Dom Casmurro

agosto 2017 / Dom Casmurro / Franz Wright

Texto publicado na edição #208

Franz Wright

dez poemas de Franz Wright

> Por André Caramuru Aubert

Franz Wright poeta americano

Franz Wright poeta americano

Tradução e seleção: André Caramuru Aubert

Os poemas de Franz Wright (1953-2015), marcados pela melancolia e por uma espiritualidade muito próprias, falam principalmente de tempo/espaço, de perdas e da morte. Filho de James Wright (ver Rascunho #195, de julho/2016), Franz, ao ganhar o Pulitzer de poesia em 2004, estabeleceu o único caso, até hoje, em que pai e filho receberam o prêmio na mesma categoria (James ganhou em 1972).

Year one

I was still standing
on a northern corner.

Moonlit winter clouds the color of desperation of wolves.

Proof
of Your existence? There is nothing
but.
Ano um

Eu ainda estava parado
num canto ao norte.

Nuvens iluminadas pela lua de inverno da cor da desesperança dos lobos.

Prova
de Sua existência? Nada além
disso.

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How you will know me

For days
like this, sepia
shades
a good coat

impermeable to the cold of this world, of a capaciousness to house that which can only be named one’s absolute and indivisible (unbeholdable in its minuteness and hugeness) nonentity, before it is at last unveiled.

In my forty-eight year, on the thirteenth day of the second month, as I was wandering among the exiles along the river Charles under general anesthesia, a small gray cross smudged on my forehead, the heavens were opened, like a book, like an apple cut in half, and I saw I don’t remember what

Blizzard permitting
her ship should appear
about four in the morning
like a poet’s
lonely fame.
De como serei conhecido

Para dias
como este, de tons
de sépia
um bom casaco

impermeável ao frio deste mundo, capaz de abrigar o que só pode ser nomeado como absoluto e indivisível (inacessível em grandeza e minúcia) na sua não-existência, antes de ser por fim revelado.

No meu quadragésimo oitavo ano, no décimo terceiro dia do segundo mês, enquanto vagava entre os desterrados ao longo do rio Charles sob anestesia geral, uma pequena cruz cinzenta manchada em minha testa, os céus se abriram, como um livro, como uma maçã cortada ao meio, e vi algo de que não me lembro

Se a nevasca deixar
o navio dela vai aparecer
lá pelas quatro da manhã
igual à fama solitária
do poeta.

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Homage

There are a few things I will miss,
a girl with no shirt on
lighting a cigarette

and brushing her hair in the mirror;
the sound of a mailbox
opening, somewhere,

and closing at two in the morning
of the first snow,
and the words for them.
Deferência

Há algumas poucas coisas de que sentirei falta,
uma garota sem camisa
acendendo um cigarro

e escovando o cabelo no espelho;
o som da caixa de correio
abrindo em algum lugar,

e fechando às duas da manhã
da primeira nevasca,
e das palavras para elas.

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Based on a prayer of Rabi’a al-Adawiyya

God, if I speak my love to you in fear of hell, incinerate me in it;
if I speak my love to you in hope of heaven, close it in my face.
But if I speak to you simply because you exist, cease
withholding from me your
neverending beauty.
Baseado em uma prece de Rabi’a al-Adawiyya

Deus, se pronuncio meu amor por você por medo do inferno, incinere-me nele;
se pronuncio meu amor por ansiar pelo paraíso, feche-o em minha face.
Mas se com você eu falo apenas porque você existe, pare
de esconder de mim sua
infinita beleza.

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Sitting up late with my father, 1977

White fire of winter stars —
what he’s thinking at fifty
I finally know.

He thinks, so the blizzards will come
and I will be healed;
we’ll talk

when you grow up
and I am dead.

White distant emerald fire of winter stars.
Sentado até tarde com meu pai, 1977

Fogo branco das estrelas de inverno —
no que ele está pensando aos cinquenta anos
até que enfim descobri.

Ele pensa, e então chegarão as nevascas
e serei curado;
conversamos

quando você crescer
e eu estiver morto.

Branco e distante fogo esmeralda das estrelas de inverno.

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Beginning again

“If I could stop talking, completely
cease talking for a year, I might begin
to get well,” he muttered.
Off alone again performing
brain surgery on himself
in a small badly lit
room with no mirror. A room
whose floor, ceiling and walls
are all mirrors, what a mess
oh my God —

And still
it stands,
the question
not how to begin
again, but rather

Why?

So we sit there
together
the mountain
and me, Li Po
said, until only the mountain
remains.
Recomeçando

“Se pudesse parar de falar, parasse
completamente de falar por um ano, talvez
eu começasse a melhorar,” ele resmungou.
Longe, sozinho e novamente praticando
em si mesmo uma cirurgia cerebral
num pequeno e mal iluminado
quarto sem espelho. Um quarto
no qual piso, teto e paredes é que
são espelhos, que confusão
oh meu Deus —

E ainda
fica
a questão
não de como uma vez mais
recomeçar, mas

Por quê?

Então nós nos
sentamos juntos
a montanha
e eu, disse Li Po
até que somente a montanha
permaneça.

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Four in the morning

Wind from the stars.
The world is uneasily happy —
everything will be forgotten.

The bird I’ve never seen
sang its brainless head off;
same voice, same hour, until

I woke and closed my eyes.
There it stood again:
wood’s edge, and depression’s

deepening
shade inviting me in
saying

No one is here.

No one was there
to be ashamed of me.
Quatro da manhã

Vento das estrelas.
O mundo está estranhamente feliz —
tudo será esquecido.

O passarinho que jamais vi
canta de estourar os miolos;
a mesma voz, a mesma hora, até que

eu me levante com os olhos fechados.
Lá estão, de novo:
a beira da floresta, e a depressão

se aprofundando
a sombra me chamando pra dentro
dizendo

Não tem ninguém aqui.

Não havia ninguém ali
que se envergonhasse de mim.

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Joseph come back as the dusk

The house is cold. It’s raining,
getting dark. That’s Joseph

for you: it’s that time
of the day again.

We had been drinking, oddly enough.
He left.

I thought, a walk —
It’s lovely to walk.

His book and glasses on the kitchen table.
Joseph retorna como o crepúsculo

A casa está fria. Chove e está
escurecendo. É o Joseph

para você: é, de novo,
aquela hora do dia.

Estivemos bebendo, é curioso.
E ele saiu.

Pensei, uma caminhada —
é tão gostoso caminhar.

O livro e os óculos dele sobre a mesa da cozinha

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First light

It’s raining
in a dead language.

The empty house filled with the sound

of your name
abruptly whispered,

once,

before you finally slept.
Primeira luz

Está chovendo
em uma língua morta.

A casa vazia preenchida pelo som

de seu nome
abruptamente sussurrado,

uma vez,

antes que você finalmente durma.

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E. D. in coma

In her mind, in bare feet
she is walking among

April’s first
cold
pubic violets, still

here, heaven-haunted
her eyes

and lips
closed:
Soon

so soon I’ll be a part
of all that I
now merely
see
E. D. em coma

Em sua mente, descalça
ela caminha entre

as frias
violetas púbicas
de primeiro de abril, ainda

aqui, os céus assombrando
seus olhos

e lábios
cerrados:
Cedo

muito cedo farei parte
de tudo isso que
agora eu meramente
vejo

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