Ensaios e Resenhas

maio 2016 / Ensaios e Resenhas / Frágil mosaico

Texto publicado na edição #193

Frágil mosaico

"Notas sobre Turibio Núñes, o escritor caído", de Jéferson Assumção, é um romance confuso

> Por CLAUDIA NINA

Jéferson Assumção, autor de Notas sobre Turibio Núñes, o escritor caído

Jéferson Assumção, autor de Notas sobre Turibio Núñes, o escritor caído

Cada gênero tem suas especificidades, mas todo o texto precisa, antes de tudo, estabelecer com o leitor um pacto de envolvimento e empatia; o enredamento excessivo de linhas em labirintos não sedutores pode dificultar a estratégia. Um romance, por exemplo, tem como desafio maior estruturar-se como… um romance. A composição é o segredo. E isso não é nada simples. Personagens que transitam e gesticulam sem rumo nos cenários como fios desencapados podem fazer ruir um projeto com pretensões de originalidade ao apostar na confusão.

Um dos pontos preocupantes do romance Notas sobre Turibio Núñes, o escritor caído, de Jéferson Assumção, é a opção por um conjunto multifacetado de narrativas não muito bem conduzidas e que por isso enfraquecem a organização do romance como uma estrutura minimamente coesa. Pode-se argumentar que há muito tempo caiu por terra a necessidade de um enredo sólido, mas não é disso que se fala aqui: até para abstrair a forma é preciso saber construí-la antes de desobedecê-la. A mão forte que irá espatifar a estrutura saberia perfeitamente criar sem destruir, mas opta pelo caos com a consciência dos gestos. Porém, não parece ser o que ocorre em Notas sobre Turibio Núñes.

São 16 pontos de vista sobre um mesmo personagem, um escritor argentino fictício, nascido em La Plata, com passagens por Porto Alegre e Rio de Janeiro — o destino final. Tinha o sonho de se tornar um autor brasileiro. Sua vida é marcada por falências. Mas, contrariando as expectativas, ele não aparece como protagonista, e sim de forma lateral com diferentes roupagens. Após sucessivas quedas, tanto morais quanto físicas, incluindo aí tropeços financeiros e intelectuais, Núñes termina na favela da Rocinha. Ao encerrar a (confusa) autobiografia, morre misteriosamente, talvez um suicídio.

A aparição de Turibio nas diferentes histórias, muito menos do que apenas “lateral”, é absolutamente irrelevante. Se fosse lateral, mas significativa, o bom argumento teria mais sucesso. O projeto, afinal, parece estimulante: 16 pontos de vista, angulações diversas que traçam tantas histórias quanto cabem em um olhar cheio de percepções. Encontros, amores, viagens, bebedeiras, festinhas, vida na selva — os cenários são caleidoscópicos. Procura-se por Turibio. Onde, onde — pergunta o leitor. Ele se inscreve, por exemplo, nas linhas do crachá de um garçom, de repente, em uma das narrativas que dão ao romance um aspecto de reunião de contos, não fosse o arremate final que tenta de alguma maneira alinhavar a ideia de uma construção dupla de vida e texto ao mesmo tempo. Reflexões filosóficas também participam das histórias e irrompem em meio a cenas comuns, como parênteses, causando uma estranheza proposital, o que é positivo. Diz um velho cego:

— A grande questão é que, há milênios, iludida pelo movimento da Terra, a humanidade supôs que existia o tempo e inventou uma forma de dividir o dia e de marcar as sucessões de espaços claros e escuros que se formam sobre o planeta. Percebeu ainda uma sucessão de dias quentes e frios, o florescimento e o amadurecimento das frutas, e as flores secarem. As pessoas imaginaram que, entre esses eventos fortuitos, havia algo mágico: o tempo. Mas agora que se sabe como o relógio do universo funciona quando se olha para trás, se vê que não há passado, afinal, e que a humanidade caminha sobre um abismo que se desmorona sempre depois de seus calcanhares. O girar dos planetas é só movimento e o dos ponteiros do relógio não passa disso.

Em outro momento, em meio a uma conversa de bar, mais um parêntese filosófico:

— A vida é um grande garimpo. Às vezes passamos décadas mexendo na lama, saímos carregando pedras. Enfiamos as unhas no barro e, nas tantas vezes que o mundo se parece cheio de possibilidades, voltamos para a casa de mãos abanando, e doloridas. Durante cinco anos, pelo menos, fui ao Potenkin todos os domingos de minha vida, dias muito melhores, noite muito mais agradáveis. Em quase todos retornei ao apartamento com a escuridão me desequilibrando, empurrando em ziguezague pelas ruas, certamente que com a mesma sensação dos camponeses na China.

Uma “espécie de todo” é a expressão usada pelo próprio Turibio (lembrando: sim, ele é um autor) para definir os originais que entrega a um conhecido pouco antes de sua morte silenciosa. Eis o que se descobre quase ao final do romance, momento em que igualmente lampejos sobre a vida caída do autor aparecem. Texto sobre texto, composição sobre composição, histórias imbricadas uma dentro da outra. Quem escreve é o mesmo ser de quem se escreve.

Talvez essa “espécie de todo”, referido acima, seja exatamente o que As notas apresentam: nada muito coeso nem capaz de alcançar algum foco. Muitas ideias todas misturadas a cenários e personagens à procura de uma (filosófica?) explicação para a existência.

Contos
Já o livro de contos Cabeça de mulher olhando a neve, em sua maior parte, faz-se de textos que rondam a impossibilidade de algumas regiões do Brasil, acaloradas por natureza, serem, surrealisticamente, cobertas de neve. Se as ladeiras de Olinda, ou o sertão, conhecessem a neve, como seria vida ali, com as curvas formando pistas de esqui?

Entre as singelezas, em Caruaru, por exemplo, as pessoas poderiam produzir bonecos de neve, uma espécie de artesanato fugaz — um cenário absurdo, tornado possível na ficção:

O resto o gelo tinha coberto, dos calanguinhos às galinhas, duras, mortas, que encontramos a um canto do galpão, como se tivessem tentado se esconder. Sei que lá, de vez em quando, a neve volta, só que nunca mais com tanta força, como quando antes fazíamos bolinhas para acertar na cabeça dos mandacarus com seus braços espinhentos abertos para nós.

Talvez o melhor texto seja o mais simples de todos. Saturno no laranjal fala de um pai descascador de laranjas e da expectativa dos filhos quanto ao destino das frutas que, por fim, terminavam com o próprio que as chupava inteiras. Existe um desafio em narrar o simples, especialmente nos contos; criar interesse por algo a princípio banal é um trabalho árduo.

Nós três ficávamos ansiosos querendo saber para quem ele daria, primeiro, a laranja tão habilmente descascada. Mas ele sempre nos desapontava. (…) Nós sentávamos a uma pequena distância a vê-lo comendo, sozinho, cada uma daquelas laranjas. Com a já referida habilidade, nosso pai chupava-as inteiras e jogava fora os bagaços intactos, como se fossem cabeças de crianças murchas.

Em um texto recente, aproximando música e literatura, Raimundo Carrero lembra que há músicos se que dedicam meses ao estudo do silêncio entre um compasso e outro. O movimento se aplica a tudo. Especialmente à escrita. Estudar, com tempo e cautela, não só o que os grandes autores escrevem, mas também o que não dizem. Pensar um pouco no silêncio entre uma frase e outra, entre uma palavra e outra pode ser um interessante exercício sobre os caminhos da narrativa, que, muitas vezes, ganha em profundidade quando aposta na clareza.

 

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Notas sobre Turibio Núñes, o escritor caído
Jéferson Assumção
Besourobox
263 págs.

 

 

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Cabeça de mulher olhando a neve
Jéferson Assumção
Besourobox
134 págs.

 

O AUTOR
Jéferson Assumção

Nasceu em Santa Maria (RS), em 1970. Doutor em Humanidades e Ciências Sociais-Filosofia, pela Universidade de León, na Espanha. Tem mais de 20 livros publicados, entre eles A vaca azul é ninja em uma vida entre aspas (2014), A ilustração vital (2013) e Homem-massa (2012). Como repórter especial e ativista, já atuou em vários países, como Índia, Quênia e Marrocos. Atualmente, faz pós-doutorado no Programa de Pós-graduação em Literatura da Universidade de Brasília.

 

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