Dom Casmurro

abril 2019 / Dom Casmurro / Frank Bidart

Texto publicado na edição #228

Frank Bidart

Oito poemas de Frank Bidart

> Por André Caramuru Aubert

Frank Bidart, New York City, April 2017; photograph by Nancy Crampton

Tradução e seleção: André Caramuru Aubert
A poesia de Frank Bidart (1939) pode transitar entre a cultura clássica e o pop, ora é intimista e confessional, ora o oposto (em um de seus poemas mais conhecidos, o narrador é um assassino psicopata). De um jeito ou de outro, porém, a forma e a sintaxe de seus versos costumam ser desconcertantes. Bidart estreou em livro em 1973 e segue ativo. Levou o Pulitzer e o National Book Award por Half-Light, collected poems, 1965-2016.

Book of night

After the sun
fell below the horizon of the west,

THE SUN GOD

(according to words carved
on the sarcophagus of the pharaoh Seti I)

each night, during the twelve hours of the night, must
journey though
THE WORLD THAT IS BENEATH THE WORLD, —
… must
meet, once again, the dead.

The hour that must follow the eleventh hour

is blank within my eye: —
I do not know what will make the sun rise again.

With a light placed
inside it, the sarcophagus carved out of alabaster

is transparent: —

here is the beginning of our night.
O livro da noite

Após o sol
mergulhar atrás do horizonte do oeste,

O DEUS SOL

(de acordo com as palavras inscritas
no sarcófago do faraó Seti I)

todas as noites, durante as doze horas da noite, ele
deverá viajar através
DO MUNDO QUE EXISTE DEBAIXO DO MUNDO, —
… deverá
encontrar, mais uma vez, os mortos.

A hora que deverá suceder a décima primeira hora

inexpressiva dentro de meu olho: —
Eu não sei o que levará sol a nascer uma vez mais.

Com a luz que foi colocada
dentro dele, o sarcófago, feito de alabastro

é transparente: —

é aqui que começa a nossa noite.

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Poem ending with three lines from “Home on the range”

Barred from the pool twenty-three years ago, still I dove
straight in. You loved to swim, but saw no water.

Whenever Ray Charles sings “I Can’t Stop Loving You”

I can’t stop loving you. Whenever the unstained-by-guilt
cheerful chorus belts out the title, as his voice, sweet

and haggard reminder of what can never be remedied,

answers, correcting the children with “It’s useless to say,”
the irreparable enters me again, again me it twists.

The red man was pressed from this part of the West —

‘tis unlikely he’ll ever returns to the banks of Red River, where
seldom, if ever, their flickering campfires burn.
Poema que termina com três linhas de “Home on the range ”

Barrado na piscina vinte e três anos atrás, ainda assim mergulhei
com tudo. Você amava nadar, mas não viu água alguma.

Sempre que Ray Charles canta “I Can’t Stop Loving You”

eu não consigo deixar de te amar. Sempre que o delicioso coro-livre-de-culpas
repete o título, enquanto a voz dele, uma doce

e exausta lembrança do que não pode ser jamais curado,

responde, corrigindo as crianças com um “nem adianta falar,”
o que não tem conserto entra em mim novamente, novamente me balança.

O homem pele-vermelha foi expulso desta parte do Oeste —

então improvável que volte a estas margens do Rio Vermelho, onde
raramente, se é que alguma vez, arderam suas cintilantes fogueiras.

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Catullus: Odi et amo

I hate and love. Ignorant fish, who even
wants the fly while writhing.
Catulo: Odi et amo

Odeio e amo. Sou peixe ignorante, que mesmo
estrebuchando ainda deseja o mosquito.

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Hammer

The stone arm raising a stone hammer
dreams it can descend upon itself.

When the quest is indecipherable, —
… what is left is a career.

What once was apprehended in passion
survives as opinion.

To be both author of
this statue, and the statue itself.
Martelo

O braço de pedra erguendo um martelo de pedra
sonha que pode atingir a si mesmo.

Quando a busca é indecifrável, —
… o que sobra é o trajeto.

O que antes era apreendido com paixão
sobrevive como opinião.

De ser tanto o autor
desta estátua, como a estátua em si.

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Stanzas ending with the same two words.

At first I felt shame because I had entered
through the door marked Your Death.

Not a valuable word written
unsteeped in your death.

You are the ruin whose arm encircles the young woman
at the posthumous bar, before your death.

The grass is still hungry
above you, fed by your death.

Kill whatever killed your father, your life
turning to me again said before your death.

Hard to grow old still hungry.
You were still hungry at your death.
Versos terminando com as mesmas duas palavras.

No início fiquei com vergonha porque havia entrado
pela porta onde estava marcado Sua Morte.

Não é uma palavra que vale estar escrita
se você não está mergulhado em sua morte.

Você é a ruína cujos abraços envolvem a jovem mulher
no bar póstumo, antes da sua morte.

A relva ainda está faminta
sobre você, alimentada pela sua morte.

Mate o que quer que tenha matado o seu pai, a sua vida
se voltando para mim dito antes de sua morte.

Difícil crescer ainda com fome.
Você ainda estava com fome na sua morte.

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Heart beat

ear early tuned to hear beneath the call to end
eating flesh, sentient suffering beings (creatures

bred now for slaughter will
then never be bred) less life less life tuned to hear

still the vow solemn and implacable I made as a kid
walking a sidewalk in Bakersfield

never to have a child, condemn a creature
to this hell as the prisoner

chorus in wonder is released into the sun, ear early tuned to hear
beneath the melody the ground-bass less life less life
Coração batendo

ouvidos desde cedo afinados escutando a chamada para parar
de comer carne, animais sensíveis sofrendo (criaturas

hoje alimentadas para serem abatidas não
serão mais alimentadas) menos vida menos vida afinados ainda

escutando o juramento solene e implacável que fiz quando criança
enquanto andava em uma calçada em Bakersfield

de jamais ter um filho, para condenar uma criatura
a este inferno como o coro do maravilhado

prisioneiro quando se vê livre sob o sol, ouvido afinado para escutar
a grave melodia que vem do chão menos vida menos vida

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Homo Faber

Whatever lies still uncarried from the abyss within
me as I die dies with me.
Homo Faber

O que quer que ainda não tenha sido levado do abismo dentro
de mim quando eu morrer morrerá comigo.

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The yoke

Don’t worry I know you’re dead
but tonight

turn your face again
toward me

when I hear your voice there is now
no direction in which to turn

I sleep and wake and sleep and wake and sleep and wake and

but tonight
turn your face again

toward me

see upon my shoulders is the yoke
that is not a yoke

don’t worry I know you’re dead
but tonight

turn your face again
A canga
Não se assuste eu sei que você morreu
mas hoje à noite

vire novamente sua face
para mim

quando ouço sua voz já não há
lado algum para que eu me vire

eu durmo e acordo e durmo e acordo e durmo e acordo e

mas hoje à noite
vire novamente sua face

para mim

veja sobre meus ombros está a canga
que não é uma canga

não se assuste eu sei que você morreu
mas hoje à noite

vire novamente sua face

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