Ensaios e Resenhas

fevereiro 2013 / Ensaios e Resenhas / Fragilidade humana

Texto publicado na edição #98

Fragilidade humana

Uma injustiça histórica está sendo reparada com o lançamento no Brasil dos Contos completos de Flannery O’Connor, em edição suntuosa, […]

> Por JONAS LOPES

Uma injustiça histórica está sendo reparada com o lançamento no Brasil dos Contos completos de Flannery O’Connor, em edição suntuosa, com a habitual sofisticação visual da CosacNaify. A escritora norte-americana, até então, tivera uma recepção quase nula no país: há alguns anos, a pequena editora Arx publicou a coletânea de contos É difícil encontrar um homem bom e o romance Sangue sábio, ambos esgotados e encontráveis só em sebos e com traduções apenas medianas. O novo volume, com conversão impecável do poeta Leonardo Fróes para o português, acerta em abranger todas as narrativas curtas, gênero que O’Connor dominava com excelência — não é exagero colocá-la no mesmo nível de mestres como Tchekhov, Maupassant, Hemingway ou Cheever.

São 31 contos, o que pode parecer pouco para uma compilação de contos completos. É que Flannery não viveu muito, apenas 39 anos (morreu de complicações geradas pelo lúpus, doença que também matou seu pai e outros familiares). A obra pequena não reflete a grandiosidade de suas histórias, pequenas jóias que, estranhamente, dizem bastante sobre a vida norte-americana de hoje ao falar de um tempo e de pessoas com raízes fincadas no passado e apenas no passado. O’Connor filia-se à literatura sobre o chamado Sul Profundo, que possui claros predecessores (Mark Twain, William Faulkner, Tennessee Williams e Carson McCullers, outra autora que morreu jovem) e sucessores (Truman Capote, Cormac McCarthy, Toni Morrison). Uma região que, na primeira metade do século 20, padecia com o massacre imposto pela derrota na Guerra Civil: seus costumes e valores definhavam dia após dia; a religião, antes um refúgio, tornara-se um fardo, motivo para angústia e desconfiança; a família era uma instituição de ódio e desagregação.

Ódio racial
Para não falar do imenso ódio racial que emanava de todos os cantos e que corroeu a alma do país até, no mínimo, a década de 60 (de certa forma permanece vivo até hoje, embora muito bem mascarado). A abordagem de Flannery O’Connor em alguns dos contos é direta. Em O gerânio, um velho desocupado passa as suas tardes esperando o vizinho colocar um vaso de gerânios na janela, até que um negro se muda para o apartamento do lado, provocando sua revolta. O liberal Rayber, de O barbeiro, sofre constantes gozações de seu barbeiro por declarar voto em um candidato progressista. “Você então é pelos negros?”, pergunta o barbeiro. Um senhor de O negro artificial leva para Atlanta o neto pequeno, que nunca viu um negro — lá eles se tornam objeto de deleite e assombro do menino, uma espécie de zoológico humano exótico. Os trabalhadores negros de fazenda (em O refugiado de guerra) são descritos como seres preguiçosos, vagabundos, ladrões. A solução é contratar os judeus recém-chegados à América, aqueles que conseguiram escapar dos campos de concentração nazistas. Esses sim são competentes.

O’Connor não foi poucas vezes chamada de racista devido a esses textos. O que é uma tremenda tolice. Ela, em alguns momentos, é até condescendente com os negros; venenosa, parece mais interessada em ridicularizar a inconsistência dos sentimentos altruístas dos brancos. O próprio personagem de O barbeiro acaba cedendo à estupidez do barbeiro e seus amigos preconceituosos e parte para a briga, ou seja, utiliza o mesmo método sujo dos bárbaros que combate. Já a senhora que contratara o judeu para fazer o serviço da propriedade acaba o mandando embora, sentindo-se ameaçada por sua produtividade. Melhor continuar com os negros: inúteis e vagarosos, porém fáceis de controlar. Mais do que no debate racial, a autora parece interessada em investigar a condição humana — no caso, a violência física e espiritual que nós podemos cometer, independentemente de cor, raça e classe social.

Violência velada
A violência atinge os melhores momentos nos contos quando é velada, subentendida, sem as referências explícitas de alguns textos. Caso do maravilhoso Um homem bom é difícil de encontrar (o título ficou diferente do da tradução da Arx), em que uma família viaja de férias e resolve, graças à insistência da vovó falastrona, fazer um desvio para visitar uma casa de antepassados. A violência está no desprezo que a família sente por ela, na introspecção disfarçada de expansão que a velhinha é obrigada a assumir como defesa para se mostrar mais forte, para não se sentir um fardo para os outros. Somente no final a brutalidade emerge sem subterfúgios, quando um assassino fugitivo esbarra na família e dá cabo deles sem piedade. Outro murro no estômago é Gente boa da praça. Um jovem vendedor de Bíblias inicia amizade com uma doutora em filosofia com perna de pau. Mostrando pureza e fé em Deus, ele a seduz, apenas para, mais à frente, divertir-se cruelmente à custa de sua deficiência física. A senhora extrovertida e a aleijada anti-social possuem características bem particulares de personagens da autora: são solitárias e orgulham-se disso. A necessidade que sentem em mostrarem-se fortes e seguras acaba fazendo que, num momento de fraqueza, elas se abram para completos desconhecidos — pessoas a quem não precisam transmitir uma imagem de auto-suficiência. Deixam-se entregar e terminam por se arruinar.

Outro elemento essencial — talvez o primordial — nas histórias de Flannery é o catolicismo e a religião de modo geral. Ou a decadência dela, já que vários de seus heróis, antes crentes irrecuperáveis, blasfemam contra a Providência. “Jesus morreu para te redimir”, lembra uma mulher. “Eu nunca pedi a Ele”, responde um homem. A imagem ideal para a fé algo cambaleante dessas figuras está no conto em que um menino é levado pela babá a um culto fervoroso. O pastor se oferece para batizá-lo. A criança, filha de pais ateus, ignora o significado daquilo. De todo modo, emociona-se e fica encantado com a suposta beleza do sacramento — o que vale é o ritual, não as crenças ou os dogmas que o acompanham. Por isso Sheppard, de Os aleijados entrarão primeiro, sonha em ajudar um delinqüente social com pé torto que cruza seu caminho. Leva o trombadinha para sua casa e lhe dá tudo, a ponto de negligenciar o próprio filho. Age como um novo Jesus Cristo (o próprio delinqüente o acusa disso), embora diga que não tem fé em Deus, motivado apenas por soberba e vaidade, para provar sua enorme benevolência e ocultar o fracasso com o filho. Afinal, declara alguém em uma das narrativas de Contos completos, é preciso saber o que é pecado para ser capaz de pecar.

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FLANNERY O’CONNOR

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Nasceu em Savannah, Georgia, Estados Unidos, em 1925, filha única de uma família católica. Com menos de 30 anos começou a publicar livros. Escreveu dois romances e 31 contos, com os quais se eternizou. Morreu de lúpus, doença que herdou do pai, em 1964. Seu romance Sangue sábio virou um filme dirigido por John Huston (de O falcão maltês).

Flannery_livro

Flannery O’Connor
Trad.: Leonardo Fróes
Cosac Naify
715 págs.