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junho 2020 / Entrevistas / Fascínio e terror

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Fascínio e terror

O carioca Thiago Camelo, autor de "Descalço nos trópicos sobre pedras portuguesas", revela os meandros de seu trabalho e como enxerga o momento atual do Brasil e do mundo

> Por MÁRWIO CÂMARA

O poeta Thiago Camelo, autor de Descalço nos trópicos sob pedras portuguesas.

O poeta Thiago Camelo, autor de Descalço nos trópicos sob pedras portuguesas.

O poeta carioca Thiago Camelo é oriundo de uma família de músicos. Embora não tenha seguido a mesma carreira, descobriu na poesia sua verdadeira vocação como artista. Irmão do cantor e compositor Marcelo Camelo, o jovem prefere manter uma discreta interação nas redes sociais, assim como em eventos públicos ligados à literatura.

Formado em Comunicação e Cinema na PUC-RJ, estreou na poesia com o minimalista Verão em Botafogo (7Letras, 2010), afinando a sua métrica em A ilha é ela mesma (Moça Editora, 2015). Em 2017, lançou o prosaico Descalço nos trópicos sob pedras portuguesas (Editora Nós), que ganhou ainda uma edição em Portugal. Neste último trabalho, nota-se o amadurecimento de Camelo, que não se autodefine completamente um poeta, mas como sendo alguém que trabalha com a escrita. De lá para cá, vem se debruçando na feitura de seu primeiro romance, ainda sem data definida para publicação.

Em entrevista ao Rascunho, o autor fala sobre seus principais interesses estéticos, a parceria com o irmão músico, o atual momento do país e o novo projeto de maior fôlego.

• Como surgiu a organização dos poemas de Descalço nos trópicos sobre pedras portuguesas?
Tento nunca me repetir, de modo a descobrir se consigo ou não criar algo novo (para mim). Depois do Verão em Botafogo, um livro de poemas curtos, influenciado pela poesia japonesa, com textos invariavelmente sobre o amor, fiz A ilha é ela mesma, de poemas um pouco maiores e de caráter mais filosófico, condizente com o que eu estava lendo na época — escritores que falavam da relação entre o corpo, o ambiente e a consciência. O expoente entre esses escritores talvez seja o Alva Noë. Depois da Ilha, fiquei por alguns meses perdido, pensando se ainda tinha algo a dizer por meio da poesia ou se já era o momento de tentar a prosa. Sempre flertei com a prosa e inclusive sou leitor mais assíduo de romances. Não é que eu conceitue muito meus livros antes de escrevê-los. O que faço conscientemente é buscar outras formas de olhar o mundo. Quando você olha o mundo de outra forma a sua escrita muda; quando sua escrita muda, você olha o mundo de outra forma. Ao menos é assim comigo. Nessa busca acabei esbarrando com autores de escrita mais caudalosa, isto é, autores que não se importam com o mínimo, com o corte, com a essência; ao contrário, eles pecam pelo excesso, deixam rastros, não se preocupam em hierarquizar os assuntos. Comecei a olhar a vida um pouco desse modo. Hiperdescrevendo tudo na minha cabeça. Redimensionando a ideia do que é, de fato, um detalhe. Subvertendo inclusive a importância que damos a certos detalhes em detrimento de outros. Isso também dialoga com certa corrente do cinema e da música, com os tempos dilatados dos filmes do Warhol, as elipses afetivas do Jonas Mekas ou as repetições hipnóticas das músicas do Satie. Isso também tem a ver com a distração. Como seria escrever poemas de muitas páginas, para serem lidos desatentamente ou, ao menos, sem compromisso com a atenção? Será que eu seria capaz de fazer isso? Dar a chance, como acontece em certas músicas e em certos filmes, de se entrar no livro e sair dele. Levar tudo isso em consideração e escrever. Será que eu conseguiria? Foi o que tentei com Descalço nos trópicos sobre pedras portuguesas. Sou atraído por distrações, por vaivéns, pelo que não é constante, assíduo e regular  —  quando isso funciona na arte, acho mágico e mais próximo da vida.

• Lendo Descalço nos trópicos sobre pedras portuguesas, tenho a impressão de um aspecto discursivo que se dirige a uma poética quase que completamente de tom prosaico. Não se trata bem de um eu lírico explicitando estados de espírito, mas querendo, de fato, contar uma história, cenas cotidianas, semelhante a um texto em prosa. Aliás, é uma característica bastante presente na produção da poesia brasileira contemporânea. Pode falar um pouco sobre esse estilo?
De fato li, na mesma época em que saiu meu livro, outros livros de poesia com esse espírito caudaloso. Especialmente Pé do ouvido, da Alice Sant’Anna, do qual gosto bastante. Mas para mim foi uma grande coincidência, e não saberia realmente fazer um recorte geracional ou algo do gênero. Até porque acho que a característica em comum de nossos livros é o fato de o poema ser longo. Não acho a forma parecida, muito menos a temática. Mas no fundo sou um leitor mediano de poesia. Escrevo como que por acaso. Calhou de ser o formato que mais contemplou minha vontade de expressão até agora. Poderia ser um grito, um passo de dança, um chute no gol. No meu caso, tento me valer de certas ferramentas da poesia no texto, pois senão seria prosa em linhas quebradas, o que nego. Há ritmo, alguma métrica e um tipo de elipse que apenas a poesia me oferece. Além do fato, ainda misterioso para mim, que só na poesia certos assuntos não são constrangidos pelo ridículo.

“Gostaria de estar mais otimista, mas nenhum argumento me salva do pessimismo extremo a respeito do país.”

• Na sua estreia na poesia, com Verão em Botafogo, seus versos são trabalhados de forma bastante sintética, diferentemente da estrutura do segundo livro, A ilha é ela mesma, e, sobretudo, do atual. Como enxerga o início da sua carreira como poeta relacionado com o que tem produzido atualmente?
Para mim é difícil olhar a minha própria vida em retrospecto. Ao mesmo tempo que não enxergo nenhuma diferença, nenhuma mesmo, entre certos sentimentos que tinha quando criança e os que tenho agora, ou seja, me enxergo como a mesma pessoa de sempre desde sempre, percebo também mudanças tão significativas que não seria estranho mudar de nome, uma vez que pouco em mim se refere a quem já fui. Esta última percepção, a da alteridade, pode ser tanto em relação à infância quanto, não sei bem, ao mês passado. Acho que esse caráter da vida íntima, sermos e não sermos o que já fomos, transborda na obra, e a obra passa a servir como marco tanto de uma continuidade quanto de uma contradição de nós mesmos. É claro que há, como disse anteriormente, um desejo voluntário de não se repetir, de experimentar algo novo. Contudo, essa postura é mais consciente; não tem a ver, creio, com a sua pergunta. Por último: tendo a não pensar na carreira de escritor sob o prisma da linha evolutiva — do ruim para o médio, do médio para o bom, do bom para o ótimo. Tem mais a ver com camadas que ora se misturam, ora se separam, ora se sobrepõem perfeitamente, ora se sobrepõem caoticamente. Às vezes damos um passo para a frente, às vezes basta um passo para o lado. E por aí vai.

• Existe uma ideia de que poesia não vende e de que se trata de uma produção literária pouco lucrativa para as editoras. O trabalho do poeta hoje é menos valorizado do que o do prosador? Por que a poesia tem perdido esse prestígio entre o público de massa?
A crise ética, financeira e estética no mercado editorial é tão profunda e complexa que fica difícil fazer qualquer análise sem antes considerar esse fator. Ou fatores. Porque é uma série. Eu realmente não sei. Posso falar com mais clareza da época em que vivemos agora. A poesia parece algo de nicho, lido quase tão somente pelos próprios poetas, em grupos fechados em si, pessoas que se conhecem há muitos anos, salvo exceções. Alguns são mais receptivos que outros. Mas é possível que isso aconteça na prosa também. Como não tenho interesse em participar de nenhum desses grupos, nem de poesia nem de prosa, realmente não saberia falar mais a respeito.

• Como surge a poesia em sua vida?
Como disse, foi a forma como primeiro consegui descansar essa vontade de expressão. Às vezes, acho que isso, vontade de expressão, é mais uma necessidade ensandecida de arejar o inconsciente, mudar os parâmetros de abstração. Do contrário pareço adoecer. Talvez as letras de música — Caetano, Chico, Noel, Nelson Cavaquinho — tenham sido uma porta de entrada? Ou minha tendência a associações dispersivas? Quando vi o que escrevia tinha mais a ver com poesia. Estava constrangido àquele formato. Mas poderia tranquilamente não ser poesia. Foi mais natural do que pensado.

• Existe alguma disciplina ou rotina diária para escrever?
Eu mudo a rotina de acordo com o livro. E também, claro, de acordo com o tempo livre, porque preciso ganhar dinheiro de outras formas para poder escrever. Mas, ainda que dedicasse toda minha energia para escrita criativa, ou seja, para os meus livros, acho que aplicaria fórmula análoga. Demorei muitos anos para escrever A ilha, que é um livro com poucos poemas — fiz um trabalho árduo e diário de corte. Queria “a palavra certa”, nem mais nem menos. Descalço, bem maior, escrevi mais rapidamente. Em menos de um ano. Com um mergulho mais dedicado no final, quando tinha mais tempo livre. Em todos os meus livros escrevi à noite, mais de madrugada. Podia até dormir pela manhã, se fosse o caso. Hoje escrevo durante o dia até o começo da madrugada. De madrugada eu durmo, para variar. Inverter as horas é uma mudança consciente — e sinto alguma mudança, sim, na forma de escrever por causa disso.

• Qual seu sentimento diante do cenário da nossa atual sociedade brasileira? Para onde estamos indo?
Gostaria de estar mais otimista, mas nenhum argumento me salva do pessimismo extremo a respeito do país. Nem o fato de sermos uma democracia jovem, nem o fato de que os acontecimentos são cíclicos, nem o fato de que do asfalto pode nascer uma rosa, nada disso me conforta. Sem análises políticas muito profundas, porque há pessoas mais bem preparadas que eu para falar sobre isso: acho que nossa democracia sofreu vários golpes, de modo que não sabemos mais onde de fato estamos agora. E é fundamental termos todos a exata noção do lugar em que se encontra a democracia. Democracia é liberdade, e liberdade é civilizatória. Hoje tenho convicção de que não sabemos onde estamos. E a ideia de quem abisma o país é mesmo esta: desinformar, afastar, assustar e confundir. Até perdemos de vista o que antes nos era óbvio — tudo aquilo que já tínhamos construído.

“Com a pandemia, enxergamos perigo e esperança no que está postado fora de nós.”

• Como foi fazer uma parceria com o seu irmão, o músico Marcelo Camelo? Conte-nos sobre esse lado musical.
Sim. Fizemos Espelho d’água, música que a Gal Costa gravou. É a única parceria que tenho com meu irmão. Somos muito amigos, mas não calhou de fazer outras músicas com ele. Ele é músico e letrista, e eu sou apenas letrista, não sei tocar nada. É natural que ele, como autor, queira fazer as próprias letras. Ele tem pouquíssimas parcerias. Apesar de não saber tocar nada e ser arrítmico — não sei sequer batucar —, por alguma razão inexplicável entendo na música a métrica, o compasso, a cadência, então tenho alguma facilidade em pegar uma melodia e colocar letra. É o que em geral eu faço na maioria dos casos. Nem saberia dizer se já fiz ao contrário, dei uma letra para alguém musicar. Já fiz música com uma turma de quem gosto bastante, como o Momo (Marcelo Frota) e o Fernando Temporão. Além, é claro, do meu irmão. Fazer letra é ótimo e, para mim, bastante diferente de poesia. Eu não me preocupo com métrica em poesia, e sim com ritmo, cadência. Na música é muito importante a métrica. Na poesia, não rimo. Na música não vejo problema. Além disso, a música tem os instrumentos, os espaços entre os instrumentos, uma história toda que se conta por meio deles, sem o canto e a letra, e isso tem que ser levado em consideração: a letra, às vezes, pode ser apenas uma neblina, algo que dialogue com o clima maior da música. Trabalhar com esse nível de abstração é incrível.

• Pode falar um pouco sobre o romance que está escrevendo?
Estou escrevendo há dois anos. Tem a ver com fazer algo diferente, como disse acima. Nos últimos tempos tem sido difícil manter uma rotina. Doenças familiares e agora o vírus me tiraram o eixo e a concentração, além da tranquilidade. Ando muito ansioso, e ansiedade me paralisa. É uma história comum: uma família no antes, durante e depois de uma tragédia com um de seus membros. É uma história bastante pesada, então o maior desafio é equilibrar as ações e escrever com alguma empatia pelo leitor, pelos personagens e por mim mesmo. Dar alguma graça e lirismo à tragédia, sem fugir contudo do caos que assolou aquele núcleo familiar. É meu primeiro romance, tive bastante dificuldade em encontrar a voz do narrador. Não queria que fosse em primeira pessoa por diversas razões, entre as quais o desafio de escrever em outra voz. Encontrei um meio do caminho que não é exatamente original, mas me satisfez. Voltei a escrever. Pretendo terminar até o fim deste primeiro semestre.

• Como foi a receptividade de seu último trabalho literário em Portugal?
Bastante legal. Já fiz dois lançamentos em Portugal, embora nenhum dos meus livros tenha sido editado por lá. Tenho relação estreita com o país. Meu pai é português, minha sobrinha é portuguesa, eu já morei lá em 2011 e meu irmão ainda mora. O lançamento de Descalço tinha mais gente desconhecida do que amigos, o que para mim já parece muito bom. Os portugueses têm uma solenidade durante o lançamento que para mim é um pouco desesperadora mas, de certo modo, divertida: por mais informal que você se proponha a ser, é necessário que alguém apresente o livro e o autor. A Lia Pereira, jornalista portuguesa que admiro bastante, discorreu sobre o livro e me apresentou de modo bastante generoso. Fiquei envaidecido. Às vezes, converso na internet com alguém que esbarra com o meu livro em algum sebo de Lisboa. Sempre é uma boa troca. Sinto que a cada livro e lançamento edifico uma pequena ponte com Portugal.

• Como enxerga o momento que estamos vivendo com a pandemia do novo coronavírus?
Pessoalmente é desesperador. Tenho familiar idoso em quimioterapia, ou seja, alguém que entra duas vezes na fila do grupo de risco. Não ajuda muito ser um brasileiro lidando com esse desgoverno. Sei que dificilmente sairemos disso em menos de dois anos, quando provavelmente haverá vacina. Até lá, pelo que os especialistas dizem, sairemos de quarentenas e entraremos em quarentenas. Leio muitos textos, na minha visão apressados, sobre o efeito da doença nas pessoas e na sociedade quando tudo passar. De pessoas que entendem que as relações físicas vão mudar a pessoas que entendem que o mundo passará a discutir com mais veemência certas questões de bem-estar social, educação a distância, etc. Confesso que a maior parte dos textos que leio tem um grau de otimismo que eu não tenho. Talvez por sobrevivência queiram crer que isso é uma lição da natureza ou algo do tipo, e que a humanidade vai sair mais humilde e mais unida dessa. Não saberia dizer o que vai ser. Tudo é muito novo e incipiente. Para não ser tão chato e apocalíptico, li algo interessante em algum lugar: o vírus fez com que os nossos corpos trancafiados se expandissem em direção a outros corpos, sejam estes animados ou inanimados — pessoas ou objetos. Com a pandemia, enxergamos perigo e esperança no que está postado fora de nós. O que está distante pode estar contaminado ou pode nos salvar. Outro dia levei meu pai ao hospital e senti essa dubiedade o tempo todo, quase como se estivesse diluído no ambiente. Cuidava de mim e dos outros como se fosse um astronauta inexperiente. A minha vida e a vida do meu pai dependiam não apenas de mim e dele mas também da ação dos outros ao redor. A ação mais banal, como inspirar ar puro ou expirar o vírus. E o inverso também valia: os outros deveriam cuidar tanto de si quanto de mim e do meu pai, e também nos temer. E no meio disso tudo as coisas, cadeiras, maçanetas, máscaras, tudo cintilando em nossa direção. Foi uma sensação terrível, mas fascinante. São tempos terríveis e fascinantes.

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