Dom Casmurro

junho 2020 / Dom Casmurro / Francesca Cricelli

Texto publicado na edição #242

Francesca Cricelli

Três poemas de Francesca Cricelli

> Por Francesca Cricelli

Foto: Francesca Cricelli

Foto: Francesca Cricelli

O alacrão

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é um ritual que se faz com os pés descalços
os olhos sonolentos e semi-abertos
mijar no escuro
com a familiaridade de quem conhece a distância entre o vaso e o corpo
essa felicidade de repetir os gestos
dia após dia
o café à mesa
a firmeza de quem não se sabe funâmbula na via
até o dia em que percebe um alacrão
cego e forasteiro o bicho é espelho
perambula sob a lâmpada de leitura
ouço antes de ver
uma mancha vermelha cruzando o chão
palpos e ferrões em castanhola
contorce-se sobre o batente
ele mede o meu tempo

mas como pisar a terra, agora,
tendo em vista a vida no alçapão?

Nem âncora nem cabo de aço seguram o passo
na madrugada sonolenta do ser
há sempre risco de ferrão
veneno infiltrando a pele daquela que sou e não sou
à espreita de mim
só me reconheço em lampejos

[Ribeirão Preto, março 2019]
Três da tarde em Reykjavík

enquanto os mortais
aceleram urânio
a borboleta
por um dia imortal
elabora seu voo ciclâmen
[Haroldo de Campos, 1984: Anno 1, Era de Orwell]

enquanto os mortais
arquitetam destruir a terra
ou deter o aquecimento global
corvos entoam seu canto
curvam-se num voo duplo
negras as asas negros os bicos
cruzam em par o ciclâmen do céu
são três da tarde em Reykjavík

chega repentina a madrugada
um só som rasga o sono da gata
teu respiro profundo
são seis da tarde em Reykjavík

enquanto praguejo contra os prazos
o amor cresce com a massa do pão
farinha nos dedos leite açafrão

é uma herança-
feitiço
teu gesto materno

partir e voltar

toda manhã
no escuro
no gelo
novelo

[Reykjavík, dezembro 2019]
No entanto, há o vento

o que sobra de ontem?
uma língua de neve em forma de pássaro

um desenho da infância
se espraia sobre o telhado da casa

a língua do ontem
a memória do gelo

nos resquícios, leio voos —
aprendi a domar desertos
no entanto, há o vento —
algo que me escapa

[Reykjavík, fevereiro 2020]

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