Ensaios e Resenhas

novembro 2011 / Ensaios e Resenhas / Fora da torre de marfim

Texto publicado na edição #126

Fora da torre de marfim

J’accuse! é um texto polêmico, que testemunha um momento efervescente vivenciado pela sociedade francesa do final do século 19. Émile […]

> Por PATRICIA PETERLE

Émile Zola, autor de J'accuse!

J’accuse! é um texto polêmico, que testemunha um momento efervescente vivenciado pela sociedade francesa do final do século 19. Émile Zola, escritor já legitimado e conhecido fora da França, foi um daqueles intelectuais que saíram do cadinho “confortável”, no seu caso a literatura, para intervir no aceso debate gerado pelo affaire Dreyfus. Carta aberta endereçada ao presidente da França, Felix Fauré, é considerada por Jean-Denis Bredin um marco fundamental na história do jornalismo. Com apenas 4 mil palavras, ela pode ser vista como uma “obra-prima”, seja pelo resultado literário atingido, seja pelos debates públicos que conseguiu gerar e produzir.

O jornal L’Aurore, ao publicar esse artigo na primeira página, vendeu rapidamente todos os exemplares do dia 13 de janeiro de 1898, acendendo ainda mais as discussões sobre o caso. A partir da releitura do affaire feita por Zola, vários artistas e intelectuais pronunciaram-se publicamente. Tal atitude, tomada por um escritor que sai da esfera do literário-cultural para “intrometer-se” na do social e político, teve como resultado o Manifeste des Intellectuelles, publicado em 14 de janeiro de 1898, assinado por muitos homens de cultura, como Anatole France, Georges Courteline, Octave Mirabeau, Claude Monet e Marcel Proust.

Sem dúvida, J’accuse! (Eu acuso!), que dá título ao livro recém-lançado pela L&PM, é seu texto central, mas o volume é composto por outros escritos produzidos e relacionados ao affaire. De fato, é o próprio Zola que, no prefácio de 1901 à edição francesa, reproduzido nesse volume, com tradução de Paulo Neves, chama a atenção para o fato de essa coletânea não pretender ser uma história do processo contra o oficial judeu francês, apesar de os artigos terem sido escritos em momentos diferentes e trazerem o signo das tensões da época. É, sim, uma contribuição, um testemunho de quem presenciou aquele clima, as discussões relacionadas ao caso, e teve um envolvimento motivado pela injustiça que estava sendo cometida.

Diz Zola, nesse prefácio: “E gostaria unicamente de dar minha contribuição a esse dossiê, deixar meu testemunho, dizer o que soube, o que vi e ouvi, desde o ângulo do caso no qual atuei”. A idéia de testemunho é ainda reforçada pelo fato de o autor, ao reunir os textos para a publicação em forma de livro, não ter alterado, modificado ou revisto, de forma consciente, nenhum dos artigos. Outro aspecto é a ordem cronológica respeitada no livro, que segue a mesma da primeira circulação na imprensa francesa. Além disso, cada texto apresenta, abaixo do título, um pequeno parágrafo explicativo que o contextualiza, o que pode facilitar o entendimento do leitor. Eis um exemplo:

L’Aurore já havia tomado partido com uma independência e uma coragem admiráveis, e naturalmente me dirigi a ele. Depois desse dia, esse jornal tornou-se para mim o asilo, a tribuna de liberdade e de verdade na qual pude dizer tudo. Conservo por seu diretor, o Sr. Ernest Vaughan, uma grande gratidão. Depois da publicação no L’Aurore com seus trezentos mil exemplares e dos processos judiciários que se seguiram, a brochura mesma permaneceu na gráfica. Pois logo após o ato que decidi e realizei, acreditei dever guardar silêncio, à espera do meu processo e das conseqüências que viriam.

Se o título de um dos textos da coletânea é J’Accuse!, essa expressão vai tomando cada vez mais corpo e forma, à medida que Zola reconstrói a história do caso, dando a sua versão dos fatos. Há um trabalho sofisticado de leitura de documentos, decodificação, seleção e ressemantização. Uma expressão significativa que ganha ainda mais força na última parte do artigo-carta, quando ela é repetida propositalmente, como uma espécie de refrão, que produz até um ritmo cadenciado, ao iniciar oito parágrafos consecutivos.

Conseqüências
As conseqüências também não foram poucas. A partir desse artigo Zola é julgado algumas vezes e recebe duas grandes condenações. Como se sabe, é nesse momento que Zola exila-se na Inglaterra, onde ficará por quase um ano. Em 1899, no dia 3 de junho, é comunicada a revisão do processo e Zola regressa à França. No retorno, novamente nas páginas de L’Aurore, publica um novo artigo intitulado Justice, motivado pela reabertura do processo. Outro texto famoso desse período, cujo título é também emblemático, é La Vérité en marche, que também faz parte e integra o título dessa publicação.

Diante da querela francesa ou do affaire immortelle, como o denominou Marcel Proust, Émile Zola foi um dos primeiros homens de letras a se pronunciar e denunciar as ilegalidades e o abuso de poder cometidos pelas autoridades. Zola, escritor respeitado, não intervém por meio de sua produção literária, contudo não deixa de expressar a perplexidade e a inquietação relativas ao acontecimento que chamou a atenção de toda a França e, também, da Europa.

Sem dúvida, o evento marcou um novo traço no perfil da figura do intelectual e do homem de letras nessa passagem do século 19 para o 20, além de trazer à luz as feições de um indivíduo que trabalha em um âmbito diferente daquele social e político, mas que faz uso da sua legitimidade, de seu sucesso e de sua fama em outros meios, como a literatura ou as artes, para defender publicamente uma idéia. A imagem emblemática, deixada em 1898 e citada por muitos que tentaram definir e teorizar sobre o intelectual no século 20, é a de Émile Zola.

O texto de Zola é uma contestação e denúncia da manipulação de informações que envolviam o oficial do exército francês Alfred Dreyfus. O que está posto é que a imagem tida, até então, do depositário de uma cultura, um guardião das tradições ou a de um legislador, para usar a expressão de Zygmunt Bauman, não é mais suficiente. A imagem idealizada e “utópica” do escritor envolto na sua imaginação e isolado, “fechado” em sua torre de marfim, agora dá lugar a uma nova perspectiva em relação àquilo que está ao seu redor. Com efeito, a posição do homem de letras sofre mudanças radicais. O escritor não está mais isolado nas matérias e interesses artísticos que tendem a se distanciar do cotidiano; na realidade, ele, exatamente por ser escritor, tem responsabilidades e passa a intervir na res publica. A forma com a qual essa intervenção é feita, no caso de Zola e de muitos outros, é o trabalho com a palavra. As belas letras, claro, mas que também podem ser usadas de modo sofisticado para recriar situações, denunciar, descortinar. Um uso da linguagem e das imagens, cujo objetivo maior é o questionamento e o conhecimento. A idéia da literatura como conhecimento sem o detrimento dessa arte. O artista-escritor que se coloca comprometido com o “dever da verdade”.

A busca pela verdade permeia esses artigos e move o escritor a tomar certos posicionamentos. A presença dessa busca fica clara nas últimas linhas de J’Accuse!: “Minha questão é somente uma, a da luz, em nome da humanidade que tanto sofreu e que tem direito à felicidade. Meu protesto inflamado não é senão o grito da minha alma. Que ousem, portanto, levar-me ao tribunal, e que o inquérito se realize em plena luz!”. Luz, claridade, uma visão mais limpa e translúcida, é isso que clama Zola.

O affaire Dreyfus é, certamente, o mais famoso e polêmico erro judiciário de todos os tempos da justiça francesa, que provocou uma crise em todos os setores da sociedade, mas é importante ressaltar que é nesse conturbado ambiente que se trata, pela primeira vez, da idéia de intelectual, da forma como essa categoria passa a ser entendida no século 20. Postura paradigmática a de Zola que será lembrada por tantos outros escritores, filósofos e pensadores que refletiram sobre o complexo papel do intelectual e sua relação com a sociedade. Jean-Paul Sartre, com a literatura engagè, Norberto Bobbio, Edward Said, Pierre Bourdier são só alguns exemplos daqueles que retomam a experiência de Zola para poder construir os seus discursos no século 20.

Refletir sobre essa figura ao longo do século passado é também dar conta de uma série de mudanças e transformações que aconteceram no sistema social, cultural e político e, em relação ao indivíduo, na esfera do público e do privado. Como coloca Bourdieu:

O J’accuse! é o auge e a consumação de um processo coletivo de emancipação que progressivamente se foi cumprindo no campo de produção cultural: enquanto, ruptura profética com a ordem estabelecida, reafirma, contra todas as razões de Estado, a irredutibilidade dos valores de verdade e de justiça, e, no mesmo ato, a independência dos guardiões desses valores em relação às normas da política (as do patriotismo, por exemplo), e às imposições da vida econômica.

Uma polêmica que não deixou de ter conseqüências no campo político, obviamente, mas que também marcou as relações entre literatura e história e o papel do escritor como um produtor de significados.

Print Friendly

Émile Zola

Nasceu em Paris, na França, em 1840. Antes de se consagrar como escritor, trabalhou na editora Hachette e como jornalista, atividade que nunca abandonou. É considerado um dos representantes máximos do naturalismo. Depois de Therese Raquin (1867), ele tinha como projeto literário um ciclo de romances, Les Rougon-Macquart, para retratar as várias camadas da sociedade, e dessa idéia foram muitas as obras publicadas, como Nana (1880), ambientado nos espaços burgueses, e Germinal (1885), centrado nas lutas sociais e pela vida numa comunidade de mineiros. Morreu em 1902.

Quanto às pessoas que acuso, não as conheço, nunca as vi, não tenho contra elas nem rancor nem ódio. São para mim apenas entidades, espíritos de maleficência social. E o ato que realizo aqui não é senão um meio revolucionário de apressar a eclosão da verdade e da justiça. Minha questão é somente uma, a da luz, em nome da humanidade que tanto sofreu e que tem direito à felicidade.

Emile_Zola_Eu Acuso126

Émile Zola
Trad.: Paulo Neves
L&PM
176 págs.