Ensaios e Resenhas

janeiro 2018 / Ensaios e Resenhas / Felicidade possível

Texto publicado na edição #213

Felicidade possível

"Gostar de ostras" mostra a transformação profunda de seus personagens numa época de mudanças abruptas

> Por FABIO SILVESTRE CARDOSO

Bernardo Ajzenberg, autor de Gostar de ostras.

Bernardo Ajzenberg, autor de Gostar de ostras.

A vida de Jorge não poderia ser mais prosaica. Jornalista, ele trabalha em uma publicação segmentada. Ao contrário do que acontece com os profissionais que estão na grande imprensa, a sua rotina segue sempre o mesmo compasso. Ele tem o controle de todas as ações, sem sobressaltos. Jorge tem consciência disso e parece apreciar a segurança das certezas. Só que a narrativa de Gostar de ostras, novo romance de Bernardo Ajzenberg, se caracteriza exatamente porque demonstra como e quando o mundo de Jorge sai dos eixos. E, a partir do momento em que isso começa a acontecer, ele parece mais curioso do que incomodado com tudo que está por se transformar.

Sim, tudo estava no seu lugar exato. Trabalho, hábitos e mesmo os relacionamentos com as pessoas ao redor pareciam regidos sob a batida de um metrônomo imaginário. Até que um casal de franceses, Marcel e Rachelyne Durcan, se muda para o seu prédio. A história, que se passa em São Paulo, tem início a partir desse momento. Assim, ao mesmo tempo em que o leitor descobre os detalhes e as motivações da jornada rígida e ordinária de Jorge, ganha força a presença do casal estrangeiro, que passa a mudar por completo os hábitos contritos do rapaz, que, apesar de jovem, se comporta como alguém que fora desenganado para a vida, enquanto os franceses do seu condomínio vivem o intenso agora. É claro que existe uma razão para o contraste entre esses personagens. De igual modo, à medida que a história avança, Jorge, Marcel e Rachelyne se revelam, fugindo aos papéis definitivos que uma eventual previsibilidade de conduta poderia neles estabelecer.

Assim, o primeiro plano de Gostar de ostras traz o instante em que as vidas desses três personagens se encontram numa prosa que concede ao leitor a versão dos acontecimentos a partir da observação privilegiada de Jorge, o narrador, que, no final do livro, agradece ao colega jornalista Bernardo Ajzenberg pela ajuda na tradução de uma carta em francês escrita por Rachelyne. Alguém poderia aqui estabelecer conexões diversas no campo do estilo narrativo, afinal, o jornalista Bernardo Ajzenberg é, sim, um tradutor conhecido, tendo se especializado na versão de textos de francês para o português em obras literárias. Talvez, este exercício de superinterpretação aqui fosse exagerado. Ajzenberg não está para Jorge assim como Zuckerman está para os personagens de Philip Roth. As intervenções que ocorrem no romance têm uma dimensão muito mais curta, sobretudo porque o narrador parece resignado diante de sua condição, ora se movendo pela inércia dos sentimentos, ora deixando-se levar adiante pelas palavras e ideias de Marcel.

Com efeito, há um tom de melancolia em Jorge, uma pessoa que, se não chega a ser contaminado por completo pela prostração, é, sim, marcada pela ideia de inadequação, ou, por outra, de não pertencer a nenhum lugar. Em Gostar de ostras, a vida desse jornalista, que relata como a sua própria história foi impactada pelos vizinhos que se tornaram seus amigos, é, a princípio, pontuada por uma amargura em estado permanente, uma tristeza que parece não ter fim.

A felicidade, no entanto, é mais simples do que parece. E Jorge a descobre aos poucos e dela vai se aproximando pelas beiradas. Em certa medida, ele se torna o fiel escudeiro de Marcel, um senhor que poderia ser seu pai, mas que na verdade é só um estrangeiro que aparentemente deseja viver integralmente os seus dias. Para dar cabo a essa empreitada, o jornalista é não só uma espécie de guia turístico informal, mas também uma figura que sai do seu casulo, que redescobre o prazer de participar de alguma coisa.

Com efeito, existem ao menos dois momentos na narrativa em que essa questão se apresenta de maneira notável. Para falar desse primeiro momento, é preciso, aqui, retomar um pouco dos dramas de Jorge. Sua vida afetiva e sexual está nada menos que estagnada. Apesar de ser jovem, solteiro e desimpedido, ele não consegue mais se envolver com ninguém e, no limite, teme ter perdido a libido — esta, a propósito, pode ser entendida como a chave para o enigma desse personagem: graças à falta de equilíbrio, sua vida obedece a um procedimento padrão. Como em outras ocasiões na história, Marcel parece ter a solução:

Ficar só no trabalho intelectual automático sem necessidade de criar nada de concreto pode ser muito frustrante, Jorginho. Isso vale para você, que é jornalista, trabalha só com a cabeça. É tudo intangível demais, você entende?

Considerações incômodas
Já o segundo momento acontece da metade para frente do romance. Exatamente no instante em que parece ter recuperado um pouco desse joie de vivre, ele decide participar, ao lado de uma colega de trabalho, Mariana, de uma das manifestações das Jornadas de Junho. Estupefato, Jorge vê os acontecimentos ao seu redor e parece em transe: bestificado, percebe que há muita gente reunida, mas com uma pauta difusa, que não obedece à hierarquia ou a qualquer tipo de agenda política mais consciente. Cabe tudo naquele caldeirão. Embora estivesse animado a ponto de participar daquele evento, ele não deixa de apresentar considerações incômodas acerca do que assiste:

Devo dizer que desde o começo eu sentira algo esquisito no ar: era um ajuntamento muito heterogêneo, grupos maiores ou menores puxando palavras de ordem muito diferenciadas. Como quem fosse de esquerda se sentisse em uma manifestação de esquerda e quem fosse de direita se sentisse em uma manifestação de direita. Uma união estapafúrdia. Desejos etéreos, como um amontoado nebuloso de segundas intenções sendo trocadas no ar, por cima da união física, cegamente. Era uma fauna geneticamente cheia de enxertos, me parecia, embora também saltasse aos olhos, mesmo para um leigo em política ou sociologia como eu, o fato de que estávamos diante de algo estrondoso, importante, histórico, pendendo não sei para qual lado.

Dito de outro modo, Gostar de ostras oferece, lateralmente, um olhar desencantado daquelas manifestações, mostrando, assim, que nem sempre a postura desconfiada em relação ao mundo significa covardia. Jorge não tem paixões políticas, assim como não faz grandes elaborações; todavia, ele sabe que alguma coisa se quebrou. E que aquela movimentação tinha tudo para não terminar bem. É uma crítica sutil, mas que mostra não só a habilidade do autor em estabelecer um episódio marcante na história recente como pano de fundo, como também propõe uma observação aguda sem que esta seja uma reflexão professoral sobre o assunto.

O ponto alto da história, no entanto, tem a ver com a descoberta de Jorge do motivo de toda a movimentação e inquietude do casal francês. É sobretudo a partir das conversas com Marcel que Jorge entende, enfim, o quanto os traumas podem ser absorvidos e processados de maneiras distintas e, à medida que a narrativa caminha para o fim, Jorge reconhece que a idealização acerca do casal Durcan pode não dar conta de todos os acontecimentos ao passo que a sua própria existência passa a ter um novo sentido — e isso está totalmente relacionado com o fato de que o namoro de Jorge com Mariana, uma colega do trabalho, se torna real. Cherchez la femme, eles dizem.

Ocorre que romance de Bernardo Ajzenberg está longe de ser um thriller, ainda que algumas passagens do romance façam alusão a um mistério que os personagens queiram deixar escondido. Em vez disso, Gostar de ostras se destaca porque mostra, com narrativa marcada pela delicadeza, a transformação profunda de seus personagens numa época de mudanças abruptas. Tal estrutura só é possível graças ao estilo da prosa de Ajzenberg, que, de forma singular, (re)constrói como Jorge e o casal Durcan vivem. Não há dúvida de que o contraste de perspectivas dessas pessoas envolve o leitor de maneira singular, em especial porque o desfecho da história é um indicador que mesmo as angústias que não são nomeadas podem ser, sim, ressignificadas a partir da conversa e do contato com o diferente (e aqui o leitor há de descobrir a chave do título), dinâmicas essas que só as amizades genuínas são capazes de provocar.

 

 

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Gostar de ostras
Bernardo Ajzenberg
Rocco
191 págs.

 

O AUTOR
Bernardo Ajzenberg
É jornalista, escritor e tradutor. É autor, entre outros, de Olhos secos (2009), finalista do prêmio Portugal Telecom de Literatura; Duas novelas (2011); e Minha vida sem banho (2014), obra que recebeu prêmio Casa de las Américas. Vive em São Paulo (SP).

 

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