A literatura na poltrona

agosto 2020 / A literatura na poltrona / Freud na poltrona

Texto publicado na edição #244

Freud na poltrona

A psicanálise sofre, desde o início, forte influência da literatura

> Por JOSÉ CASTELLO

Ilustração: Fabiano Vianna

Ilustração: Fabiano Vianna

Em julho de 1930, aos 74 anos de idade, Sigmund Freud recebeu a notícia de que a cidade de Frankfurt lhe concedera o Prêmio Goethe. Ele consagrava sua figura de “grande erudito, escritor e lutador”. Foi a única honraria importante que Freud recebeu em vida, dedicada não aos cientistas, mas aos escritores. Antes dele, Frankfurt premiara o poeta Stefan George, o biógrafo Albert Schweitzer e o filósofo Leopold Ziegler. Depois dele, a cidade homenageou escritores como Hermann Hesse, Thomas Mann e Amós Oz.

A emoção de Freud foi mais forte porque o prêmio leva o nome de um de seus escritores favores, o alemão Johann Wolfgang von Goethe. Um de seus mais importantes biógrafos, Peter Gay, relata que ele recebeu a notícia com grande espanto. Naquele ano, já tinha desistido de seu maior sonho, o Nobel de Medicina. Não podia esperar que a literatura o consagrasse.

O prêmio ficou como um sinal, definitivo, das profundas relações de Freud e da psicanálise com a literatura. Importantes sinais surgem bem antes disso. Já em 1907, no auditório de seu editor, Hugo Heller, ele fez uma célebre palestra sobre a importância do devaneio na criação literária. Publicada no ano seguinte sob o título de Escritores criativos e devaneio, ela é, até hoje, uma das leituras favoritas dos escritores. Ainda antes, em seu livro mais célebre, A interpretação dos sonhos, de 1900, já se evidenciava seu interesse pelas narrativas. Sonhos nada mais são que relatos imaginários.

Freud nunca escondeu que, entre suas leituras de fundo, se destacavam as obras de três grandes escritores: Goethe, Friedrich Schiller e Shakespeare. Entre seus contemporâneos, tinha especial interesse pela obra do austríaco Arthur Schnitzler. Lia com prazer, ainda, as histórias de detetive de Agatha Christie. Joseph Conrad, Rudyard Kipling, Anatole France, Emile Zola e Mark Twain também estavam entre seus preferidos.

A psicanálise sofre, desde o início, forte influência da literatura. A teoria psicanalítica é, em grande parte, a narrativa de casos clínicos que podem ser lidos como fabulosos romances. Uma personagem como Anna O. — na verdade, a líder feminista e escritora Bertha Pappenheim — é hoje muito mais célebre que grande parte dos personagens literários de seu tempo. Ela se tornou famosa não por protagonizar um romance, mas como a figura central dos Estudos sobre a histeria, uma das peças fundamentais da teoria analítica, que Freud escreveu em colaboração com Josef Breuer.

O Pequeno Hans, menino de cinco anos que se recusava a sair de casa com medo de ser mordido por um cavalo, ponto de partida das investigações freudianas a respeito das fobias, é outro personagem cuja vida se assemelha a pura ficção. A partir dele, Freud cunhou a expressão “romance familiar”, isto é, a história imaginária que toda criança inventa a respeito de suas origens. Ele desenvolveu essa ideia em Romance familiar do neurótico, ensaio de 1909.

Todos sabem, ainda, que a mais popular tese da teoria freudiana, o “complexo de Édipo”, é uma apropriação teórica do Édipo Rei, a célebre tragédia de Sófocles. A própria descoberta do inconsciente foi motivada por um sonho que Freud teve na noite de 24 de julho de 1895, que lhe serve de tema para o segundo capítulo de A interpretação dos sonhos. Ele entrou para a história como o Sonho da injeção de Irma e reafirma a ideia de que a via para o inconsciente é, sempre, uma narrativa.

Ernst Lanzer, o célebre Homem dos Ratos, que sofria de uma neurose obsessiva — temia que ratos invadissem o ânus da mulher que amava —, assim como o famoso presidente Schreber — Daniel-Paul Schreber, presidente do Tribunal de Recursos de Dresden, que, a partir de suas Memórias, publicadas em 1903, possibilitou a Freud escrever um célebre estudo sobre a paranoia — se tornaram personagens a que os psicanalistas sempre retornam. A neurose de Schreber foi desencadeada por uma derrota eleitoral. A de Lanzer, pela visão de uma técnica de tortura. O mesmo acontece, ainda, com o famoso Homem dos Lobos — na verdade Sergius Pankejeff —, protagonista de um caso clínico que inspirou a Freud uma longa reflexão sobre a neurose infantil.

Em 1907, Freud publicou Os delírios e os sonhos na Gradiva de Jensen, importante ensaio sobre Gradiva – uma fantasia pompeiana, romance do alemão Wilhelm Jensen, que exerceu, mais tarde, forte influência sobre as teorias do surrealismo. Em 1916, em Os arruinados pelo êxito, fez uma perspicaz reflexão sobre a loucura de Lady MacBeth. Leitor entusiasmado de Shakespeare, Hamlet, Macbeth e Ricardo III estavam entre suas peças preferidas. Um grande escritor, como Fiodor Dostoievski, lhe rendeu um ensaio célebre, Dostoievski e o parricídio, de 1926.

Se a psicanálise sofreu, desde o início, forte influência da literatura, o inverso também é verdadeiro. Basta passar em revista a literatura brasileira do século 20. Toda a reação intimista ao Romance de 30 se baseia, em parte, no legado psicanalítico. Um romance exemplar como A crônica da casa assassinada, que Lúcio Cardoso publicou em 1959, é um exemplo disso. Cardoso era católico, mas, por ser também um homossexual assumido, encarnava em si os conflitos psíquicos que a psicanálise investiga. Mesmo grandes escritores do catolicismo oficial, como Octávio de Faria, Cornélio Pena e Augusto Frederico Schmidt, não escondem a sombra do saber psicanalítico.

Quando, em 1938, um ano antes de morrer, Freud chegou a Londres, em fuga do nazismo, se comoveu, em particular, com a atenção que recebeu de grandes escritores. Virginia Woolf, Stefan Zweig, Arthur Koestler e H. G. Wells estão entre aqueles que foram pessoalmente lhe dar as boas-vindas. Em 1939, quando morreu, suas cinzas foram depositadas em uma urna grega, do século 4 a.C., que ganhara de presente da princesa Marie Bonaparte, sua amiga e discípula. A urna foi roubada e as cinzas desapareceram — sinal, talvez, da persistência do enigma de que nem a psicanálise, nem a literatura podem resolver.

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