Dom Casmurro

agosto 2015 / Dom Casmurro / Gabriel Lautrec

Texto publicado na edição #183

Gabriel Lautrec

Cinco poemas inéditos de Gabriel Lautrec

> Por RASCUNHO

Ilustração: Bruno Schier

Ilustração: Bruno Schier

 

TRADUÇÃO:
Ana Maria Rezende
Eclair Antonio Almeida Filho
Josina Nunes Magalhães Roncisvalle
Lanna Kévely
Odúlia Capelo Barroso

Gabriel de Lautrec (1867-1938), poeta decadentista, cronista e tradutor francês de uma coletânea de contos de Charles Dickens — e primo do famoso pintor Toulouse de Lautrec — publicou, essencialmente, livros de poemas em prosa: Poèmes en prose (1898), Les Roses noires (1906), Le Serpent de mer (1922), La Vengeance du portrait ovale e Souvenirs des jours sans souci (1938). Os poemas aqui traduzidos, pela primeira vez em português, integram Poèmes en prose, e serão publicados no Brasil pela Edições Nephelibata no segundo semestre deste ano. O mundo de Lautrec é noturno, lunar, povoado e assombrado por visões, almas, figuras míticas de tempos passados. O tom de seus poemas é declamatório, caudaloso, para que os leiamos em voz alta, com ritmo, cadência, música.

Orgulho triste
Para aquela das bordas do mar.

Quando te encontrei, fora deveras na mesma noite em que eu devia encenar o divino papel de Hamlet; eu já trazia a máscara do impossível sobre a face, e a chama das paixões imaginárias nos olhos; e não tive eu naquela noite, ao que parece, o desfrute de te amar, pois se celebrava em minha alma uma sublime cerimônia, com ouros e casulas, e tu bem sabes que, nas festas do Intelecto, os sorrisos da mulher não são bem-vindos como candelabros.

Ora, fora naquela noite, entretanto, uma noite de sorrisos fatigados e de lábios pálidos, que eu te murmurei o que vós teríeis tido tanta relutância, Senhora Minha, em não tomar como a mais delicada das confissões.

Mui impertinente, beijei vossa luva, e fiz o cumprimento necessário para com a flor retirada de minha coroa, e que pusestes em vossos cabelos.

— E, em verdade, vós me parecestes tão encantadora e tão rara, naquela noite, que nas músicas da orquestra, acreditei reconhecer a voz de Ofélia e vos disse eu o quanto a amava.

Vós também me amastes, desde então; mas de amar a arte ou o artista, muitos já morreram; cuidai-vos, e quase todos os outros estão loucos. Escutai; eis que passam aqueles que nunca devemos amar;

— Nossos amores mudaram de país e de luar; somos os adoráveis adolescentes das músicas litúrgicas e os servos da Eterna volúpia; mas nossas vozes morrem em nossos lábios antes que tenhamos desaparecido, e passamos através das coisas reais, como, através das ruas pitorescas dos vilarejos, soando o passeio noturno, uma trupe de comediantes e de apaixonadas que o velho rei da Boêmia envia, para seus júbilos, ao seu primo, o rei de Thulé.

 

Orgueil triste
Pour celle des bords de la mer.

Lorsque je te rencontrai, ce fut sans doute le soir même où je devais jouer le divin rôle d’Hamlet; j’avais déjà le fard de l’impossible sur le visage, e la flamme des passions imaginaires dans les yeux; et je n’eus pas ce soir là, semble-t-il, le loisir de t’aimer, car il se célébrait dans mon âme une auguste cérémonie, avec des ors et des chasubles, et tu sais bien qu’aux fêtes de l’Intellectuel, les sourires de la femme ne sont pas admis comme flambeaux.

Or, ce fut ce soir là, pourtant, un soir de sourires fatigués et des lèvres pâles que je te murmurai ce que vous auriez eu mauvaise grâce, Madame, à ne pas prendre pour le plus délicat des aveux.

Très impertinent, je baisai votre gant, et je fis le compliment qu’il fallait sur la fleur détachée de ma gerbe, et que vous aviez mise en vos cheveux. — Et vraiment, vous me parûtes si charmeuse et si rare, ce soir là, que dans les musiques de l’orchestre, j’ai cru reconnaître la voix d’Ophélie, et que je vous ai combien je l’aimais.

Vous m’avez aimé, dès lors, vous aussi ; mais d’aimer l’art ou l’artiste, beaucoup sont morts déjà, prenez garde, et presque tous les autres sont fois. Écoutez, voici que passent ceux que l’on ne doit jamais aimer :

— Nos amours ont changé de pays et de lune ; nous sommes les adolescents adorables des musiques liturgiques, et les servants de l’Éternelle volupté ; mais nos voix meurent sur nos lèvres avant que nous ayons disparu, et nous passons à travers les choses réelles, comme, à travers les rues pittoresques des petites villes, faisant sonner le pavé nocturne, une troupe de comédiens et d’amoureuses que le vieux roi de Bohème envoie, pour ses joies, à son cousin de Thulé.

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A urna
Do tempo em que eu era somente uma argila informe, na colina, sob os riachos, a mão do oleiro retirou-me de minha noite de érebo para fazer-me contemplar a luz dourada do sol — agora, sou uma urna de flancos trigueiros e luzidios, e todos podem confiar-me as olivas, o óleo, a púrpura, o perfume, e a cinza divina dos mortos.

L’urne
Du temps que je n’étais qu’une argile informe, dans la colline, sous les ruisseaux, la main du potier me tira de ma nuit d’érèbe pour me faire contempler la lumière dorée du soleil maintenant, je suis une urne aux flancs bruns et luisants, et l’on peut me confier les olives, l’huile, la pourpre, les parfums, et la cendre divine des morts.

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Ilustração: Bruno Schier

Ilustração: Bruno Schier

Prece
Tu estás na soleira do templo e ninguém pode aproximar-se de ti. És tu que recolhes as nuvens e crias o mágico horizonte sempre novel.

Ó quimera, primaz dos deuses!

Para tornar-te soberanamente boa, na eterna e vã oferenda, eis que recusamos o incenso e as urnas a outros altares.

Sacrificar-te-emos de bel grado, ó quimera, as coisas que são a vida. — Dar-te-emos nossa juventude e tudo o que sofre por amar.

E mais, a criança o-próprio-amor, com sua leve boca de sombra e seus membros suplicantes.

Ó quimera, primaz dos deuses!

Prière
Tu te tiens sur le seuil du temple et nul ne peut t’approcher. C’est toi qui rassembles les nuages et qui crées le magique horizon toujours nouveau.

O Chimère, le premier des dieux !

Pour te rendre bonne souverainement, en l’offrande éternelle et vaine, voici que nous refusons l’encens et les urnes à d’autres autels.

Nous te sacrifierons volontiers, ô chimère, les choses qui sont la vie. — Nous Le donnerons notre jeunesse et tout ce qui souffre d’aimer.

Puis l’enfant amour lui-même, avec sa légère bouche d’ombre et ses membres suppliants.

O Chimère, le premier des dieux !

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Hertúlio
O poeta veio d’uma rua, saudado por aqueles de pé junto às colunas, em passagem, com gesto amistoso. Uns louvaram seu traje, e os outros, seu gênio. Mas o éfebo mais belo apontou a mão do poeta. Nela reluzia um novo anel. “Não é este, disse Syra a cortesã, o prêmio por uma noite de amor?” — Oh! disse uma outra, tu foste o primeiro no concurso de flautas, e os juízes deram-te o anel — mas ele, sorridente, levantou o dedo. Era o círculo de ouro em forma de colar de ferro. Sobre o castão, mui largo, lia-se — Pertenço a Hertúlio, e sou um escravo fugitivo. — Passante, leva-me de volta.

Hertulie
Le poète vint d’une rue, salué par ceux debout auprès des colonnes, au passage, d’un geste amical. Les uns louèrent son vêtement, et les autres, son génie. Mais l’éphèbe le plus beau désigna la main du poète. Une bague neuve y luisait. « N’est-ce pas, dit Syra la courtisane, le prix d’une nuit d’amour ? — Oh É dit une autre, tu fus le premier au concours de flûtes et les juges t’ont donné l’anneau – mais lui, souriant, leva le doigt. C’était un cercle d’or en forme de collier de fer. Sur le chaton, très large, on lisait —J’appartiens à Hertulie et je suis un esclave fugitif. — Passant, ramène-moi.

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Ilustração: Bruno Schier

Ilustração: Bruno Schier

Sonho

Passei meus dias nas alamedas umbrosas d’um vasto passeio plantado de árvores, quando a noite os revérberos jorravam uma luz tranquila.

E por todo o arredor erguiam-se altas casas, de aparência desolada, tais quais aquelas que vemos nos vilarejos da província, onde milhares de vidas escoam-se, ora vulgares e plenas da materialidade da existência, ora tristes, irreais e assombreadas por uma inquieta melancolia.

E sob as grandes arvores através das quais passava o sol, traçando sobre o solo desenhos luminosos e fugidios, via eu avançarem grupos de mulheres, todas a evocar algo sonhado antanho, e que verteram sobre mim olhares estranhos. Elas se admiravam de ver-me assim, imóvel, sem temor com a fuga rápida dos dias e das folhas que turbilhonavam no ar e vinham-se abater aos meus pés.

E ao ver passar essas mulheres, pensamentos bizarros vinham a mim, e visões desvairadas. Mulheres de todos os tempos apareceram-me, a rainha de Sebá, Cleópatra, Sapho e Lilith, a mulher primeva, a mulher do pecado, apareceu-me à janela de um solar antigo repleno da tristeza dos tempos passados.

No entanto, eu não podia refrear o sonho com a pequena florista que eu vira outrora, não sei onde, com olhos azuis e pequenas veias azuis nas têmporas, e cujo riso apertava-me o coração.

Mas quando os tempos chegaram, eis que as aparições desapareceram, e eu ouvi uma música ao longe, que me comoveu profundamente; e acreditei ter ouvido a música de Weber.

E eis que tive eu a sensação confusa de que todas essas coisas se haviam passado há muito, muito tempo, de que muitas caras vidas se haviam extinto e de que não haveria nada mais que silêncio e desolação, lá onde tantos homens haviam vivido.

E, no entanto, anos se escoaram lentamente, a relva cresceu ao meu redor. Não levou tempo para que ela se elevasse mais alto que o tronco das velhas árvores, mais alto que as altas velhas casas de vidro das quais restava ainda o reflexo das festas ao longe, onde outrora eu dançara.

E não fora mais que uma vasta floresta, replena de murmúrios, de voos de insetos e de sol, mas permaneci imóvel sem ousar aventurar-me pelas alamedas umbrosas, e temendo, se o vento agitasse os ramos, sentir desfolhar-se sobre minha cabeça tramas de lembranças.

Rêve
J’ai passé mes jours dans les allées ombreuses d’une vaste promenade plantée d’arbres, où le soir les réverbères versaient une lumière tranquille.

Et tout autour se dressaient de hautes maisons, à l’apparence désolée, pareilles à celles que l’on voit dans les villes de province, où des milliers de vies s’écoulent, tantôt vulgaires et pleines de la matérialité de l’existence, tantôt tristes, irréelles et assombries par une inquiète mélancolie.

Et sous les grands arbres à travers lesquels le soleil passait, traçant sur le sol des dessins lumineux et fuyants, je voyais s’avancer des groupes de femmes, toutes ressemblant à quelque chose de rêvé jadis, et qui jetaient sur moi d’étranges regards. Elles s’étonnaient de me voir ainsi, immobile, sans souci de la fuite rapide des jours et des feuilles qui tourbillonnaient dans l’air et venaient s’abattre à mes pieds.

Et à voir passer ces femmes, de bizarres pensées me venaient et des visions éperdues. Celles de tous les temps m’apparurent, la reine de Scheba, Cléopâtre, Sapho et Lilith, la première femme, celle du péché, n’apparut à la fenêtre d’un manoir antique, plein de la tristesse des temps passés.

Pourtant je ne pouvais m’empêcher de songer à la petite bouquetière que j’avais vue autrefois, je ne sais où, avec des yeux bleus et de petites veines bleues sur les tempes, et dont le rire me mordait au cœur.

Mais quand les temps furent venus, voilà que les apparitions disparurent, et j’entendis une musique lointaine qui me remua profondément, et je crus entendre la musique de Weber.

Et voici que j’eus la sensation confuse que toutes ces choses s’étaient passées depuis longtemps, que beaucoup de chères vies s’étaient éteintes et qu’il n’y aurait plus que le silence et la désolation, là où tant d’hommes avaient vécu.

Et cependant ‘des années s’écoulèrent lentement, l’herbe crut autour de moi. Bientôt elle s’éleva plus haut que le tronc des vieux arbres, plus haut que les hautes vieilles maisons aux vitres desquelles restait encore le reflet des fêtes lointaines où j’avais dansé autrefois.

Et ce ne fut plus qu’une vaste forêt, pleine de murmures, de vols d’insectes et de soleil. Mais je restai immobile, n’osant pas m’aventurer à travers les allées ombreuses, et craignant, si le vent agitait les branches, de sentir s’effeuiller sur ma tête des brassées de souvenirs.

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