Inquérito

maio 2015 / Inquérito / Fugaz como um lampejo

Texto publicado na edição #180

Fugaz como um lampejo

26 perguntas a Milton Hatoum

> Por RASCUNHO

Milton Hatoum. Foto: Antonio Brasiliano.

Milton Hatoum. Foto: Antonio Brasiliano.

Milton Hatoum nasceu em 1952, em Manaus (AM), onde passou a infância e uma parte da juventude. Depois, passou por Brasília, Madri, Barcelona e Paris. Desde 1998, vive em São Paulo. É considerado um dos autores imprescindíveis da literatura brasileira contemporânea. Entre seus livros, destacam-se os romances Dois irmãos, Relato de um certo Oriente e Cinzas do norte. Sua obra já recebeu os mais importantes prêmios literários do país, como o Jabuti e o Portugal Telecom, foi traduzida em doze línguas e publicada em catorze países.

• Quando se deu conta de que queria ser escritor?
Em 1969, quando publiquei um poema no Correio Braziliense. Tinha 17 anos e queria ser poeta, mas só publiquei meu romance 20 anos depois.

• Quais são suas manias e obsessões literárias?
Nenhuma mania. Não mistifico o trabalho literário, mas é difícil escrever sem obsessão, sem compulsão. O diabo ou um perseguidor qualquer quase sempre ronda a trama e a linguagem.

• Que leitura é imprescindível no seu dia-a-dia?
Um romance. Ou um livro de História e poesia. Tenho o hábito quase diário de ler Drummond.

• Se pudesse recomendar um livro à presidente Dilma, qual seria?
A tempestade, de Shakespeare.

• Quais são as circunstâncias ideais para escrever?
Papel, caneta, dicionários de mitos, um pouco de silêncio e tempo.

• Quais são as circunstâncias ideais de leitura?
Silêncio e solidão.

• O que considera um dia de trabalho produtivo?
Dez linhas escritas e cinquenta páginas lidas.

• O que lhe dá mais prazer no processo de escrita?
Reescrever um texto.

• Qual o maior inimigo de um escritor?
Um passado tranquilo e conformado demais, um passado sem aventuras e traumas.

• O que mais lhe incomoda no meio literário?
Não há incômodo. É um meio tão pequeno que praticamente desaparece num país tão grande…

• Um autor em quem se deveria prestar mais atenção.
José Roberto Melhem, autor de um ótimo livro de contos: Uma tarde destas (Imprensa Oficial, SP). Quase nada se publicou sobre esse livro.

• Um livro imprescindível e um descartável.
S. Bernardo, de Graciliano Ramos, é um dos romances imprescindíveis da nossa literatura. Nenhum livro que eu li é totalmente descartável, nem mesmo os que não me agradaram.

• Que defeito é capaz de destruir ou comprometer um livro?
Um livro que não diz nada de verdadeiro é uma farsa. Falo da verdade das relações humanas, dos conflitos de uma existência… Afinal, esse é o grande tema da literatura.

• Que assunto nunca entraria em sua literatura?
Não sei dizer. Acho que qualquer assunto pode participar de uma narrativa. Isso depende de como é imaginada e construída.

• Qual foi o canto mais inusitado de onde tirou inspiração?
Quase tudo que eu escrevo vem da vida e da leitura, dessa dupla experiência, que se confundem. A memória, a imaginação e a linguagem dependem disso.

• Quando a inspiração não vem…
Cedo ou tarde ela aparece. Basta esquecer o passado e esperar o estalo da memória. Só há inspiração no esquecimento. E quando demora muito a aparecer, alguma coisa está errada ou tudo está fora dos eixos e você não encontrou o livro que quer escrever.

• Qual escritor — vivo ou morto — gostaria de convidar para um café?
Não sei. Às vezes tomo um café com o Raduan, mas a gente não conversa sobre literatura.

• O que é um bom leitor?
O que Tchekhov, outro autor imprescindível, chamava de “leitor de qualidade”.

• O que te dá medo?
Basta estar vivo para sentir medo… E basta estar vivo para saber que esse planeta se autodestrói todos os dias e não está tão longe do abismo.

• O que te faz feliz?
As crianças me dão felicidade. As crianças, o amor, a amizade, a arte…

• Qual dúvida ou certeza guia seu trabalho?
Muitas dúvidas, nenhuma certeza. Minha única certeza é a língua materna, a língua portuguesa.

• Qual a sua maior preocupação ao escrever?
Não mentir para mim mesmo.

• A literatura tem alguma obrigação?
Não. Mas a imensa maioria das obras de qualidade tem uma dimensão estética e também ética.

• Qual o limite da ficção?
A própria linguagem. Diante do impasse, o silêncio.

• Se um ET aparecesse na sua frente e pedisse “leve-me ao seu líder”, a quem você o levaria?
Eu diria: não tenho deuses nem líderes, pois todos eles estão envergonhados.

• O que você espera da eternidade?
A única eternidade possível é o instante poético ou amoroso, um instante fugaz como um lampejo.

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