais de que já não acredita na fadinha do dente. “Mas se a fadinha não existir, você não ganhará nada pelo seu dente”, eu a lembrei. Então, mais que depressa, voltou atrás. Mas ela não apenas fingiu que voltara a acreditar. Senti que reuniu todas as suas forças (subconscientemente) e realmente voltou a acreditar. Ficamos, ambos, confrontados com uma situação desagradável. Uma vez quebrado o encanto, de minha parte, eu perdia mais um pedaço da menina a caminho de se tornar mulher. De sua parte, a perda era quantificável monetariamente.

É mais ou menos assim que deve se sentir uma pessoa religiosa quando se depara com livros como Quebrando o encanto, de Daniel Dennett, e Deus, um delírio, de Richard Dawkins. Se for apenas um crente (em Deus, sentido lato), sentir-se-á ameaçado de perder algo precioso. Se for, além de crente, um teólogo ou alguém participante de uma hierarquia religiosa, sentirá o gosto amargo de perder mais um fiel (como um pai que perde uma criança).

Mas isso só se for uma pessoa muito religiosa. Qualquer outro tipo de pessoa apenas se divertirá com a leitura de livros assim. Principalmente Deus, um delírio. Não só porque Dawkins consegue ser mais performático em sua retórica, mas também porque, em sua ânsia de atingir o leitor comum (em outras palavras, em sua ânsia de pregar), ele faz tantas concessões bestselléricas (embora refute isso, alegando trocar de bom grado seu bestsellerismo por uma prova inequívoca da existência – ou não – de Deus), que um ateu (ou agnóstico, ou filósofo, ou alguém mais interessado em argumentação mais consistente) se decepciona. Diverte-se, é verdade, mas se decepciona também.

Está aí uma das principais críticas do casal McGrath a Deus, um delírio. Como pode um cientista, defensor ferrenho da razão e das evidências científicas, oferecer um livro tão pobre nesse quesito? E eles têm razão. Não que se espere que Richard Dawkins apresente evidências científicas de inexistência de Deus. Elas simplesmente não estão disponíveis. Mas seria de se esperar, sim, maior apuro no trato do assunto (e dados e referências citadas).

É o grande problema com esse tipo de livro. Fica no meio do caminho, como apontou H. Allen Orr, em sua resenha de outro livro de Dennett (Darwin’s dangerous idea), na Boston Review de 1996. Embora, a favor de Dennett, o fato de este ficar mais pro lado bom do que do ruim. Mais pro lado de uma argumentação bem fundamentada, com menos concessões do que Dawkins. Até porque, convenhamos, ao contrário de Daniel Dennett, que é filósofo por formação, mas que tem intimidade com as ciências naturais por causa de sua área de especialização na Filosofia (Neurociências), Dawkins já não é cientista há muito tempo.

Falhas
Não é uma tarefa difícil apontar falhas em Deus, um delírio. Mas pra poder fazer isso com maior propriedade, é preciso ser… ateu. Ou, pelo menos, agnóstico. Ou ainda, um religioso hesitante. Ou os três. Como assim? É possível ser os três? Claro. Nenhum de nós é uma estátua de sal. Mudamos. Vamos e voltamos, num movimento por vezes ondulante, por vezes elíptico, por vezes ziguezagueante. E está aí o maior erro de Dawkins. Considerar a humanidade como formado por monoblocos imutáveis.

O próprio Alister McGrath é um exemplo. Foi ateu. Converteu-se em cristão. Era cientista. Virou teólogo (da mesma universidade de Dawkins, Oxford). O que é uma pena. Em vários momentos McGrath apenas roça de levinho uma potencial falha de Dawkins, limitado por sua posição no tabuleiro. Mantém-se superficial, portanto mais falho ainda do que quem critica.

Isso fica evidente no ataque de Dawkins à religião (não a Deus, mas à religião mesmo), e na respectiva defesa dos McGrath. Praticamente todas as características nocivas atribuídas à religião por Dawkins, cabem ao esporte como competição e entretenimento. Troque a palavra “religião” por “futebol” sempre que ela aparecer, e terá um quadro absolutamente inalterado. Tudo o que se diz de um, vale pro outro. Gera fanáticos? Incita à violência? Explora ingênuos que acreditam em seu sistema? É capaz tanto de unir quanto de segregar grupos? Hipnotiza as massas, desviando sua atenção de problemas mais importantes? Explora dinheiro desavergonhadamente? Goza de privilégios políticos? Peraí, de que estamos falando? De futebol, ou de religião? Pois é.

Mas é claro que os McGrath não poderiam explorar esse flanco aberto de Dawkins. Seria rebaixar a religião ao nível de algo impuro. Religião é religião. É “sagrada”.

Mas há críticas pertinentes. Que Dawkins toma os extremos como se fossem representativos, por exemplo. Têm razão os McGrath. Embora lembre ao leitor que a corrente predominante nos Estados Unidos, capaz de eleger presidentes, inclusive, é a dos WASPs (White anglo-saxon protestants) conservadores, Dawkins não convence o leitor de que mesmo esses são “cristãos nocivos”. Outro equívoco seria que ateus não são capazes de cometer atrocidades. Os McGrath lembram dos crimes de Stálin com suposta motivação anti-religiosa. Mas aí eles podem estar tão errados quanto Dawkins, ao creditar alguns conflitos na conta da religião, quando são na verdade políticos. A religião é só uma desculpa. E os próprios McGrath lembram disso. E fazem a pergunta-nocaute: se o mundo hoje não tivesse mais nenhuma religião, seria de esperar que fosse um mundo melhor? Concordo com eles. A resposta é: não, absolutamente.

Mais tolerantes
A favor de Dawkins, este admite (muito de passagem) que os conflitos religiosos podem ser só desculpa para verdadeiros motivos políticos. Também a favor de Dawkins uma historinha que aconteceu há poucos dias aqui em Goiânia. As organizadoras da exposição sobre Darwin e a Evolução foram “convidadas a se retirar” do apartamento que alugaram, pela proprietária, fiel da Igreja Universal do Reino de Deus, assim que soube, pelos jornais, que elas eram as organizadoras. Nunca ouvi falar de um dono de imóvel ateu que expulsasse, digamos, um pastor famoso de passagem pela cidade para fazer, digamos, palestras sobre a Criação. Ateus tendem a ser mais tolerantes.

Mas, de novo, fanatismo e ignorância não são exclusividade da religião. Já tomei pedrada nas costas, atirada por um torcedor do Vila Nova, só porque estava com uma camisa do Goiás, no Serra Dourada. Não provoquei, nem o jogo havia começado (nem dava pra pôr a culpa no placar). Foi simples assim. Está vestido de verde e não de vermelho? Pode deixar que eu atiro a primeira pedra.

Outra crítica pertinente é a virulência de Dawkins (ateus são mesmo tolerantes?). Tudo bem que seja performance bestsellérica, mas ele exagerou. Eu, que sou o tipo do leitor predisposto a gostar de um livro com conteúdo proposto, sou forçado a concordar com o casal McGrath. Não chego a classificá-lo de “fundamentalista” ou “dogmático”, como eles fizeram (porque, obviamente, tais adjetivos lhe serviam melhor, já que colocavam seu oponente para experimentar do próprio veneno). Eu diria mais que foi… bobo. Uma tática infantil. Dizer que o papa estava fingindo quando disse que estava ok com a teoria da evolução, que esta não trombava com o catolicismo é meio demais (leia trecho do livro).

Também é demais atacar agnósticos (em nome de uma lei de probabilidades frágil), ou xingar de covardes os que seguem o conselho de Pascal, de que é melhor apostar que Ele existe. Dawkins comete um erro grosseiro (infelizmente não explorado satisfatoriamente pelos McGrath) de considerar que os apostadores sempre o fazem conscientemente. Ora, é claro que essa possibilidade é real. Mas não é a única. Pascal, diferentemente da interpretação de Dawkins, teve um insight genial ao colocar em palavras o que é intuitivo nas pessoas, e não por imaginar que cada um faça a “aposta” forçada e fingidamente, imaginando que está “enganando Deus”.

Por último, mas não menos importante, a crítica dos McGrath de que Dawkins não se valeu de evidências científicas para argumentar. Isso é parcialmente verdade. Por um lado, há capítulos em que ele se baseia em material sólido. Há outros em que é bobagem exigir esse tipo de coisa (como mencionei logo no início, o que eles queriam, evidências da não-existência de Deus?). Mas há alguns em que seria de enorme valia que ele tivesse sido mais cuidadoso. O principal deles é quanto à origem naturalista da moral. Há toda uma literatura riquíssima a respeito, a que certamente Dawkins tem acesso, mas que desgraçadamente não utilizou.

Ponderações à parte, são ambos, criticado e criticador, boas peças de leitura. Leves (O delírio de Dawkins é leve até demais), podem ser consumidos em poucas horas, na praia. A não ser que o leitor tenha algum tipo de “fé inabalável”, para um lado ou para outro, e aí pode se sentir ofendido por um ou outro, dependendo da fé. Sim, porque o ateísmo, concordando com os McGrath, não deixa de ser, ele próprio, uma fé.

Print Friendly
dawkins

Alister McGrath e Joanna McGrath
Trad.: Sueli Saraiva
Mundo Cristão
156 págs.

Deus, um delírio
Richard Dawkins
Trad.: Fernanda Ravagnani
Companhia das Letras
528 págs.