Ensaios e Resenhas

janeiro 2018 / Ensaios e Resenhas / Fauna triste

Texto publicado na edição #213

Fauna triste

Luiz Costa Lima faz de "Melancolia" um livro multigenérico, de poética, ciências humanas e filosofia

> Por RAFAEL ZACCA

Luiz Costa Lima, autor de Melancolia.

Luiz Costa Lima, autor de Melancolia.

Muito já se disse de um vínculo possível entre melancolia e capitalismo. O controle e a homogeneização do tempo (no trabalho e no consumo) e a ampliação dos sistemas de crédito e débito sobre todas as esferas da vida (tanto a social quanto a psíquica, se é que ainda cabe alguma separação) radicalizam, em quantidade e em intensidade, os estados melancólicos. Se os curtos-circuitos históricos se produzissem de maneira puramente verbal, poderíamos, diante da constatação do fracasso do capitalismo, que seguimos ignorando, dizer que o desânimo hiperbólico de nossa época é fruto de uma relação diretamente proporcional entre extração de mais-valor e produção de bile negra.

A teoria da melancolia como um excesso de bile negra no organismo, uma bile outonal, dos velhos, em contraposição à bile amarela dos jovens e do verão, é atribuída a Hipócrates. Essa teoria localiza no corpo biológico a melancolia, estabelecendo, portanto, um local para a sua realização com o desequilíbrio dos humores. Desde então, parece mesmo que as teorias sobre a melancolia disputam a localização deste desequilíbrio, e, com isso, também o seu sentido. Freud, por exemplo, localiza a melancolia não na psique do indivíduo em sofrimento, mas na disfunção temporal entre objeto perdido e aquele que o sente, na sombra do objeto que cai sobre o eu. Com Melancolia, Luiz Costa Lima propõe mais um deslocamento na história do conceito:

A melancolia encontra seu locus, na ficção verbal e plástica (para não falar em toda a arte); explicitamente, no como se, em que, na expressão, não se submetendo à alternativa do verdadeiro ou do falso, domina a diferença.

A formulação é quase freudiana, mas propõe um salto do “estado melancólico” para a “melancolia ficcionada”. Tenha-se em mente que Luiz Costa Lima distingue a ficção da mentira: a ficção ocupa um lugar entre o real e o imaginário, e tem por função testar os limites do constituído. Nesse sentido, a melancolia ficcionada tem por função testar os limites do real harmônico, não-melancólico. E se a melancolia é uma desaceleração do tempo, diante da ideologia do progresso que caracteriza a temporalidade capitalista, com a sua aceleração desenfreada das forças produtivas, ela é também um teste das bordas desse modo de produção da vida. A plastificação de um tempo desacelerado é como que uma desnaturalização da própria natureza do tempo tal qual o conhecemos. Tais ficções, mesmo as supostamente realistas, ganham certa semelhança, portanto, com aqueles animais do Trauerspiel, tristes e bizarros em meio a uma natureza sombria e desarmônica. A melancolia assim colocada reinforma o real com tudo aquilo que excluímos na tentativa de atribuir sentido e “normalidade” ao que vivenciamos.

Nada, para Costa Lima, no entanto, indica uma relação direta entre o estado melancólico e a produção artística. Não obstante, o autor se serve do exame da vida e da obra de certos escritores, e, para isso, opera uma importante distinção naqueles em que se verifica, conforme o diagnóstico desde Hipócrates, “o medo ou a distimia (desânimo ou prostração) prolongada”, duas inclinações da melancolia: ou o mundo desconforme do melancólico pode movê-lo para longe dele, na perda de sentido, ou essa perda de sentido pode fazê-lo “sentir o que, no mundo, o converte em adverso”. É no segundo caso que o autor identifica a “sensibilidade que conduz à arte”. Novamente, a relação entre o estado melancólico de um autor não é diretamente relacionada à produção artística; o que propõe Costa Lima é que o estado melancólico, na arte, é convertido em princípio formal, independentemente de a personalidade que engendrou a forma ter sido de fato uma melancólica. Melancolia não é um mero compêndio de abordagens que tematizam o desequilíbrio; nas palavras do crítico, “a aproximação de que trata todo o livro não significa que a melancolia seja expressa e diretamente tematizada”.

Antropologia
O livro é dividido em duas seções. A primeira, mais geral, não se reduz à exposição da história de como o estado melancólico foi abordado ao longo dos séculos, desde Hipócrates até as formulações psicanalíticas, mas também propõe uma teoria para a relação entre a melancolia e as formas artísticas, assim como fundamenta a sua possibilidade de cristalização como princípio formal das obras. Luiz Costa Lima apresenta o seu gesto com modéstia, mas o passo pequeno esconde outro mais ambicioso. Apesar de não o dizer explicitamente, o livro é também a fundamentação de uma antropologia, na medida em que expõe o ser humano como carente, e, portanto, com certa inclinação mais ou menos grave para a melancolia.

Para Luiz Costa Lima, o ser humano é um animal desobrigado de sua própria realidade; em outras palavras, um nômade que explora o irreal. E estabelece um tripé conceitual composto por carência, melancolia e sensibilidade: o ser humano é um animal a quem falta alguma coisa (e a tese é acolhida a partir de Herder), e por isso o seu círculo melancólico das funções pode se tornar livre para a reflexividade, o que o libera para as ficções. Teoria dos gêneros artísticos e teoria do gênero humano, Melancolia é um livro multigenérico, de poética e de ciências humanas, mas também de filosofia. Não é à toa que o fim da primeira seção discute os caminhos que, no Ocidente, a palavra mítica tomou, na tragédia, na religião e na filosofia. Toda essa seção pode ser resumida a seu último parágrafo:

A relação apontada entre a melancolia e arte, de que trate apenas pelas modalidades literária e plástica, implica, portanto, que a carência própria da espécie provoca, em todo homem, uma inclinação mais branda ou mais grave, para o estado melancólico, que encontra na arte, seu “princípio formal” (Földényi, 2012) de expressão.

A segunda seção se esforça por explicitar a “relevância desempenhada pela experiência da melancolia na ficção ocidental” a partir de dois escritores tomados como arquétipos opostos e complementares: Franz Kafka e Samuel Beckett. De maior interessante para leigos e estudiosos será o método empregado: Costa Lima analisa tanto as vidas quanto as obras de Kafka e Beckett, de modo a tentar perceber como certos momentos factuais se “desgarram” da vida que lhes deu origem “e dela se autonomiza[m]”. Na parte sobre Kafka, esse método é fundamentado da seguinte forma: o “processo de desgarre [de certos eventos biográficos] será decisivo contra a tendência psicologizante frequente entre seus intérpretes [de Kafka] e, do ponto de vista sociológico, para evitar a tendência, não menos rasteira e presente, de não compreender a tomada de posição quanto à modernidade que nela se afirmava”. Trata-se, portanto, de um método que parte da vida dos autores, e não que as utiliza como argumento final de explicação de suas obras. Em outras palavras, a vida de Kafka e Beckett aparecem como elementos problemáticos, não-naturais, diante de suas ficções.

Assim compreendida, a literatura se torna menos o tesouro ocidental que objeto maldito de sua sorte. Frequentemente compreendida como a fauna alegre da civilização, a rica biodiversidade na qual podemos realizar incursões, como num safari, ela é aqui compreendida como um coletivo desanimado, desprovido de ânima, e, portanto, fundamentalmente antinatural. É claro que essa melancolia ficcionada não se distancia muito daquela biológico-psicológica: também conhece seus estados maníacos. A metamorfose e Fim de jogo são, de certa forma, testemunho e resultado desse processo.

Conquanto Melancolia tenha forte apelo cosmopolita, a modernidade capitalista nos homogeneíza a todos; o livro é de interesse geral (insinua-se, no entanto, aqui, uma pergunta simples, mas não de pequenas consequências: são os mesmos, os bichos melancólicos ao sul do Equador?).

 

 

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Melancolia
Luiz Costa Lima
Unesp
367 págs.

O AUTOR
Luiz Costa Lima
Nasceu em São Luís (MA), em 1937. É professor da PUC-Rio e crítico. Publicou Mimesis e modernidade, Vida e mimesis, O controle do imaginário e a afirmação do romance e Frestas: a teorização em um país periférico.

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