Ensaios e Resenhas

dezembro 2011 / Ensaios e Resenhas / Falta de gênio

Texto publicado na edição #121

Falta de gênio

Janela indiscreta é um livro que fica aquém da versão cinematográfica de Alfred Hitchcock. Geralmente o que acontece é que […]

> Por ROBERTA ÁVILA

Janela indiscreta é um livro que fica aquém da versão cinematográfica de Alfred Hitchcock. Geralmente o que acontece é que o filme não dá conta de todo os detalhes e significados de um livro, mas Hitchcock não só dá conta de todo o conto que abre o livro como acrescenta a ele a personagem da namorada de Hal Jeffries, que não existe no original. Dessa forma, ele criou um novo substrato para a história, que ficou muito mais complexa e interessante nas telas.

A grande sacada de Hitchcock com relação ao conto que inspirou o filme com certeza não foi a escolha da história em si, todos os contos do livro são interessantes, cheios de suspense e movimento, mas “Janela indiscreta” com certeza é o que mais demanda do espectador que fique atento às descrições das cenas, que no livro podem ficar um pouco caóticas, mas na tela ficam muito mais simples de explicar. No entanto, se Hitchcock escolheu “Janela indiscreta” em detrimento dos outros quatro contos, com certeza não foi para representar a totalidade da obra de Cornell Woolrich, mas para fazer uso do que ele viu de bom ali sem ficar preso a uma prestação de contas em relação ao original.

Tanto em “Post-mortem” quanto em “Impulso” e em “Três horas”, os contos são povoados por assassinos frios e loucos, tornando clara a visão de Woolrich de que a morte e a violência não vêm do desconhecido, mas do rotineiro e conhecido, daquilo que parece ser seguro e acaba revelando uma face podre quando menos se espera, tendo como motivo uma banalidade, que não chega nem a ser um motivo.

Já “Homicídio trocado” é uma história em que o vilão sairia redimido se não fosse pelo seu azar, que o faz ser pego justamente pelo único crime que escolheu não cometer. Mas não é só por isso que torcemos pelo bandido, na verdade essa é uma constante nas histórias do livro. Tirando “Janela indiscreta”, em que há uma polarização entre o assassino e o cara que quer desvendar o assassinato, nas outras histórias o mergulho na mente do assassino, que é também o narrador e guia a trama, faz com que tenhamos pena, torçamos para que ele escape, deixando o senso de justiça de lado.

É interessante esse posicionamento de Woolrich. Em nenhum momento, o autor defende a violência, mas define muito bem a sua origem, deixando claro que, para ele, ela pode ser fruto do mais puro desespero. Com ela, não viriam nenhuma sabedoria ou coragem, e muito menos nobreza, apenas mais e mais complicações, que surgem da tentativa de consertar um erro e acabam gerando erros cada vez maiores. Esse ângulo da questão também lembra a reflexão de Dostoiévski sobre a validade da violência em Crime e castigo, e, de certa forma, a reação de Raskólnikov ao cometer um crime é muito semelhante à reação do personagem de “Impulso”.

Woolrich também explora a faceta doentia do casamento. Morar sob o mesmo teto que outra pessoa pode ser desgastante, mas no livro é não só desgastante como é, também, o suficiente para criar sentimentos ferozes ou mesquinhos, como acontece com o marido de “Post-mortem” e também com o de “Três horas”.

Por outro lado, se o casamento é o palco onde crimes são premeditados e executados, a mulher tem um papel secundário nas tramas: é sempre a personagem sã, a que queria manter a ordem estabelecida e que é incapaz de qualquer ato de violência. Considerando que Woolrich nasceu em 1903 (morreu em 1968) e que o livro foi publicado em 1942, com certeza isso é um sintoma do papel da mulher na sociedade em que Woolrich viveu.

Isso não é suficiente para tirar o brilho das histórias instigantes que preenchem as páginas de Janela indiscreta, mas com certeza falta o toque de genialidade que Hitchcock deu ao conto que adaptou para o cinema, preenchendo as lacunas de Woolrich no que diz respeito à complexidade das personagens.

Print Friendly
Cornell Woolrich_Janela_indiscreta_121

Cornell Woolrich
Trad.: Rubens Figueiredo
Companhia das Letras
202 págs.