Dom Casmurro

dezembro 2019 / Dom Casmurro / Fanny Howe

Texto publicado na edição #236

Fanny Howe

Seis poemas de Fanny Howe

> Por Fanny Howe

Tradução e seleção: André Caramuru Aubert

2011

On the last bus from Dublin to Limerick
Raindrops pelted the landscape
And held little photos
Of aluminium crutches in each drop
Rolling over the glass.
These were buildings built
On phony loans that bankrupted
The country. Pharmaceuticals
And cheap hospital
Industry styles and ghost estates.
There were only two people on the bus
Plus the driver and a baby
In a cradle shaped like a quiver.
Everywhere I look, my thoughts grow wild.

2011

No último ônibus de Dublin para Limerick
Pingos de chuva marcavam a paisagem
E formavam pequenas fotos
De muletas de alumínio, em cada gota
Que escorria pelo vidro.
Aqueles prédios foram erguidos
Com empréstimos fraudulentos que faliram
O país. Corporações farmacêuticas
E hospitais vagabundos
Estilo industrial e propriedades assombradas.
Só havia duas pessoas no ônibus
Além do motorista e um bebê
Num berço em forma de saco.
Tudo o que eu olhava me enfurecia.

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Alas

For you, what is happiness?

Black tiles and slant
of ribbed clouds.

A child’s rainbow
with a house under it.

Clothes in the washer
clapping all night.

Ah

Pra você, o que é felicidade?

Ladrilhos pretos e nuvens enrugadas
meio inclinadas.

Um arco-íris infantil
com uma casinha embaixo.

Roupas na máquina de lavar
batendo palmas a noite inteira.

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Forty Days – # 7

Was in the month of Mary
That I lost my desire to pray.
It seeped away like yellow
Until it was as blurred as sorrow.
It was me passing on my hope to a solo:
God became weak and subtle.
Birdsong was my last communion:
The chirp of karma, the caw of eros,
Piercing delirium, the laugh of the futile,
A sacred heart with wings,
Fruit of the whistle,
The lyrics of the sparrow.

Quarenta dias – parte 7

Era o mês de Maria
Quando perdi meu desejo de rezar.
Foi-se embora como um covarde
Até que ficasse tão turvo quanto a tristeza.
Era eu, passando da fé para a solidão:
Deus se tornou sutil e fraco.
O canto dos pássaros foi minha derradeira comunhão:
O gorjeio do karma, o grasnar de eros,
O delírio penetrante, o riso dos fúteis,
Um coração sagrado e alado,
Fruto dos assobios,
As canções do pardal.

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Introduction to the World – # 1

I’d speak if I wasn’t afraid of inhaling
A memory I want to forget
Like I trusted the world which wasn’t mine
The hollyhock in the tall vase is wide awake
And feelings are only overcome by fleeing
To their opposite. Moisture and dirt
Have entered the space between threshold and floor
A lot is my estimate when I step on it
Sorrow can be a home to stand on so
And see far to: another earth, a place I might know
Uma introdução ao mundo – Parte 1

Eu falaria, não fosse pelo medo de inalar
Uma lembrança que prefiro esquecer
Como quando acreditei num mundo que não era meu
O gerânio, no vaso comprido, bem alerta
Sentimentos que só superamos ao fugirmos
Para o oposto deles. Umidade e sujeira
Penetraram no vão entre a soleira e o piso
Muito disso é impressão minha enquanto adentro
A tristeza pode ser um lar onde se poderia ficar e, então
Olhar para longe: uma outra terra, um lugar que eu talvez conheça

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Q – # 2

One black wing was blowing down the road

(Rain-washed road)

In the old days horses wearing green shoes
would trot on that grass

Our caravan has sought a remedy for memory
by moving over the same path

Q – Parte 2

Uma asa negra ventando pela estrada

(Estrada lavada pela chuva)

Nos tempos antigos os cavalos, com ferraduras verdes
teriam trotado naquele pasto

Nossa caravana buscou uma cura para a memória
ao trilhar os mesmos caminhos

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Poem from a Single Pallet – # 3

But I, too, want to be a poet
to erase from my days
confusion & poverty
fictions & a sharp tongue

To sing again
with the tones of adolescence
demanding vengeance
against my enemies, with words
clear & austere

To end this tumultuous quest
for reasonable solutions
to situations mysterious & sore

To have the height to view
myself as I view others
with lenience & love

Poema de uma só palheta – Parte 3

Mas eu, também, quero ser poeta
para apagar de meus dias
a confusão & a miséria
as ficções & a língua afiada

Para cantar novamente
com um timbre adolescente
clamando por vingança
contra meus inimigos, com palavras
claras & austeras

Para acabar com essa busca desordenada
por soluções racionais
para situações misteriosas & doloridas

Para ter a estatura e conseguir ver
a mim mesma, como vejo os outros
com indulgência & amor

 

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