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maio 2018 / Rodapé / Feliz ano novo, de Rubem Fonseca

Texto publicado na edição #217

Feliz ano novo, de Rubem Fonseca

Muita impiedade, e mesmo sarcasmo, por parte dos assaltantes

> Por RINALDO DE FERNANDES

Feliz ano novo é a história de um assalto, praticado por três indivíduos, a uma mansão da Zona Sul do Rio de Janeiro. Durante o assalto, cujas vítimas são 25 pessoas, há estupros e assassinatos. E muita impiedade, e mesmo sarcasmo, por parte dos assaltantes, que são o narrador, Pereba e Zequinha. O mais cruel deles é o narrador, que inclusive toma a frente da ação. É ele quem mata friamente o senhor Maurício, um dos convivas (“atirei bem no meio do peito dele, esvaziando os dois canos, aquele tremendo trovão”). É o narrador quem se entusiasma com a forma como Zequinha mata um outro conviva (“um cara magrinho, de cabelos compridos”), utilizando a bizarra técnica de, com o disparo de uma carabina doze, “grudar” o corpo da vítima contra uma porta (“O cara voou, os pés saíram do chão, foi bonito…”). Esse narrador é dotado de ironias, de deboches. Exemplo: “…tinha comida que dava para alimentar o presídio inteiro”. Outro exemplo: “Seu Maurício, quer fazer o favor de chegar perto da parede?// Ele se encostou na parede// Encostado não, não, uns dois metros de distância. Mais um pouquinho para cá. Aí. Muito obrigado. // Atirei bem no meio do peito dele…”. Mais um exemplo: “[para as vítimas do assalto] nós não passávamos de três moscas no açucareiro”). No conto, a ironia do narrador para com os “bacanas” é reflexo das relações de classes. O narrador e os dois outros assaltantes (e deixam isso bem marcado na narrativa) entendem que sofrem dois tipos de enquadramento: o da sociedade, que lhes sonega direitos (o direito de comer é um deles, pois estão famintos na noite de réveillon e não pretendem, conforme Pereba, comer “frango de macumba com farofa”), e o da polícia, que os cerca e extermina seus comparsas (“Os homens não tão brincando, viu o que fizeram com o Bom Crioulo? Dezesseis tiros no quengo.”). Os marginais repõem em circuito a violência que recebem da sociedade e da polícia. Nesse sentido, e embora não se possa apagar uma outra leitura, a violência configurada no conto tem raiz marcadamente social. A impiedade tem mão dupla: é dos bandidos e é também da sociedade (e do seu aparelho armado: a polícia). A vontade de ascensão social do narrador fica bem caracterizada nesse diálogo com Zequinha, já no final do conto: “Este edifício está mesmo fudido, disse Zequinha, enquanto subíamos, com o material, pelas escadas imundas e arrebentadas.// Fudido mas é Zona Sul, perto da praia. Tás querendo que eu vá morar em Nilópolis?”. Ou seja, o narrador não se vê como alguém de uma região periférica, da Baixada Fluminense, se projeta para perto e/ou se identifica com as pessoas de posse da Zona Sul. Quer o modo de vida dessas pessoas. Por isso parte para arrancar delas os bens que não lhe cabem, pelo desenho das classes.

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