Ensaios e Resenhas

dezembro 2011 / Ensaios e Resenhas / Feito cicatriz

Texto publicado na edição #124

Feito cicatriz

  Não há como superarmos totalmente as perdas — de pessoas, de coisas, do que tínhamos, do que éramos. As […]

> Por ANDREA RIBEIRO

 

João Anzanello Carrascoza por Ramon Muniz

Não há como superarmos totalmente as perdas — de pessoas, de coisas, do que tínhamos, do que éramos. As marcas que elas deixam são fundas, não desaparecem. Ficam lá as cicatrizes, em alto-relevo. Podemos nos distrair um pouco, fingir que elas não estão ali. Mas há momentos em que nos pegamos olhando. Fixamente. Dolorosamente. As perdas são, sim, espinhos em nossa vida.

E é sobre perdas o livro Espinhos e alfinetes, do paulista João Anzanello Carrascoza. Sobre esses momentos agudos e doídos. Cada página provoca uma cicatriz. Algumas mais largas, quase vivas, outras mais sutis, transparentes. Mas que estão lá, nos 11 contos selecionados a dedo, não se pode negar. Algumas das histórias chegam a dar frio no peito, tanta é a tristeza que carregam. Mas são bonitas, bem escritas, as palavras pensadas, sonoras.

O conto inicial, Espinho, já fere e desnorteia o leitor. O menino narrador conta de seu amor e respeito pelo irmão mais velho, aquele que o ensinava a ver o mundo, aquele que o acompanhava por uma terra pontuada de morros e capins. “Mas, como se soubesse mais de mim do que eu, André estava ali, para me ajudar. Eu via maior se ele estivesse perto.” Tudo corria como deveria ser. O mais novo seguindo os passos do mais velho. Mas… ah, os espinhos! Eles sempre aparecem. No caso do menino deste conto, apareceram cedo e grandes demais. Serão responsáveis por uma daquelas cicatrizes largas.

Feridas grossas têm também o menino protagonista de Coração, que aguarda ansioso as férias de verão, e o homem que se vê sozinho com o filho pequeno, em Alfinete. Ambos perdem suas referências, seus rumos. Precisam lidar, de uma hora para outra, com o vazio e com a dor. Também é assim, e muito mais profundamente, em Mar. Aqui, Carrascoza faz com que o leitor mergulhe no sofrimento, sem pausa para respirar. Numa narrativa em fôlego único, o pai conta do filho querido, que ama o sol, a água e o sal. E de sua perda. “Nossa, como cresceu, o meu menino, tão longos os seus braços, o brinco na orelha, a tatuagem na perna, a prancha comprida, preta, de especialista, Deus, o quanto se aprende e nem se percebe, enquanto a vida, a vida, só passados uns trechos .”

Quase todos os contos têm a infância e a família como pano de fundo. É ali, naquele momento em que a vida deixa de ser tão colorida, tão grandiosa e despreocupada, que moram os espinhos. A transformação pela qual todos passamos, ou vamos passar. O amadurecimento, esse alfinete que espeta nossos sonhos e nos gruda à fria realidade. “Ouviu, então, a voz da mãe, Estamos aqui!, e a do pai, Atrás de você! Lá estavam os dois, sentados num banco. A menina respirou fundo: queria crescer, ser suficiente para si, como eles. Mas ia doer. Já doía (retirado do conto Sol)”.

Além da época de criança e, por conseqüência, da passagem do tempo (esse que “não nos deixa perceber seu acontecimento”), o respeito às palavras também é um dos elos que ligam os textos de Carrascoza. As narrativas são quase poemas. E é uma homenagem a elas, as palavras, o barro com o qual trabalha o escritor, o conto Adão. O menino perdeu a mãe e, depois disso, passou a cantar para espantar a solidão. Cantava palavras cujos significados desconhecia. Como “boemia”, por exemplo. Mas “se era uma palavra, e se palavra era, não podia ser maior que seu entendimento”.

Para terminar, Só uma corrida, conto em que um taxista divaga ao levar um homem ao aeroporto e funciona como um resumo de todos os outros que Carrascoza contou até ali. O passageiro chora. Por quê? Perdeu alguém — o pai, a mãe, um irmão, um filho? E a memória do taxista voa. Ele reconhece nas possíveis histórias do homem que vai para Congonhas as suas próprias. Porque, embora nem sempre repare, estão todas lá. Marcadas em seu corpo, feito cicatrizes.

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JOÃO ANZANELLO CARRASCOZA

Joao Carrascoza

Publicou os livros de contos O vaso azul, Duas tardes, Dias raros e O volume do silêncio, além de obras infanto-juvenis. Dos prêmios que recebeu, destacam-se o Guimarães Rosa/Radio France Internationale e o Jabuti. Em 2009, participou do programa de escritores residentes do Château Lavigny (Suíça), onde terminou de escrever Espinhos e alfinetes. Além de escritor, Carrascoza é redator de propaganda e professor universitário.

A lua despontava no céu. Adão rumou para casa, olhos nas alturas, pensativo. Lua, palavra tão curta para conter aquela grandeza que levitava sobre a sua cabeça. A palavra-lua, só pensada, era pura escuridão, enquanto a palavra-lua, dita, ganhava a beleza luminosa da coisa que designava e, melhor, a palavra-lua, na música, ganhava o sol da voz.

Joao_Anzanello_Carrascoza_Espinhos e alfinetes_124

João Anzanello Carrascoza
Record
110 págs.