Simetrias dissonantes

novembro 2016 / Simetrias dissonantes / Ficção fantástica: Notas de uma palestra para cronópios, famas e esperanças

Texto publicado na edição #199

Ficção fantástica: Notas de uma palestra para cronópios, famas e esperanças

Dois modos opostos de pensar a realidade e a ficção: o realismo fragmentário de Memórias sentimentais de João Miramar e […]

> Por NELSON DE OLIVEIRA

Ilustração: Dê Almeida

Ilustração: Dê Almeida

Dois modos opostos de pensar a realidade e a ficção: o realismo fragmentário de Memórias sentimentais de João Miramar e a fantasia mitológica de Macunaíma.

Na juventude, eu me identificava mais com a ficção cubista de Oswald de Andrade. Na maturidade, identifico-me mais com a ficção fantástica de Mario de Andrade.

A maior parte dos comentaristas de Macunaíma puxa rapidamente a análise da rapsódia para o debate sobre a identidade nacional e o patrimônio cultural brasileiro. Esse papo nacionalista nunca me interessou.

Prefiro ler a rapsódia como a primeira grande realização de um escritor brasileiro na tradição universal da ficção fantástica erudita.

Antes dos contos fantásticos de Murilo Rubião e José J. Veiga, antes do realismo mágico de Borges, Rulfo, Cortázar e García Márquez os personagens amazônicos de Mario de Andrade já subvertiam as leis da natureza, muito de acordo com a dinâmica onírica dos mitos indígenas e africanos, e dos contos folclóricos daqui e de fora.

A avenida sul-americana da ficção fantástica foi inaugurada por esse herói negro com corpo de homem e cabeça de criança, que vira branco ao se banhar em água encantada, durante a viagem até a Paulicéia Desvairada a fim de recuperar sua inestimável muiraquitã.

Dos seis autores citados acima, o único ganhador do prêmio Nobel — o colombiano García Márquez — é quem compartilha com o nosso Mario de Andrade certa caraterística pouco comentada pelos especialistas, mas bastante apreciada pelos leitores: o afeto sísmico. Ou, se preferirem, a doçura endêmica.

Fiz a experiência: li paralelamente Macunaíma e Cem anos de solidão e percebi não só a mesma estrutura episódico-novelesca — as duas narrativas são constituídas de uma longa sucessão de histórias curtas — mas também a mesma doçura na construção de personagens afetuosos. Nada escapa dessa atmosfera delicada. Até as cenas mais violentas — estupro, assassinato — são atravessadas pela ternura de um narrador compassivo.

(José J. Veiga e Cortázar também sabem seduzir e aprisionar o leitor numa ambientação meiga e amável, mas num grau um pouco menor.)

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A ficção fantástica apresenta ao menos duas características, dois ingredientes fundamentais que, reunidos, diferenciam esse gênero dos demais gêneros literários: a subversão das leis da natureza e a inflexão filosófica.

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Quatro narrativas curtas bastante pedagógicas: A metamorfose (Kafka, 1915), O curioso caso de Benjamin Button (Fitzgerald, 1922), A biblioteca de Babel (Borges, 1944) e Carta a uma senhorita em Paris (Cortázar, 1951).

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A primeira característica fundamental da ficção fantástica é a subversão das leis da natureza.

No mundo oferecido pela ficção fantástica a causalidade, a força da gravidade, a biologia, a geologia, a atmosfera, enfim, o tempo, o movimento planetário, os minerais, as plantas e os animais, as pessoas e as estações do ano funcionam total ou parcialmente de modo estranho. Tudo o que se comporta de determinada maneira em nosso mundo, tudo o que nos é familiar, no mundo da ficção fantástica comporta-se de modo excêntrico, não familiar.

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A segunda característica fundamental da ficção fantástica é a inflexão filosófica.

Num conto, numa novela ou num romance fantásticos, tudo gira em torno da mais pura reflexão ontológica, existencial, não contaminada por argumentos teológicos ou científicos. Essa é a única intenção do autor.

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Gêneros próximos da ficção fantástica são a ficção sobrenatural e a ficção científica.

Em ambas, as leis da natureza são idênticas às da realidade do leitor. A causalidade, a força da gravidade, a biologia, a geologia, a atmosfera, enfim, as regras gerais são as mesmas que conhecemos e seguimos em nosso mundo. Mas essas regras podem ser subvertidas total ou parcialmente por meio da magia ou da tecnologia.

Na ficção sobrenatural e na ficção científica é a vontade humana, alienígena ou divina que subverte, geralmente num espaço restrito, as familiares leis da natureza, e fazem isso por meio de feitiços ou máquinas.

Além disso, na ficção sobrenatural, a inflexão é sempre místico-religiosa, afinal há sempre um deus ou um grupo de deuses ou de seres metafísicos manipulando metodicamente nossa familiar realidade.

E na ficção científica, a inflexão é sempre científica e tecnológica, afinal há sempre um cientista ou um grupo de cientistas e engenheiros manipulando metodicamente nossa familiar realidade.

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Na ficção sobrenatural, o autor deseja provocar no leitor a sensação de medo e horror.

Na ficção fantástica e na ficção científica, o autor deseja provocar no leitor a sensação de maravilhoso.

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Mais quatro narrativas curtas bastante pedagógicas: Teleco, o coelhinho (Murilo Rubião, 1965), A caçada (Lygia Fagundes Telles, 1970), O arquivo (Victor Giudice, 1972) e Quando a Terra era redonda (José J. Veiga, 1980).

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Subversão das leis da natureza e inflexão filosófica, esses são os dois ingredientes fundamentais que, reunidos, diferenciam a ficção fantástica dos demais gêneros literários.

Em todo o resto, a ficção fantástica compartilha as mesmas características e exige o mesmo talento autoral que a ficção realista, e por ficção realista entendo qualquer conto, novela ou romance em que as leis da natureza são as mesmas do mundo do leitor. Sendo assim, a diferença entre a boa e a má ficção fantástica fundamenta-se no mesmo pressuposto que determina a diferença entre a boa e a má ficção realista.

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Mas as peças literárias de todos os gêneros já catalogados, sempre é bom lembrar, raramente apresentam a pureza receitada pelo programa poético a que pertencem. Na literatura, do mesmo modo que na vida, o hibridismo é a regra.

A inexistência de fronteiras claras e absolutas explica por que a maior parte das ficções fantásticas apresentam tênues elementos da ficção sobrenatural ou científica, e vice-versa.

Na hora de classificar uma ficção curta ou longa, é preciso identificar quais elementos pesam mais no texto, ou seja, qual foi a real intenção do autor, qual a unidade de efeito (Poe): expressar uma ideia metafísica, científica ou filosófica.

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Um escritor é sempre classificado pelo conjunto de sua obra. Se ao longo de sua carreira ele escreveu muitos tipos de texto literário, em prosa e verso, mas foi mais bem-sucedido escrevendo ficção fantástica, ele naturalmente será considerado um autor de ficção fantástica, mesmo que tenha produzido muito mais poemas, ensaios e crônicas, por exemplo.

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A intensidade do fantástico não é diretamente proporcional ao espaço que a subversão das leis da natureza ocupa num texto. Essa intensidade depende apenas da potência da sensação de maravilhoso experimentada pelo leitor.

Não é necessário que numa narrativa curta ou longa o elemento fantástico se manifeste o tempo todo, ou que seja o conflito principal da trama.

Numa narrativa qualquer, a cena ou a intervenção do fantástico pode ser breve, e geralmente é. Sendo potente, essa rápida manifestação do fantástico logo contaminará as muitas páginas realistas, alterando sua substância.

Essa manifestação não será o conflito principal da trama, mas será o gatilho que gerará esse conflito: a quebra da rotina, a dificuldade dos personagens em se adaptar à nova situação.

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Onde fica a clássica teoria de Tzvetan Todorov nessa história toda?

Na gaveta.

Baseada no conceito de hesitação fantástica, a definição de Todorov, apresentada no livro Introdução à literatura fantástica, de 1970, não faz sentido quando o assunto é A metamorfose e as outras narrativas citadas.

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