Dom Casmurro

fevereiro 2016 / Dom Casmurro / Foi assim a guerra

Texto publicado na edição #189

Foi assim a guerra

Conto inédito do português João Guilhoto

> Por João Guilhoto

Ilustração: Theo Szczepanski

Ilustração: Theo Szczepanski

 

*Optou-se por manter a grafia do português de Portugal.

A guerra é mãe e rainha de todas as coisas; alguns, transforma em deuses, outros, em homens; de alguns, faz escravos, de outros, homens livres.
Heráclito

 

Nada melhor que uma guerra para animar o meu espírito. As minhas dores mais ocultas, aquelas que se sentem num lugar inidentificável do corpo, começaram a extinguir-se.

Quando a guerra ainda estava longe, já se podia senti-la aproximando-se: palavras nos jornais, imagens de nuvens de fumo levantando-se das cidades, ou de homens fardados, escondidos dentro de escafandros, nariz, olhos, boca e orelhas de fora, o mesmo rosto fechado, o mesmo olhar obstinado em relação ao destino: matar ou ser morto. Quando a guerra ainda estava longe já se dizia que o fim estava próximo. “Vai acabar a vida como a conhecemos!”, gritavam.

Essa aproximação da guerra, ou seja, essa possibilidade cada vez mais real, tornou evidente que os comportamentos se tinham refinado. Na cidade parecia-me que todas as pessoas se tinham tornado mais densas, e até mais simpáticas e pensativas, talvez mais curiosas, mais modestas. As conversas eram de repente importantes. As relações complicadas simplificaram-se. As discussões eram quase todas ideológicas ou morais, mesmo entre pessoas das quais nunca esperássemos que tivessem opiniões que não fossem apenas desportivas ou estéticas. Os sentimentos passaram a ser partilhados de uma forma menos equívoca e até os tímidos se libertaram. Os movimentos das pessoas que se tinham recusado desde início a abandonar o país tinham-se tornado mais fortes: as actividades, mesmo as mais insignificantes, assemelhavam-se a uma espécie de treino militar. E os que fugiram para o estrangeiro desapareceram simplesmente como se tivessem sido as primeiras baixas.

Para mim a guerra foi uma grande oportunidade. Até o meu analista me disse: “Você está curado, homem, vejo-o finalmente menos obcecado consigo próprio, menos cabisbaixo, mais empático com o que o rodeia. Só um conflito geopolítico para o fazer melhorar assim”. Na verdade, a declaração de guerra foi para mim uma espécie de declaração de sanidade.

Para além dessa inusitada alegria e sentido de pertença e de comunhão com os outros, uma das alterações principais foi a perda de importância que eu antes atribuía em demasia a alguns objectos. Era óbvio que as pessoas tentavam salvar o seu património de uma possível futura destruição mas, por outro lado, era clara a separação das coisas em relação à sua utilidade. Nesses dias de expectativa a cidade parecia mais sóbria. Reparei, por exemplo, que uns vizinhos meus até aproveitaram para fazer uma limpeza à casa.

 

Antes da guerra ter começado a minha situação era miserável. Eu estava bem perto de pôr termo à vida. A principal razão, embora sustentada por várias pequenas causas, prendia-se sobretudo com a minha posição filosófica sobre a existência. Que sentido faria continuar a viver, se a vida se resumia a um conjunto de acontecimentos previsíveis e aborrecidos? O meu trabalho no escritório era algo que eu fazia maquinalmente. E as acções assim repetidas pareciam fazer reproduzir um aceleramento da vida. As semanas passam despercebidas, perdidas para sempre no vórtice do tempo e sem que se viva, por vezes durante vários meses, um único acontecimento assinalável. Era a mediania pura. Mesmo as actividades extra-laborais, como um curso de dança, a aprendizagem de uma língua que nos parece exótica, ou qualquer actividade desportiva, realizadas com a esperança de preencherem o que se sente como uma falha, acabavam por se misturar nessa repetição da vida. Todas as acções eram, no mínimo, pequenas inclinações necrófilas. Nada do que acontecia era substancial ou produzia algo que pudesse ser digno de registo. Esta era uma expressão com a qual, nessa altura antes da guerra, eu dividia os acontecimentos: os que eram dignos de registo e os que não eram dignos de registo.

A minha vida era uma sucessão de banalidades. Desistir ou adormecer eram duas soluções. Tentei o adormecimento, ou a sedação (também poderíamos chamá-lo assim) através das mais variadas substâncias venenosas, depois através dos livros que lia compulsivamente ou então através das mulheres. Mas nada era capaz de me manter fora da vida. Todas estas saídas eram temporárias. E o adormecimento da vida traz consigo o seu próprio despertar. As próprias actividades recreativas pareciam-me que iam destruindo, já que os despertares tornavam-se cada vez mais pesados. As mulheres, por exemplo, passaram a aborrecer-me, pois a sedução era uma coisa que eu fazia maquinalmente e nem sempre em resposta a um estímulo erótico. Eu estava neutralizado no meio desse mundo desenvolvido, estável, rico e seguro. A fase da desistência aproximava-se e a saída do mundo parecia-me lógica: algo que eu faria pela minha própria força.

 

No dia em que saí pela última vez do consultório do meu analista, enquanto caminhava para casa, surgiu-me a primeira grande resolução a tomar para estes tempos de guerra: todos os meus objectos, pelo menos aqueles que tencionava salvar, deveriam caber apenas numa mala. Os outros livrar-me-ia deles, excepto, claro, os objectos que têm apenas utilidade no dia-a-dia, como todos os utensílios de cozinha ou as carpetes, as cadeiras, a minha cama, ou ainda, excepcionalmente, o sistema de som. Enquanto pudesse permanecer em casa parecia-me incoerente não poder ouvir música.

Fiquei também muito tempo a olhar para a minha biblioteca. O meu desejo de me tornar mais leve não parecia compatível com a minha intenção de manter todos aqueles livros (ou talvez devesse dizer amigos?) em minha casa. Mais tarde ou mais cedo seriam destruídos. Então o que fiz primeiro foi: copiar algumas passagens importantes de algumas das obras para um dossiê, trabalho do qual me ocupei durante alguns dias. Depois levei os livros para a rua de deixei-os na berma do passeio. Apesar de algumas pessoas os terem recolhido — eu próprio os vi da minha janela, o que, de certa maneira me fez sorrir — grande parte dos livros ficou na rua ainda várias semanas, e comecei a deixar de os ver quando chegou o tempo da chuva e mais tarde com os primeiros bombardeamentos. É certo que um livro pesa um número bem exacto de gramas, mas talvez pese o significado de um passado, como se ler fosse também um exercício de memória e esquecimento, uma imersão do espírito num novo corpo.

No entanto, ao livrar-me dos livros, e ao condensar as passagens que mais me marcaram num dossiê, confirmei o que antes pressentira: a sua presença superior tinha-me empurrado para baixo de todo aquele peso. Talvez eu quisesse comparar-me muitas vezes à superioridade dos livros. O súbito vazio que eles deixaram nas prateleiras fez com que a memória de tudo o que tinha lido me parecesse ainda mais clara, como a recordação de uma pessoa morta que nos tinha sido querida. Na verdade, os livros tinham estado ali como um membro do nosso corpo cuja presença tão próxima não é possível manter na memória corrente. É mais provável que nos lembremos da nossa perna apenas no dia em que ela nos começar a doer.

 

Quando terminei a limpeza sentei-me no chão da minha sala, algo que nunca tinha feito — sentar-me assim simplesmente no chão —, e fiquei a ouvir o silêncio no prédio. Estariam já todos à espera? Então pus-me a observar, pela primeira vez atento, esse espaço onde eu ficava todos os dias, esse espaço ao qual chamava a minha casa. Reparei como, de repente assim despejada, a minha casa parecia esvaziar-me de uma certa responsabilidade para com o meu próprio passado.

Levantei-me e saí à rua. Sentia-me, arrisco mesmo a afirmá-lo, feliz. Finalmente a guerra, finalmente uma razão nobre para morrer! Decidi não voltar mais ao trabalho no escritório e telefonei ao meu irmão, que vivia no estrangeiro, depois de três anos sem nos comunicarmos. Ele mostrou-se preocupado. Disse-me que onde eu estava era perigoso e que se eu quisesse poderia ir para casa dele, no estrangeiro, onde, dizia ele, estaríamos em segurança. Existia um quarto lá em casa reservado para mim. A casa era grande, ele disse. Respondi-lhe que não, mas ele insistiu. Então eu expliquei: estou bem aqui, sinto-me bem e estou feliz. E depois de um longo silêncio e de um adeus sentido (da sua parte apenas, como se ele se despedisse de mim para sempre), desligámos o telefone.

Caminhei para um pequeno parque perto de minha casa. Aí sentei-me num banco. Muitas pessoas passavam apressadas. Todas pareciam ter algo a perder com esta guerra. Tinham sido pessoas felizes, pensei eu. Como é possível que desta vida tão aborrecida tantas pessoas pudessem andar felizes? Mas agora ali estavam elas correndo, chorando, desesperadas e assustadas. Eu, sentado no banco do jardim, acendi um cigarro. Tinha reservado um maço de cigarros que tinha prometido fumar com uma amiga mais velha. Guardei aquele maço muitos anos. Depois ela morreu e os cigarros ficaram por fumar. Aquela era a ocasião propícia. Por isso, fumei um cigarro, pensando na minha amiga. E, pela primeira vez depois da sua morte, sorri ao pensar nela.

Nesse momento, uma mulher sentou-se num outro banco à minha frente. Chorava. Estaria chamando a minha atenção para a sua tristeza? Talvez, caso me tivesse visto tão calmo, no meio daquela azáfama, fumando um cigarro. As pessoas continuavam a passar. Algumas viam a mulher a chorar mas ignoravam-na. Que importa afinal um ser humano que chora, quando a morte colectiva, sem precedentes, sem lógica, sem selecção se aproxima? Ela chorava, talvez pensando nisso. Decidi aproximar-me. Sentia-me finalmente em condições de me aproximar novamente de uma mulher. Imediatamente vi naquela tristeza uma excitação, uma possibilidade.

“Posso perguntar-lhe porque chora, menina?”

Era ainda nova. Levantou o seu rosto bonito e atirou os seus olhos para mim. O seu rosto estava arrasado pelo choro, mas a sua beleza parecia ainda maior, pelo menos tinha uma razão nobre para dar uso à beleza. Respondeu-me que o marido fora destacado e combatia na linha da frente. Ela estava desesperada: sozinha numa casa enorme, ali no centro da cidade, numa zona que seria certamente um dos primeiros alvos dos bombardeamentos. De repente, lançou-se para os meus braços, chorando. Achei aquele gesto exagerado e nunca esperei que se lançasse de uma forma tão repentina, eu apenas um estranho e ainda por cima tão mal vestido e barbudo. Convidei-a a dar uma volta pelo parque. Caminhámos primeiro em silêncio, ela de mão no meu braço. Eu estava calmo, sentia-me bem e transmitia finalmente uma boa impressão. Sentia-me feliz por receber aquela mão no braço. Há quanto tempo uma mulher não me tocava assim, com o instinto puro de me tocar? Depois ela perguntou-me, quando descíamos para o lado do rio: você não tem medo?

Fiquei em silêncio. Mas ela insistiu: não tem medo desta guerra que se aproxima?

Respondi-lhe que eram tempos de redenção. Ela parecia confusa, mas ao mesmo tempo senti-a mais calma. A sua mão continuava no meu braço. Convidei-a então para jantar em minha casa e nessa noite deitou-se comigo.

Parecia-me óbvio que ela vinha para ficar. Ainda esteve em minha casa algum tempo, mas de dia para dia o meu optimismo parecia ser-lhe cada vez mais insuportável. Embora a minha força tenha sido para ela, no início, um alívio, ela queria viver aquela tristeza que era o drama da guerra. Ficou até ao dia do primeiro ataque.

 

Quando se deu a primeira explosão eu estava dentro dela. E essa surpresa, que foi a primeira bomba, tão esperada, deu-me ainda mais motivação para não interromper o que fazia. Ela também não pareceu muito incomodada com a primeira bomba, pelo menos parecia que queria terminar aquela tarefa do corpo, antes de começar a ter medo.

Quando os corpos abrandaram, eu vi que ela chorava. Ao mesmo tempo que se vestia, disse que tínhamos de sair: dentro de casa é perigoso. Mas eu disse que não, tinha esperado muito tempo por aquele momento e queria ficar em minha casa a desfrutá-lo. A feição no seu olhar era claro: vaticinava-me loucura. Então surpreendeu-me quando anunciou que iria sozinha. Eu não me movi. Estava ainda deitado na cama sem qualquer peça de roupa no corpo, contrastando com ela completamente vestida e pronta para sair. O medo era nítido no seu rosto tenso. E saiu.

 

Durante os dias em que os bombardeamentos duraram eu sentava-me na minha poltrona em frente à janela à espera. Parecia-me que os ataques aconteciam sobretudo depois do pôr-do-sol, como se fosse uma acção relegada para depois do jantar. Os aviões inimigos só sobrevoavam a cidade depois de todos terem comido bem e brindarem a uma noite de sucessos. Os soldados estariam sentados a uma mesa comprida de madeira, já de capacetes colocados, todos discutindo as trivialidades da guerra, acertando os últimos detalhes, e segurando nos talheres para cortar um naco de bife. Depois metiam-se nos aviões e vinham lançar-nos as bombas. Quando eu imaginava as circunstâncias humanas destes acontecimentos parecia que os ataques ganhavam uma importância menos demoníaca. Ao humanizá-los, eles pareciam ridículos. Focar-nos no medo e na imprevisibilidade daria apenas espaço a um pensamento religioso: porque caem estas bombas por cima de mim, eu inocente? Desde o início da guerra que a palavra porquê tinha ganho uma dimensão bem mais telúrica. Como as respostas não existiam, passei a focar-me apenas nas perguntas. O ser humano é mau: porquê? Não importa, pensava eu. Saber que essa pergunta é real e importante é o essencial neste momento.

 

Foi uma semana de chuva de fogo. Eu ficava a ouvir (e por vezes a ver) as bombas a cair na cidade. Muitas delas caíam bem perto. E a cada explosão eu estremecia de prazer. Estava finalmente perto o suficiente do perigo para desfrutar da vida. Além dos bombardeamentos, das sirenes e das antiaéreas eu não ouvia mais nada. Por vezes ligava o meu sistema de som e dançava. Às vezes, durante o dia, punha-me à escuta nas escadas. Parecia-me que mais ninguém habitava ainda no meu prédio. Todos já se tinham posto a caminho de algum lugar.

 

No último dia dessa semana estava a ficar sem comida. Tinha finalmente de sair de casa. Tomei um banho e fiz a mala com todos os objectos importantes, incluindo o dossiê com as passagens transcritas de alguns dos livros. Nunca se sabe quando é a última vez que voltamos. Saí e fiz o percurso todo até ao fim da minha rua e não vi ninguém. Vários edifícios estavam destruídos. Havia buracos no chão e vários objectos espalhados, entre toalhas, papéis de vários tipos, restos de mobília, entre outras coisas que teriam sido projectadas ou abandonadas, incluindo partes dos meus antigos livros. Não vi cadáveres. No fundo da minha rua, onde existia um supermercado, vi as primeiras pessoas. Quando me viram acenaram imediatamente. Tinham uma cruz vermelha marcada nos braços. Depois olharam-me de alto a baixo, eu lavado, de andar exuberante — sentia-me bem —, com uma mala de viagem na mão sem qualquer arranhão. Perguntei qual era a situação da guerra nesse momento. Um jovem respondeu-me:

“Está perdido, senhor, eles agora aproximam-se por terra. Nós estamos a fazer os possíveis para resistir. Pelo menos para morrermos menos. Muitas pessoas estão presas à saída da cidade, outras conseguiram ainda sair. Acabámos de enterrar os últimos corpos que encontrámos do bombardeamento de ontem à noite e enterrámo-los ali, está a ver, no jardim. Esta zona da cidade é das mais afectadas. Pode juntar-se a nós se quiser e colaborar.”

“Só vim mesmo à procura de comida e depois quero voltar para casa”, respondi, apontando para o supermercado.

“Estão a distribuir algumas reservas lá dentro. Em casa tem lá os seus familiares?”

“Não. Estou sozinho.”

Sozinho: de repente senti que os olhos daquele jovem se fixavam em mim. Pareciam estar à espera que eu lhes mostrasse o meu pessimismo, a minha tristeza. Mas eu sorri o tempo todo. Era preciso uma guerra para sentir finalmente esta aproximação dos outros. Durante os dias aborrecidos da vida cruzamo-nos com pessoas que poderiam ser pontos de interesse, novas aventuras, mas ignoramo-nos por prudência, por sensibilidade. Os corpos estão ali tão perto quando nos sentamos numa carruagem de metro e sentimos o destino dessa pessoa cruzar-se com o nosso. Mas ignoramos essa possibilidade. E de repente esse jovem, que possivelmente me teria ignorado se me tivesse conhecido em circunstâncias pacíficas, digamos assim, olhava-me dessa forma tão intensa. Aquela simpatia súbita que eu tanto desejara durante os meus dias normais parecia-me de repente estranha. É a propagação do medo.

Quando entrei no supermercado vi muitas das prateleiras vazias. Como isto há uns dias atrás parecia impossível de acontecer. Nunca se pode duvidar que um supermercado tenha as prateleiras vazias.

Obtive algumas latas de atum e bolachas que um grupo de pessoas lá dentro distribuía. Depois de obter a comida, saí novamente para a rua.

 

Antes de voltar para casa fui dar uma volta pela cidade. Parecia que caminhava por um espaço novo, como se as ruínas, esses avisos violentos, fossem esculturas da humanidade em tempos de queda. Chegará o dia em que essa queda será irreversível, quando o ser humano passará a ser ele próprio uma escultura e quando o que um dia construímos se tornar o último sinal da nossa destruição. Seremos uma imagem às portas do infinito.

Sentei-me em cima de um pedaço de betão e abri a minha mala. Comecei a folhear o dossiê. Aquele dossiê era como o destilamento de ideias passadas, de obras humanas, dessas inclinações de inteligência, de tentativas, e eu o novo homem com a nova Bíblia. É a mensagem do novo futuro: talvez eu tivesse dito.

Depois continuei a caminhar por várias ruas que antes teria reconhecido imediatamente e que agora eram apenas locais novos. Alguns edifícios ainda estavam intactos, mas neste seu novo contexto, pareciam novidades. Não passassem as pessoas, com as quais eu me ia cruzando, tão tristes, ter-me-ia até sentido como um turista. Todos me lançavam um olhar novo, que eu nunca tinha visto, como se a humanidade pudesse, por vezes, inventar novos olhares. Mas talvez fosse apenas porque aquele olhar de desamparo ainda me era desconhecido. Vi pessoas à porta de casas, outras descansando em algum lugar que pudesse parecer confortável, mas poucas falavam e os movimentos eram moderados.

 

Quando estava quase a chegar a casa, um homem, de mão dada com uma criança, aproximou-se de mim. Perguntou-me se eu tinha comida. Ele e a criança estavam de olhos fixos na minha mala. Eu disse que sim. Retirei do saco de plástico um pacote de bolachas e uma lata de atum que dei àqueles dois esfomeados. Depois disse-lhes onde eles podiam obter mais comida. Mas o homem apontou para a esquina de um edifício e disse:

“A minha mulher está ali, com uma perna partida. Será que você sabe de algum lugar para onde podemos levá-la e onde nós os dois pudéssemos descansar? Temos estado na rua o tempo todo. Ficámos sem casa. Não ouviu que as tropas estão a caminho da cidade por terra?”

A minha casa estava ali a poucos metros de distância. Em silêncio, aproximei-me da mulher e pedi ao homem para me ajudar a levantá-la.

“Moro aqui perto. Vamos levá-la para lá.”

A cada passo na direcção do meu prédio, a mulher, transportada por nós, agradecia. Foi preciso pedir-lhe para que ela se calasse. Deitámo-la na minha cama. O homem depois disse:

“Não sei como agradecer-lhe, senhor. Você disse que estão a dar comida naquele supermercado? Eu vou lá agora com o garoto tentar obter mais alguma coisa. Fique de olho nela, por favor, enquanto nós estamos fora.”

Mas não tiveram tempo de voltar. Assim que saíram fiquei a conversar com a mulher. Depois de atirar a minha mala para um canto, perguntei-lhe se ela queria ouvir música.

“Há tanto tempo que não ouço.”

Liguei o meu sistema de som e levantei-me. Era música para dançar. Comecei a dançar comigo próprio, fitando a mulher desconhecida nos olhos. De repente, vi nela a minha velha amiga de outros tempos. No entanto, foi nesse momento que ouvi, vindo da rua um rumor de carros aproximando-se. Depois o bater de portas e vozes de comando numa língua estrangeira. A mulher, apesar da perna engessada, levantou-se, apoiando-se apenas com um pé. Foi até à janela e começou a chorar. Mas eu ainda dançava nesse momento e virei-me para ela sorrindo. Sem parar de dançar, disse-lhe que estava tudo bem, que eles já voltavam. Mas ela deixou-se cair no chão, chorava. Eu continuava dançando. Ela arrastou-se até à porta, colocou-se de joelhos e abriu-a. Parecia querer sair, como se se lançasse para o abismo.

Com a porta aberta para o átrio era possível ouvir claramente que os soldados tinham entrado no prédio. Sem parar de dançar, levantei-a e encostei-a a mim. Ela chorava, mas deixou-se pegar. Disse-lhe para se apoiar bem com a única perna que ela poderia mover e para se deixar arrastar por mim.

Talvez seguidos pela música que ecoava por todo o prédio eles subiram as escadas até ao meu apartamento. Foram os canos das armas que se deixaram ver primeiro. Observei-os de esguelha sem parar de dançar. Eu sabia que não já não valia a pena parar. Lá fora disparavam-se tiros. Depois os soldados entraram na minha casa e encostaram-se à parede. Durante alguns minutos ficaram a ver-nos dançar. Ela continuava a chorar, mas deixava-se guiar por mim, apoiada apenas numa perna.

Um dos soldados apontou-nos a arma. Não falou. Oscilava a arma apontada entre mim e ela. Por um momento pareceu-me que ela queria desistir, mas eu continuei a segurá-la e a embalá-la na dança. Depois o soldado baixou a arma e juntou-se aos outros que o acompanhavam, e que nos observavam encostados à parede. Por fim, voltaram para a porta e saíram.

Lá fora os disparos cessavam, mas a dança continuou mesmo já dentro do silêncio.

 

Foi assim a guerra. Meses mais tarde anunciaram o cessar fogo. Se tínhamos perdido? Não sei bem. Mas os tempos de paz estavam para voltar. Era urgente iniciar a minha preparação.

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