Sob a pele das palavras

maio 2019 / Sob a pele das palavras / Gargalhada, de Cecília Meireles

Texto publicado na edição #229

Gargalhada, de Cecília Meireles

Um poema que escapa (e bastante) à imagem dócil e etérea que insistem em colar à poeta

> Por WILBERTH SALGUEIRO

Homem vulgar! Homem de coração mesquinho!
Eu te quero ensinar a arte sublime de rir.
Dobra essa orelha grosseira, e escuta
o ritmo e o som da minha gargalhada: 

Ah! Ah! Ah! Ah!
Ah! Ah! Ah! Ah! 

Não vês?
É preciso jogar por escadas de mármore baixelas de ouro.
Rebentar colares, partir espelhos, quebrar cristais,
vergar a lâmina das espadas e despedaçar estátuas,
destruir as lâmpadas, abater cúpulas,
e atirar para longe os pandeiros e as liras… 

O riso magnífico é um trecho dessa música desvairada. 

Mas é preciso ter baixelas de ouro,
compreendes?
— e colares, e espelhos, e espadas e estátuas.
E as lâmpadas, Deus do céu!
E os pandeiros ágeis e as liras sonoras e trêmulas… 

Escuta bem: 

Ah! Ah! Ah! Ah!
Ah! Ah! Ah! Ah! 

Só de três lugares nasceu até hoje esta música heroica:
do céu que venta,
do mar que dança,
e de mim.

Este não parece um poema de Cecília Meireles, mas está lá, em Viagem, de 1939. Os leitores habituais de Cecília decerto o conhecem, mas os eventuais, possivelmente, não. Porque este poema escapa e bastante à imagem dócil e etérea que insistem em colar à poeta, transformando praticamente toda sua poética em exemplo de “escrita de mulher” — exemplo que as gerações subsequentes, de Ana Cristina Cesar às poetas contemporâneas, recusam. Se, em nossa lírica, Drummond é o cara (como diz Armando Freitas Filho), Cecília é a face que vai, para o bem e para o mal, representar certo paradigma inaugural para a poesia feita por mulher no Brasil (embora, antes, nomes como os de Gilka Machado e Francisca Júlia já tivessem se inscrito em nossa historiografia).

Paradigma que, já em 1942, encontra eco em palavras de Menotti del Picchia, comentando o livro Vaga música, do mesmo ano: “Cecília levita como um puro espírito, nos seus transes de inspiração, na linha demarcadora que limita o consciente objetivo e o sensitivo subconsciente lírico, místico e imaterial”. Nelly Novaes Coelho, em 1961, sobre os poemas de Cecília vai dizer que se “expressam pela obsessiva sondagem do tempo, da morte, da fugacidade da vida, da eternidade almejada e da possível tarefa do poeta como nomeador ou arauto das realidades vislumbradas”. Leodegário Azevedo, em Poesia e estilo de Cecília Meireles, de 1970, com o expressivo subtítulo “a pastora de nuvens”, afirma: “Inspirada em motivos do eterno, e não do que é mundano, herança apuradíssima do Simbolismo na moderna poesia brasileira, sua mensagem poética é sempre de cunho transcendente”. Livro formador de opinião nas graduações de Letras, o manual História concisa da literatura brasileira, de Alfredo Bosi, cuja primeira edição é de 1970, ratifica que sua obra “parte de um certo distanciamento do real imediato e norteia os processos imagéticos para a sombra, o indefinido, quando não para o sentimento da ausência e do nada”, sempre buscando o “tom fundamental de fuga e de sonho que acompanha toda a sua lírica”. Verifica-se, todavia, nos estudos de pós-graduação nas últimas décadas, o surgimento de perspectivas inovadoras sobre a obra de Cecília, que buscam não o mimetizar discursos estabelecidos, mas o descortinar clareiras onde o pensamento (na contramão do senso comum) possa se assentar.

Gargalhada, o poema, parece rir dessa trajetória que impuseram à poeta. Numa de suas aulas de literatura, Cortázar diz que no humor “a intenção é quase sempre dessacralizar, lançar por terra certa importância que algo pode ter, certo prestígio, certo pedestal”. O poema se dirige ao homem vulgar, mesquinho, grosseiro, que não sabe rir nem se libertar de amarras. Como não ver nesse poema publicado em 1939 ecos de uma atitude iconoclasticamente modernista, como na Poética de Bandeira (“O lirismo dos clowns de Shakespeare”) ou no Epitáfio de Oswald (“Minha caveira rirá ah ah ah”) ou ainda em Ódio ao burguês de Mário (“Ódio aos temperamentos regulares!”)? Esse gesto de “derrubar as prateleiras, as estantes, as estátuas”, que chegou radical ao tropicalismo, ganha sua versão na lira ceciliana, jamais lida sob a luz de uma força nietzscheana. Por que não? Rir, para Zaratustra, é uma “arte sublime”. Mas vale a advertência de Gargalhada: para “jogar por escadas de mármore baixelas de ouro” é preciso ter as tais baixelas de ouro… Essa música desvairada e heroica, de que o riso magnífico é parte, para o senhor de si encontra correspondência apenas nas forças da natureza, no “céu que venta” e no “mar que dança”, e nesse “mim”/eu que conduz e arremata o poema, sem pudor algum nem puritana modéstia. Rui, com este e outros poemas, a capa de mística seriedade e pueril beletrismo, de inefável espiritualidade e transcendência espiritual com que querem, tantas vezes, cercar, congelar e dogmatizar a obra da autora do magnífico Romanceiro da Inconfidência. É nela mesma, na obra, que estão os segredos para desfazer os nós que amarram e amargam o riso.

Em artigo sobre Viagem de Cecília, Ana Maria de Oliveira diz que Gargalhada é “um poema distante da imagem da poetisa alienada, espiritualizada, sutil, pouco ousada formalmente. Aqui se trata não do sutil sorriso, mas da explícita gargalhada, inclusive com transcrições onomatopaicas do som dessa gargalhada”. Com oito estrofes de um, dois, quatro, cinco e seis versos, e 25 versos que variam de duas a dezoito sílabas, o poema incorpora já visualmente toda uma transgressão formal, como a indicar o gesto de não querer se prender a estruturas regulares e, no caso de Cecília, tida como hábil verse-maker, esperadas. Cecília surpreende: onde queres o decassílabo, livre. O poema não deixa dúvida: rebentar, partir, quebrar, vergar, despedaçar, destruir, abater e atirar são verbos contundentes, duros, que fazem jus à música desvairada, à revolucionária lira que se quer. E Cecília quer, com Gargalhada, partir o “espelho”, partir o “Retrato” com que querem fixar dela uma imagem solidificada, estereotipada (stereos, do grego, significa “sólido”).

Theodor Adorno, em Teoria estética, diz que “nenhuma obra de arte pode ter êxito a não ser que o sujeito a encha de si mesmo”. Desde o segundo verso, categórico, “Eu te quero ensinar a arte sublime de rir.”, até o último, “e de mim”, há um sujeito pleno, vital, ativo, afirmador, potente, dionisíaco, que tem em mira (para usar termo nietzscheano) a transvaloração de si. A gargalhada ecoa em nossos ouvidos, e para escutá-la bem o homem vulgar e mesquinho temos de limpar as orelhas grosseiras, para então entender o céu que venta, o mar que dança, a (l)ira de Cecília que Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah!.

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