Sob a pele das palavras

novembro 2019 / Sob a pele das palavras / Fascismo self-service, de Luiza Romão

Texto publicado na edição #235

Fascismo self-service, de Luiza Romão

A variação métrica diz bem da força, do ritmo, da batida que dá o tom do poema

> Por WILBERTH SALGUEIRO

vocês que almoçam ao meu lado
talvez não saibam
mas a alguns metros daqui
uma garota teve uma
suástica riscada na nuca

e dias atrás
um capoeirista foi morto a facadas
talvez saibam
e por isso
fingem satisfação
enquanto comem o canapé de damasco
eu
tenho comido pouco
invejo a destreza com que
manejam os talheres
e limpam a faca no guardanapo de pano
de que adianta descrever a violência
se tudo parece irrisório
se o anúncio da morte não causa calafrios
ou um fio de preocupação

vocês que almoçam ao meu lado
falam de corrupção e futuros melhores
enquanto o ar
pouco a pouco
se corrompe
eu
tenho respirado com dificuldade
talvez não esteja mais aqui
quando pedirem o cafezinho
e distraidamente passarem o cartão
“débito, por favor”
é preciso ter estômago

VOCÊS QUE ALMOÇAM AO MEU LADO
TALVEZ NÃO SAIBAM
MAS O SANGUE QUE SUJA SEUS PRATOS
NÃO É SÓ O DO BOI

Este poema de Luiza Romão encerra o volume Antifa (2019), da Coleção Slam, organizada por Emerson Alcalde. No prefácio, Cynthia Agra lista alguns aspectos do poetry slam (“batida de poesia”): “trata-se de uma nova poesia escrita por jovens, negros, da periferia, ativistas políticos, participantes de coletivos, pessoas ligadas ao movimento hip-hop, a manifestações feministas, enfim, uma nova geração política”. De forma intensa, no Brasil e no mundo, as batalhas vêm ganhando visibilidade e legitimidade como manifestação de poesia & arte. Na batalha, o elemento da performance é fundamental, constitutivo, e por isso mesmo a nota biográfica da poeta ao fim do volume já traz de imediato: “atriz, poeta e slammer”. O poema performatizado, quando se torna palavra na página, carrega toda a força oralizante original. Força que se amplifica na perspectiva politicamente militante e poeticamente crítica que caracteriza essa produção, que, ademais, tem levado a lírica a lugares e pessoas aos quais poemas e livros de poemas talvez jamais chegassem com tamanho vigor e impacto.

A variação métrica (com versos de uma a doze sílabas) diz bem da força, do ritmo, da batida que dá o tom do poema, que deixa de lado artificiosos enjambements em prol da altura e da precisão da fala, que quer alcançar e seduzir o ouvinte-espectador. Tal variação — de métrica na página, ou de pausa, cadência e altura na fala — não faz do conjunto algo disperso, pois há uma história sendo tramada nos versos: alguém (“eu”) observa outros (“vocês”) em um almoço, e essa situação leva a reflexões acerca de conflitos sociais que envolvem atitudes de indiferença, fingimento e cinismo da parte de quem “maneja os talheres” e “passa o cartão”. Entre “eu” e “vocês” ocorre uma nítida assimetria de postura e condição, que pode ser sintetizada em conhecida expressão: luta de classes.

Embora partilhe de um mesmo espaço, já que o inimigo “almoça ao meu lado”, a voz (poeta, artista, intelectual, militante, mulher, negra) incorpora e expressa uma dimensão crítica, bem distante ideológica, social e filosoficamente dos vizinhos de almoço. Enquanto estes se locupletam de “canapés de damasco” (termo que, ao se referir a petisco não popular, e algo dispensável e excessivo, confirma a classe financeiramente elitizada desse “vocês”), a poeta diz que “tenho comido pouco”, distinguindo-se assim dos vorazes vizinhos; enquanto o grande grupo chamado “vocês” fala de corrupção, sempre como algo alheio, a poeta percebe que o próprio ar se corrompe, se contamina da falsidade demagógica dos abastados convivas, e em tal condição a poeta, cada vez mais constrangida, “tem respirado com dificuldade”.

É nítido o desconforto, é nítida a revolta desse “eu” que, com escrachada ambivalência, detona: “é preciso ter estômago”, referindo-se literalmente ao estômago devorador de canapés, bois e cafezinhos, e figuradamente ao sentido proverbial de ter paciência, de ter resignação diante de situações injuriosas e ofensivas. Mas a estrofe final deflagra o fim da paciência da observação, da ponderação, da reflexão, dando lugar à denúncia, à acusação, ao conflito, ao enfrentamento. A caixa alta do poema na edição de Antifa insinua alteração no tom da voz que performa a indignação: “VOCÊS QUE ALMOÇAM AO MEU LADO/ TALVEZ NÃO SAIBAM/ MAS O SANGUE QUE SUJA SEUS PRATOS/ NÃO É SÓ O DO BOI”.

Na verdade, o fim da paciência e o tom indignado já estavam desde o início anunciados. O título, Fascismo self-service, antecipa que haverá algo da ordem do corporativismo que exclui, do desprezo pela alteridade, da indiferença pela justiça. A referência aos recentíssimos casos de uma jovem de Porto Alegre, que denunciou ter tido o corpo riscado por uma suástica, e do capoeirista Moa do Katendê, assassinado covardemente por ter divergido de um simpatizante do atual presidente, mostra o contexto de extrema-direita que grassa, sem pudor, pelo Brasil. Em tal contexto, não é gratuita a imagem da “destreza com que/ [vocês] manejam os talheres/ e limpam a faca no guardanapo de pano”. Faca que provavelmente se suja no sangue do boi abatido para o almoço de “vocês”. Mas a estrofe-sprint final esclarece que este sangue no prato NÃO É SÓ O DO BOI, mas o da garota da suástica, de Moa, de Marielle, de tantos que não almoçam, de muitos outros que sucumbem e sucumbiram diante da violência que alimenta fascistas adeptos da força bruta, de armas como símbolo político, avessos a direitos humanos.

Heloisa Buarque de Hollanda, no prefácio ao excepcional livro Sangria (2017) de Luiza Romão, diz do “momento tenso, urgente, no qual ‘cordialidade é folclore’, como avisa a poeta explicitamente determinada em mostrar ‘a história a contrapelo’”. A epígrafe do primeiro livro de Luiza, Coquetel motolove (2014), traz um trecho de Eduardo Galeano: “o sistema, que não dá de comer, tampouco dá de amar: condena muitos à fome de pão e muitos mais à fome de abraços”. A sangria alegorizada no almoço de Fascismo self-service encontra eco na fome literal dos que não almoçam e na fome simbólica do afeto que falta. Neste poema e em praticamente todos os outros de Luiza Romão, a pegada é ativista, é engajada, é benjaminiana, é a contrapelo: a arte não deve se conformar nem ser cúmplice de fingimentos e distrações de fascistas que se servem de canapés, facas, guardanapos, bois, cafezinhos, cartões, enquanto ignoram e exploram aqueles mesmos que, por acumulada opressão ao longo da história, são relegados a apenas servirem, dóceis e pacíficos, na maior parte das vezes sem nem sequer terem a consciência do lugar de subserviência que ocupam.

O poema explicita, contudo, que, dali mesmo onde o boi morto no prato inscreve a culpa de uma calamitosa situação de desigualdade, violência e injustiça, pode vir a voz da dissonância, da revolta, da vingança. Em seu poema no livro Golpe: antologia-manifesto, Luiza diz, aludindo a manipulados paneleiros e a falsos milagres econômicos, como que antecipando os versos de Fascismo self-service: “entenda:/ sua panela de teflon não conhece a/ fome/ seu milagre faz crescer o bolo/ mas não multiplica os pães”. Tendo “comido pouco” e “respirado com dificuldade”, ainda assim (ou por isso mesmo) a poeta sente e pensa que já não tem estômago que aguente tamanha hipocrisia. De fato, cordialidade é folclore: não há jeitinho, não há conversa, não há negociação ou conciliação que harmonize ou pacifique tanto conflito entre “vocês” e “nós” (plural/coletivo que o singular “eu”, no poema, representa). Na Escala F (de Fascismo), para recordar estudo de Adorno e equipe sobre a personalidade autoritária, o Brasil é um país que vai pra frente, infelizmente (ver poema Dia 1. Nome completo, de Sangria).

Felizmente, contudo, existe arte, resistência, militância, ativismo, gente que põe a palavra (falada, cantada, escrita) a serviço da batalha, da luta, da classe, do pensamento, da vida. Se “toda ação principia mesmo é por uma palavra pensada, que vai rompendo rumo”, como registrou Rosa em seu romance, vamos juntos, com a palavra-bacurau de Luiza Romão, romper (com) a violência fascista que tem sujado de sangue os pratos e a história do nosso país.

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