A literatura na poltrona

julho 2015 / A literatura na poltrona / Goethe para internautas

Texto publicado na edição #182

Goethe para internautas

Em um vão de minha biblioteca, em um desses acasos que sempre me guiam, encontro um exemplar dos Escritos sobre […]

> Por JOSÉ CASTELLO

Goethe_182

Em um vão de minha biblioteca, em um desses acasos que sempre me guiam, encontro um exemplar dos Escritos sobre literatura, de J. W. Goethe, que Pedro Süssekind organizou para a editora 7Letras no ano de 1997. Uma seta verde assinala a página 17, onde se inicia o brevíssimo ensaio Aos jovens poetas. Curioso, sigo a pista que deixei, no passado, para mim mesmo. Em seu comentário, Goethe (1749-1832) faz uma breve reflexão que, mais de dois séculos depois, se mostra espantosamente atual. Com ênfase, ele defende a ideia de que sem a força da individualidade não existe criação. Uma tese muito útil em tempos nos quais a força da tecnologia nos empurra não para a diferença, mas para a repetição em série. Nos quais, com frequência, navegamos às cegas, esquecidos de nossa origem.

Defende Goethe, com ênfase, o primado do Um: “Assim como o homem precisa viver de dentro para fora, o artista precisa se expressar de dentro para fora e, comporte-se como quiser, sempre trará à luz apenas a sua individualidade”. Seu pensamento — agora me dou conta — me remete a um outro texto meu. Escrevi, outro dia, a respeito da morte do autor — espécie de grande deserto das diferenças que ameaça, em especial, os prosadores. A poesia tem se conversado, felizmente, como um lugar de resistência a esse movimento. Guiados pelos sopros de Goethe, nossos grandes poetas do século 21 continuam aferrados, antes de tudo, ao que são, desprezando qualquer influência do que “deveriam ser”. Apostam na força do Um e de seu destino inegociável.

Ater-se a si é, muitas vezes, visto como um lugar-comum, e outras, como uma intenção sem qualquer significado. O próprio Goethe, porém, se apressa, algumas linhas adiante, a esclarecer o que entende por isso. “Apenas é preciso que cada um conheça a si mesmo, que saiba julgar a si mesmo, porque aqui não há nenhum parâmetro alheio que possa ajudar”. Falência dos doutores: no domínio da criação, eles simplesmente não têm o que dizer. Falência dos cânones que, diante disso, já não servem para nada. Vozes alheias, adverte Goethe, podem se tornar, em vez de uma ajuda, um forte entrave. É bem mais seguro ouvir apenas a si mesmo. E bem mais rico também. É o único caminho.

O poeta (o escritor) deve se limitar a ouvir a própria voz, ou pelo menos lutar para ouvi-la — porque conseguir isso é bem outra coisa, e talvez seja para poucos. Não é um projeto fácil, embora alguns o tomem por simplório. É, eu penso, o projeto mais difícil de todos. Não trair a si mesmo: existe decisão mais arriscada? Somos, frequentemente, nossos piores inimigos. Dispersamo-nos para cá e para lá. Vivemos atordoados pelos mandamentos alheios, pelas modas literárias, pelas ondas teóricas. Nesse caminho para fora de si não se escreve nada que mereça ser lido. Assim se chega, apenas, ao arremedo e à repetição. À cópia. Os escritores se tornam meros copiadores.

Mas, diz Goethe, onde encontrar a si mesmo, senão na própria vida? Continua: “O jovem poeta deve expressar agora o que está vivo, o que está em ação, numa forma ou noutra. Ele deve eliminar com rigor todo espírito adverso, todo antagonismo, tudo o que fala contra”. Deve, portanto, e antes de tudo, apostar em si mesmo, por mais estranhas que sejam as coisas que encontre em seu interior. A vida deveria bastar como ponto de partida. Nada de buscar soluções impertinentes, ou caminhos que não sejam próprios. Insiste Goethe que o poeta deve fugir de “tudo o que possa ser negativo: pois disso não se produz nada”. Faz a defesa da afirmação de si. O poeta deve aprender a dizer “sim” para si mesmo, por mais duras que sejam as consequências que isso lhe traga.

Em vez de negar a si em nome de um saber, de uma estética, de uma tendência de mercado, de algum prestígio ou aprovação, o escritor deve afirmar sua individualidade e sua visada pessoal. Deve erguer sua escrita contra tudo e contra todos — ou seja, praticá-la a favor de si mesmo. Insiste Goethe que a substância poética é a substância da própria vida e, por isso, o escritor não deve procurar a si mesmo senão ali onde ele já está. “Ninguém pode dá-la para nós; talvez possam obscurecê-la, mas não estragá-la”. Cair em si mesmo é o único caminho para uma escrita livre. Se é boa? Se é ruim? Se está adequada? Se é inconveniente? Tudo isso se vê depois. Nada disso, na verdade, interessa. A literatura, em definitivo, não é uma passarela.

Se há alguma norma em jogo, é o escritor quem deve construir essa norma. Sua própria norma, seu próprio caminho. Diz Goethe: “Vocês ainda não têm propriamente nenhuma norma, e devem dá-la a si mesmos”. Como conseguir isso? Mais uma vez, ele nos responde sem volteios: “Perguntem-se a cada poema se ele contém uma vivência, e se tal vivência os fez progredir”. Tanto a pergunta, como a resposta devem vir do próprio escritor. Caminho que radicaliza sua irremediável solidão. Mas é dela, dessa solidão absoluta, que o escritor conseguirá arrancar o que é seu. Só assim será dono de sua própria escrita. Só assim sua assinatura terá um significado e ele sobreviverá.

NOTA
O texto Goethe para internautas foi publicado originalmente no blog A literatura na poltrona, do caderno Prosa, do jornal O Globo.

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