Sob a pele das palavras

julho 2018 / Sob a pele das palavras / Gente miúda, de Sérgio Vaz

Texto publicado na edição #219

Gente miúda, de Sérgio Vaz

Nos versos de "Gente miúda" ganha o protagonismo trágico um sujeito chamado Daniel

> Por WILBERTH SALGUEIRO

Daniel não tinha documentos,
RG, certidão ou carteira profissional.
Não tinha sobrenome,
não tinha número, nem cidade natal.
Quase um bicho, dormia na rua sobre as notícias
e acordava na sarjeta, na calçada ou no lixo.
Os dentes, em intervalos,
mastigavam as migalhas do mundo,
as sobras do planeta.
Era soldado
das tropas dos famintos.
Os trapos — fardas dos miseráveis —
cobriam-lhe apenas o peito, a bunda e o pinto.
Sangrava de dia
o açoite do abandono.
Amigos? Só os cães,
que o protegiam dos seres humanos.
Morreu
velho e abatido
depois de viver, todos os dias,
durante trinta e sete anos,
como se nunca tivesse existido.

Sérgio Vaz, desde o início de Colecionador de pedras (2013), já se autodefine como um “artista cidadão, um artista a serviço da comunidade, do país”. Por isso, talvez, ao longo dos 124 poemas do livro, haja tantos dedicados a pensar (homenageando) figuras em geral anônimas, desfavorecidas econômica, social e culturalmente, como Pedro, Jamilton, Max, Rosa, Sebastião, Souza, Jorginho, Madalena, Bruno, Lourdes, Renilda, Rosenda, Patrícia, entre outros e outras. (Há, ainda, poemas que recuperam as figuras conhecidas de João Cândido, o almirante negro, e de Sabotage, músico precocemente morto.) Os versos de Gente miúda se inserem nessa série, ganhando o protagonismo trágico um sujeito chamado Daniel.

O poema se faz no fluxo de uma estrofe única com 22 versos, polimétricos, e livres de um esquema rímico regular. No entanto, sem ortodoxia, o poema lança mão de rimas consoantes e toantes que — com o fato a mais de querer contar uma história de vida — lhe dão certa cadência narrativa. Afora as rimas internas, ao fim de certos versos se destacam rimas como “profissional/ natal” (versos 2 e 4), “notícias/ lixo” (v. 5 e 6), “intervalos/ soldado/ miseráveis” (v. 7, 10 e 12), “famintos/ pinto/ dia” (v. 11, 13 e 14) etc. Em síntese, o que o poema conta é a triste trajetória de um homem, miserável, invisível, morador de rua, sem identificação alguma, que, lutando pela sobrevivência, com “as sobras do planeta” e “o açoite do abandono”, humilhado e ofendido, morre prematuramente, “velho e abatido”, com apenas 37 anos de idade. Não parece casual, no poema, que os versos mais longos (5 e 6), com 14 sílabas cada, descrevam o ato — horizontal — de Daniel dormir na rua: “Quase um bicho, dormia na rua sobre as notícias/ e acordava na sarjeta, na calçada ou no lixo”; em oposição, o verso 18, o mais curto (com duas sílabas) e vertical, resume, sem enfeite, o destino cruel do “soldado” Daniel, maltrapilho e solitário: “morreu”.

Se este Daniel existiu, de fato, com este nome, talvez nem seja o mais importante — no sentido de que, como este mesmo Daniel, existe uma incomensurável legião deles em nossas ruas, bairros e cidades, habitando sarjetas, calçadas e lixões, becos, praças e marquises. À vista de todos, só são vistos, no entanto, quando de invisíveis e inofensivos (peças fora do sistema produtivo) se tornam ameaça à propriedade, à paz social do entorno, à ordem burguesa, ao mercado. A motivação deste e de outros poemas o próprio Sérgio Vaz declara em entrevista: “Eu quero fazer um livro só com essas histórias, contar essas histórias de uma forma poética. O que eu fiz? Eu peguei todas as biografias e transformei em poema. Então, por exemplo, Gente miúda”.

Gente miúda tem evidente parentesco (como apontaram artigo de Armando Gens, dissertação de Lara Barreto e tese de Márcio Vidal) com o clássico O bicho (1947), de Manuel Bandeira, considerando parte da cena do poema de Vaz, que inclui um homem em meio ao lixo, feito um animal. A despeito do tom coloquial e da aparente bandeiriana simplicidade (coerentes com o projeto de arte popular e de resistência de S. Vaz), o poema tem algumas outras tramas que, numa leitura apressada, podem não ser notadas. O verso 4, por exemplo, arremata a sequência de negativas (sem documentos, sem identidade, sem sobrenome) com a expressão “nem cidade natal”, antecipando o ciclo de sua breve inexistência, no sentido de nosso dramático personagem não ter ciência nem mesmo de seu nascimento. O verso 8 — “mastigavam as migalhas do mundo” — encena sonoramente o movimento que os poucos dentes (“em intervalos”) de Daniel realizam, com a incidência tripla do fonema /m/, bilabial e oclusivo. Logo abaixo (v. 11 e 12), as palavras “tropas” e “trapos” se aproximam pela aliteração de base anagramática e, por extensão, pela semelhança semântica. Por fim, impactam os adjetivos atribuídos a Daniel quando de sua morte, “velho e abatido”, pois de imediato somos informados de sua jovem idade (37 anos), assim como quedamos com o gosto amargo do ambivalente “abatido”, que remete a “cansado” mas também a “assassinado”, como se matam cotidianamente animais e seres humanos, como se matam cães e gente miúda.

Na apresentação do livro, Ferréz diz que Vaz quer “guerrear pelas palavras (…) numa terra devastada pela canalhice”. A apropriação da imagem eliotiana (The waste land) não se dá à toa: ambos os autores brasileiros sabem a dificuldade que é cultivar arte em terrenos pedregosos. Daí, a coletânea se intitular Colecionador de pedras, nome de um dos poemas, que fala da vida dura — e pedregosa — de Pedro que, recebido “pelo destino/ com quatro pedras na mão”, tinha na pobreza “a pedra de seu sapato”, até se tornar um “pedregulho/ no rim do sistema”. Nesse contexto, o primeiro poema do livro, de apenas dois contundentes versos redondilhos, funciona como uma verdadeira profissão de fé: “As pedras não falam,/ mas quebram vidraças”. Depois da pedra literal e metafísica de Drummond, no meio do caminho dos poetas, e da pedra política e crítica de Cabral, a nos educar em novo tipo de polimento, temos agora a pedra-poema de Sérgio Vaz, demolidora, direta e rascante, cidadã e solidária com este Daniel e com todo Daniel que tem a vida danada, abandonada, danificada, amiudada, abatida.

No aforismo 145, Figura artística, de Minima moralia, Adorno elabora uma de suas mais aporéticas reflexões sobre a arte, quando diz: “A contradição entre o que é feito e o existente é o elemento vital da arte e encerra a lei do seu desenvolvimento, mas é também a sua miséria: ao seguir, embora de forma mediada, o esquema preexistente da produção material e ao ‘fazer’ os seus objetos, não pode iludir, como a ela semelhante, a questão do para quê, cuja negação é justamente o seu fito”. Noutras palavras, a transformação das “tragédias da vida” em “obras de arte” não altera em nada a existência das tragédias, embora estas sirvam de elemento para a composição da forma estética, cuja existência, por sua vez, para Adorno, deve servir para esclarecer os homens e levá-los a lutar para o fim mesmo daquelas tragédias. Poemas como este, parece, sobrevivem nessa tensa dialética entre silenciar ou dar forma a dramas que eles, poemas, jamais resolverão. Um verso que diz que alguém viveu e morreu “como se nunca tivesse existido” é um verso que não deveria — com o conteúdo de verdade que traduz — nunca existir. Mas existe, e todos entendemos, enquanto sentimos, o seu sentido (talvez por conta do medo de sermos, ou nos tornarmos, mais um Daniel qualquer).

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