Ensaios e Resenhas

fevereiro 2012 / Ensaios e Resenhas / Ficções e outras histórias

Texto publicado na edição #107

Ficções e outras histórias

A matemática da formiga, de Daniela Beccaccia Versiani, discute sutilmente questões complexas da condição humana que, através da compulsão poética […]

> Por VILMA COSTA

A matemática da formiga, de Daniela Beccaccia Versiani, discute sutilmente questões complexas da condição humana que, através da compulsão poética e da fluência narrativa, acabam por exigir muita seriedade numa abordagem crítica. É dividido em três partes que dialogam entre si ou, ainda, ligam-se num presente narrativo quase linear. Por seu caráter fragmentado de diferentes discursos e focos narrativos, a caracterização de gênero literário a lhe ser atribuído é bastante dificultada.

Nesta linha, é despretensioso como a matemática das formigas que vai somando migalhas daqui, migalhas dali, até garantir alimento e vida para todo formigueiro. Nesta ambientação de um trabalho miúdo, picado, retalhado de microssubjetividades é que se estruturam e se organizam essas ficções. Portanto, é irrelevante se possuem condição de romance, apanhados de contos, confissões, confidências, depoimentos, impressões poéticas, digressões existenciais, realismo jornalísticos, cenas teatrais, fotogramas cinematográficos, rememorizações arcaicas, universo onírico dos sonhos ou dos delírios. É tudo isso.

A linguagem matemática é muito enfatizada no início do livro e vai se diluindo durante o percurso da narrativa, perdendo a presença explícita para dar lugar a sugestões implícitas. Nas primeiras páginas do texto ela salta aos olhos na voz autocentrada da personagem narradora. “Sexta-feira treze.” Ou “Naquela fração de segundos em que a Física aplicava a fórmula t = raiz quadrada de 2h/g, duvidei de Newton e temi que tudo o que habita a Terra decidisse ficar suspenso…” ou “Largo do Machado. Sobem 35. Descem 17. Sobem 49” E por aí se delongam as numerações e demais referências de cálculos da lida diária, na busca frenética do autoconhecimento e de identidades: “o número da carteira de trabalho, CIC, RG, carteira de motorista, endereço, telefone”. A matemática aqui se apresenta não como ciência, propriamente dita, capaz de resolução de qualquer problema, mas apenas como presença de um cotidiano que se desenrola dia a dia, segundo a segundo, na precisão de um tempo histórico que ameaça tragar cada ser vivente com o inexorável da vida, seu outro lado, o esquecimento, a morte. Contar histórias é contar os dias, os degraus dos edifícios, é somar e subtrair os vivos e os seus mortos que sobrevoam pela cidade da memória como se não fossem fantasmas.

Contradições e paradoxos
Parece que em determinado momento a linguagem matemática se dilui ou se justifica pela gramática do texto enquanto soma e combinatória de suas partes constitutivas. Fato é que para a narradora “a gramática já dava conta da teoria da relatividade muito antes de Einstein nascer”. Ao discutir o código lingüístico, Paul Ricoeur, em Teoria da interpretação, sublinha “o nível quase algébrico das capacidades combinatórias, implicadas por tais conjuntos de entidades discretas como sistemas fonológicos, lexicais e sintagmáticos”. Essas capacidades combinatórias são infinitas, articulam-se e potencializam-se quando se trata da construção de sentidos de uma dada mensagem ou texto. Assim o que promete precisão e objetividade pode tornar-se impreciso e relativizado pelas subjetividades que interagem e dialogam em suas contradições e paradoxos. É neste movimento que circulam os personagens do romance em suas aventuras, dores e esperanças.

Ainda no sumário do livro, entre parênteses, adiante do subtítulo Primeira parte, estão os prolegômenos, que segundo Aurélio Buarque trata-se de “[do gr. Prolegómena, ‘coisa que dizem antes’] 1. Exposição preliminar dos princípios gerais de uma ciência ou arte. 2. Introdução geral de uma obra. 3. Prefácio longo.

Nesses prolegômenos encontra-se a exposição preliminar dos princípios gerais que norteiam o projeto da narrativa, muitos dos quais parecem ficar perdidos pelo caminho e não conseguirem se viabilizar. É a introdução geral da obra, num prefácio que se alonga por todo um capítulo introdutório. Aqui são, em linhas gerais, apresentados os principais fatos, episódios, personagens e tipos que acometem a narrativa até o fim.

A epígrafe, ‘extraída’ da Mirmecologia Básica (volume I), além da referência matemática e do estudo das formigas, levanta considerações filosóficas, constrói alegorias da vida do minúsculo ser, ao mesmo tempo em que se apresenta como síntese do que se pretende narrar. Seria um prolegômeno eficaz, que dispensaria os demais, embutidos na primeira parte, se assim se pudesse caracterizar uma introdução tão breve.

O pingo escorrega pelo fio de alta tensão e na parte mais baixa do U, espera. Espera um, espera dois, espera três e quatro. Ao chegar do quarto pingo, caem todos juntos, e já não são mais cinco pingos. Uniram-se todos em um único pingão, gooordo e manso, que espoca feito uma bomba sobre a formiga desavisada que vai passando a caminho de casa. Uma em um milhão, seguindo a procissão. A formiga pára, conta até três, e retoma sua jornada secular, diligente e intrépida.

Cada narrativa que escorrega pelo fio de alta tensão da linguagem vai se acumulando na parte mais vulnerável que busca sentidos e espera por mais outra, por mais outra, por mais outra, nesse U que promete unidade. Mesmo quando esta não se viabiliza por inteiro, alimenta uma unicidade momentânea nesse acúmulo de ficções que pode espocar feito bomba sobre o leitor desavisado. É preciso muitas vezes parar, contar até três para retomar o caminho da leitura, que como o da escrita parece o trabalho da formiga, reunindo seletivas migalhas, misturando alho com bugalhos, de sentidos que se perdem, não pela falta, mas pelo excesso de possibilidades. Ainda se referindo à postura da formiga nas surpresas e sobressaltos do acidentado caminho percorrido, a epígrafe prossegue:

Não cogitou a possibilidade de uma conspiração de pingos. Nem lamenta seu infortúnio. Sabe que no microcosmo não se discute a lei das improbabilidades. Estado de vida ou morte é sistema binomial. E ponto final.

A lógica da formiga é simplificada, de aceitação frente ao que não é de sua alçada, não entra na paranóia de cogitar conspirações ou sentidos para o que não compreende ou acontece independentemente de sua vontade. Esta, entretanto, não é a marca registrada da maioria dos personagens. O ponto final nunca é dado em definitivo nestas ficções, elas se sucedem após fictícios pontos e vírgulas, para serem retomados mais adiante. O sistema binomial do estado de vida ou morte é questionado pelas ações de personagens que se deslocam no tempo e no espaço, na cidade concreta de cimento e aço e na imaginária de desejos, lembranças e letras. Cada uma dessas criaturas que protagonizam cada fragmento vivem na passagem, no limiar, no entre-lugar do discurso, entre a morte e a vida, entre a vida e morte, o que não é necessariamente a mesma coisa.

O mais contundente personagem é o próprio narrador, que como um contador de histórias vai recheando suas confidências e digressões poéticas com pequenas narrativas ao mesmo tempo interligadas entre si e independentes, como uma colcha de retalhos que se costura numa sintaxe irregular, mas segura de sua potência de legibilidade. Trata-se de uma mulher que caminha pela cidade, inicialmente, em busca de emprego, depois vai buscando lembranças, sentidos, identificações e identidades. Uma em um milhão, seguindo solitariamente a multidão. Carrega consigo uma história, lembranças e registros de diferentes tempos e lugares, numa banalidade que procura a despretensiosa categoria de singular, pelo percurso que vai seguindo.

Sobre paixões
O espaço urbano da cidade do Rio de Janeiro define o presente vivenciado pela narradora e alguns dos outros personagens que se esbarram em diferentes contextos e situações inusitadas, muitas vezes. “Como ia dizendo, estava parada no sinal, … quando vejo meu avô, aquele que está morto, passando vagaroso pela rua com seus óculos de lentes grossas, o olhar perdido no horizonte”. Como se um avô não bastasse, “em sua direção vem meu outro avô, aquele que está vivo”. Entre esses dois avôs, o vivo e o morto, cria-se uma discussão sobre paixões que cultuaram, dálias e bananeiras. Uns personagens têm algum envolvimento familiar com a protagonista, como o avô, a avó da avó, a avó, tias e suas histórias. Outros surgem dos encontros inesperados ou pelas ruas da cidade, ou pelas vielas da memória. Como é o caso de uma tal mulher em Ottawa, que volta e meia adentra o pensamento da personagem narradora: “Trinta minutos já se passaram. Penso na mulher em Ottawa. O telefone toca. A secretária atende”. Sobre a mulher em Ottawa, que não sai do pensamento e surge durante todo o livro, nada mais se sabe, a não ser que figura na lembrança como um pensamento remissivo à condição feminina no mundo.

A avó da avó toca com mãos trêmulas seu ombro para lembrar e ensinar o poder e a beleza dos lençóis brancos estendidos ao vento. Esta também resistia com teimosia à morte. “A avó da minha avó era tão mãe que não conseguia morrer. Por isso o médico afugentou os nove filhos, que se espalharam pelo arrozal como sementes prontas a germinar.” O passado e as referências à mãe que contava histórias da avó debruçada sobre os afazeres da cozinha a ligava a esse mundo doméstico e ancestral. Um velho, que não quer morrer sem antes ter pecado, empreende uma fuga do hospital, perambula pela cidade, vivendo aventuras e peripécias um tanto extravagantes para quem se despede da vida, para desespero dos filhos e parente. “A verdade é que eu acabara de presenciar um pequeno milagre: um homem enganara a morte.”

Todos os personagens se movimentam em diversas direções, sentidos, tempos e espaços, estão unidos pela voz narrativa que dá seu testemunho ou pela presença direta na ação, pela lembrança e delírio, ou por simples cogitação inventiva. De certa forma, a protagonista busca no outro, nas outras vidas alheias, sentidos para suas próprias dores e inquietações. Outro aspecto relevante que funciona como ponto aglutinador de tantos relatos e criaturas é a linguagem do corpo que se debate, que luta pela vida. “O corpo me trai. E a sua traição é covarde, desnecessária. Um tiro nas costas de alguém que já está morto. A via crucis do corpo. A via crucis do corpo.” É o corpo que grita, que ama, que odeia, que transpira, que menstrua, que sangra, que sonha. Enfim, que vivencia suas dores e mazelas, tentando driblar a morte, incontestavelmente vitoriosa. A única capaz de dar definitivamente um ponto final.

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Daniela Beccaccia Versiani

Nasceu em São Paulo, em 1967. É graduada em Ciências Sociais pela USP e Jornalismo pela Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero (SP). Fez o doutorado em Estudos de Literatura na PUC-Rio. É professora dos cursos de graduação, especialização e pós-graduação da PUC-Rio. É autora também de Três contos ilusionistas.

Estava de fato desesperada. Não queria deixar de acudir ao pai e oferecer conforto à mãe em momento tão delicado, mesmo certa de que seus irmãos lá estariam, sólidos como três colunas dóricas. Percebi nas entrelinhas de seu desconexo monólogo que dona Silvana vivia um momento de extrema provação, em que estavam em jogo as suas virtudes de filha diante de uma família que sempre a tomara por excessivamente frágil e dada a achaques.

Daniela Beccaccia Versiani_livro

Daniela Beccaccia Versiani
7Letras
105 págs.