Dom Casmurro

fevereiro 2012 / Dom Casmurro / Fausto Amadigi

Texto publicado na edição #142

Fausto Amadigi

Contos de Fausto Amadigi

> Por FAUSTO AMADIGI

Ilustrações: Theo Szcepanski

O CAPACHO DO 414
No capacho em frente à porta está escrito: “Seja bem-vindo à república independente da minha casa”. Apesar da amabilidade da mensagem, bem sei que o vizinho não me convidaria para entrar. São seis da tarde, horário de depositar o lixo no contêiner próximo à escada, no outro extremo do corredor. O corredor estreito e comprido tem exatamente dez portas numeradas de quatrocentos e onze a quatrocentos e vinte, cinco à direita e outras cinco à esquerda. Naturalmente, cada número corresponde a um morador. De ponta a ponta estende-se um tapete verde desbotado e sujo que percorro com vinte e seis passos. Com as sacolas de lixo na mão, detenho-me no passo de número dezessete, em frente ao apartamento quatrocentos e quatorze, o único da fileira de portas com capacho e mensagem de boas-vindas. Foi apenas este detalhe que me levou a cogitar a possibilidade de fazer uma visita ao vizinho. Reflito um instante e considero minha impulsiva intenção completamente fora de propósito: oras! bem sei que o vizinho não me convidaria para entrar. De qualquer modo, antes de seguir os nove passos restantes até o contêiner de lixo, limpo o calçado no capacho de boas vindas do 414.

UM PASSEIO
Paga pelo serviço e não tem nenhum parentesco com a jovem que empurra a cadeira de rodas. O passeio de meia hora, três vezes por semana, custa ao velho meio salário mínimo por mês. Calado e frágil, nos últimos anos seu único prazer é esquentar o corpo ao sol, ver o tráfego, ouvir o barulho turbulento da rua. Gosta de fazer sempre o mesmo trajeto, ela já sabe. Os primeiros minutos passam rápidos descendo do sexto andar, superando com ajuda do porteiro as escadas da entrada do edifício, cruzando cautelosamente a faixa de pedestres, desviando aqui e ali de alguma bosta de cachorro, rodando pela calçada de cimento até o jardim onde estão as árvores. Superado o percurso, estaciona com cuidado a cadeira de rodas ao lado do banco em que senta. Assim estarão os dois a compartilhar os próximos minutos do passeio: ele, instalado e taciturno, mirando os brotos das rosas; ela, apressada, o relógio.

O VENDEDOR DE BANDEIROLAS
Juan é hondurenho e vive em Madri há quase um ano. Faz parte da legião de estrangeiros ilegais no país. Não tem documentos de imigração, não tem trabalho regular, não tem benefícios sociais. Para sobreviver, compra artigos em lojas chinesas e revende na rua e nos bares. Leva na bolsa a tiracolo óculos luminosos, colares extravagantes de plástico colorido, isqueiros, máscaras e flores. Sua jornada começa às seis da tarde, quando os que saem do trabalho lotam os bares do centro, e segue até cessar o movimento da rua.

Por esses dias, aproveitando a Copa do Mundo, Juan passou a vender exclusivamente um produto de ocasião: bandeirolas da seleção espanhola. As vendas aumentaram consideravelmente, em especial nos dias de jogo.

Hoje Juan começa uma nova jornada. Entra cauteloso no bar lotado de torcedores. Todos estão em silêncio e olham na mesma direção, concentrados na imagem e no som da tela pendurada na parede. Circula pelo balcão e entre as mesas oferecendo o produto. É metade do primeiro tempo, Espanha marca um a zero contra Honduras. A torcida do bar grita, aplaude, brinda com cerveja. Juan olha por um momento quase estático o replay do gol em câmera lenta. Saca as bandeirolas da bolsa e põe na cara um sorriso simpático de vendedor. Agita as bandeiras com entusiasmo emprestado e vibra meio desbotado um vermelho-amarelo que não lhe pertence, pensando que os gols da Espanha podem ser bons para o negócio.

Não há ninguém na rua quando Juan sai do bar, relativamente satisfeito, com a bolsa quase vazia e a noite ganha.

ESTAÇÃO CERCEDILLA
Chego caminhando à Estação Cercedilla. Há um velho sentado no único banco livre junto à plataforma. Olha o calor que sobe dos trilhos. Ao seu lado, uma sacola com plantas. O velho e a sacola ocupam quase todo o banco. Peço licença, ele abre espaço escorregando para o lado. Sento à esquerda, na ponta. Sinto o cheiro que vem das profundezas do seu sobretudo preto, emanações de vários dias sem banho. Tem a expressão murcha das plantas que carrega na sacola e certo desamparo. É uma árvore antiga que caiu sem raízes; um espelho fosco passivamente absorvendo a luz com suas roupas escuras. Tira um lenço usado do bolso, limpa o nariz, guarda o lenço. Simula um gesto com as mãos, como se tocasse flauta, e assovia algo molhado entre os dentes que faltam na boca. Repete os mesmos movimentos várias vezes, obsessivamente. O trem apita longe, o metal dos trilhos chia antecipando a entrada na estação, as luzes piscam, as portas abrem. Embarco com outros poucos passageiros. Sento numa poltrona vazia num vagão vazio e olho o velho pela janela. Continua no banco acompanhado da sacola, mãos fechadas entre as pernas. O velho não espera o trem, espera algo muito mais remoto.

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