Ensaios e Resenhas

setembro 2017 / Ensaios e Resenhas / Falsa bondade

Texto publicado na edição #209

Falsa bondade

"Um homem bom", de Thiago Barbalho, aborda a questão do mal em nome do bem

> Por Carla Bessa

Thiago Barbalho, autor de Um homem bom

Thiago Barbalho, autor de Um homem bom

Ler um livro é uma experiência multímoda. Pode ser instigante, divertido, maçante, doloroso, incômodo, irritante ou surpreendente. Pode ser que comece de um jeito e termine de outro. E pode provocar efeitos colaterais. O leitor assíduo que o diga.

Um homem bom, de Thiago Barbalho, um livro sobre as muitas faces da bondade, foi um pouco de tudo isso e me deixou bastante contemplativa. Não costumo ser pessoal nas minhas resenhas, mas esse volume de contos — que estão mais para um híbrido entre ensaios e meditações — permite (e acho que pede) isso. São onze contos em primeira pessoa que, embora tracem trajetórias variadas, têm um apelo claramente reflexivo e uma linha temática em comum: as consequências da busca obcecada pela verdade e a vontade de transcendência.

Já no primeiro conto, que dá nome ao livro e postula sua máxima — a questão da bondade e suas ambiguidades —, o leitor é inserido em uma dolorosa reflexão sobre o querer ser bom e o porquê desse querer, sobre o que vem a ser a bondade e a que serve, e é igualmente confrontado com os maniqueísmos de uma argumentação que se divide em termos de claros ou escuros, verdades ou mentiras. O narrador deste primeiro conto, um mártir fiel às suas convicções dualistas, está disposto a realizar o mal em nome do bem. Ele pretende “não só tocar o bom, mas fazê-lo vir ao mundo: retirar um pedaço do impossível e fazê-lo real, aqui, nosso”. Interessante aqui o anseio pelo impossível, definindo-o como a verdadeira grandeza de espírito, o que faz deste personagem um Calígula às avessas: enquanto o tirano romano deseja forjar o impossível consciente de que faz o mal para alcançar sua meta de máximo poder pessoal, o nosso “homem bom” almeja o impossível em nome do bem, não só para si, mas para a humanidade. “O mal é um jeito legítimo de nos aproximar do bem”, diz ele. A consequência será, em ambos os casos, a destruição do outro.

O segundo conto, O homem sem limites, versa sobre a relação intrínseca das coisas com seus nomes, do pensamento com sua expressão, sobre como o nomear coisas e fenômenos nos é imprescindível para o seu entendimento. Porém, sabemos que a questão do domínio da realidade por meio de sua explicação também é limitada, pois, como já enunciava Wittgenstein, “os limites da minha linguagem, são os limites do meu mundo”. O paradoxo é: o anseio de saber gera, por nunca se saciar, uma apatia intelectual até o ponto de total inércia ou, no caso específico deste conto, da mudez.

Sem ânimo porque sem entendimento e sem enxergar um fim, comecei a hesitar com as palavras. Comecei a ter fastio na fala. As palavras só me prometiam, nunca cumpriam. Em sala de aula, olhava para os meus alunos e não tinha mais o que dizer. Me faltava vontade. Eu estava desistindo. Agora eu me interessava pelo silêncio. Porque eu sabia que haveria sempre um ponto inalcançável: eu tinha a sensação de que a matéria do meu enigma era a mesma do silêncio.

A alegoria da vontade obstinada pela liberdade levando à total imobilidade é recorrente em vários contos. Em Uma baleia encalhada, ela é o instinto de expansão territorial que acaba levando a baleia a se aproximar demais da praia e não encontrar mais o caminho de volta. A busca pela liberdade total leva, paradoxalmente, a um beco sem saída.

Estou presa. Isto dói. É horrível. Mas nunca deixarei de voltar e me atolar em minha própria ambição. É impossível desistir. Eu estou presa à busca da liberdade.

Palavra como arma
O contraponto à vontade de expansão é o isolamento, refletido na metáfora da escuridão e no poder iluminativo das palavras, presente em contos como Ninguém, Talvez, Agora e Contas a pagar. A palavra como arma, como escada ou corda para a fuga da noite em que se vê mergulhado o homem reflexivo.

Mas o homem é um morcego com o poder da linguagem nas mãos e na boca, o homem tem as palavras como unhas. E é com palavras que ele abre caminho no ruído escuro e chama a caça com nomes afiados.

Na sequência, em Livros sujos, o narrador falará da relação do homem com o livro, mas isso será apenas um pretexto para falar de relações em geral, do seu começo e fim retidos nas marcas do uso e dos perigos do querer. Falará das anotações nos cantos das páginas dos livros como rugas e cicatrizes em “corpos que, ao se encontrarem, trocam carícias e arranhões”. Mas, também aqui, a fronteira entre carinho e excesso é incerta e é preciso cuidado para que a boa vontade não deságue em obsessão, o desejo de sabedoria, em prepotência. O narrador deste conto avaria os livros de seu amigo com suas marcas e anotações, sem perceber que ultrapassou o limiar entre dedicação e abuso.

Em Narcolepsia, o único conto que lança mão do humor (o que teria sido um recurso bem-vindo de quando em quando em outros contos), um catedrático discursa sobre a própria narcolepsia e adormece repetidamente no meio das frases. Como uma pequena fuga imposta no auge do discurso pouco antes da conclusão de um raciocínio, o desmaio apresenta-se como uma metáfora para a ambivalência do saber, que liberta e oprime a um só tempo.

Em A queda, o conto que fecha o livro, todas as reflexões anteriores convergem numa dolorosa tomada de consciência da própria inconsciência e literal inconsistência: o corpo em si, preso numa espécie de calabouço, torna-se incerto e vaporoso. E cai.

Como numa meditação, o leitor terá que atravessar a aridez das palavras para alcançar o silêncio profundo por trás do texto.

Solto no escuro e apalpando-se apenas nas próprias palavras, o corpo em queda abarca o total desamparo. Não há mais nenhuma certeza, nem mesmo a certeza do medo; não há chão para os pés porque não há pés reais, só inventados. Tudo é imaginação e delírio e a escrita, uma mera tentativa de expressar a dor genuína de se ver completamente desirmanado do mundo.

Mas as coisas não têm contorno. São as palavras que deliram. Somos nós que, nas palavras, deliramos que as coisas existem, cada uma por si, separadas umas das outras, cercadas de suas próprias definições. Mentira. Delírio. Porque, se há um conceito mais falho do que todos os outros, se há algo mais forjado no meio de toda a dissolução conceitual, então isto é o conceito de separação, ou forma, ou limite, ou identidade, ou fronteira, ou clareza. É daí que vem a calúnia de que somos independentes – como se cada sujeito fosse capaz da liberdade e da autonomia. Não, não somos capazes. Por isso estou onde estou: no ímpar.

A humanidade pode estar prestes a pôr em risco a sua própria existência pela sua obsessão de querer alcançar o impossível. Calígula, o imperador romano que torturava e matava em nome da liberdade e de um auto-imposto compromisso com a sua própria ideia monomaníaca de verdade, desejava nada menos do que a lua.

Um homem bom é um livro triste, com um narrador oceanicamente solitário que tateia no escuro de textos íngremes, escorando-se em palavras-muros que mal lhe dão amparo. Com uma narrativa árida, mas sincera, estes não são textos para um leitor qualquer, mas sim para aquele disposto a imergir nesse fosso escuro junto com o narrador, trespassando temas incômodos e reflexões tortuosas. Terá que resistir ao cansaço, à irritação e à desorientação, mas, como recompensa, alcançará profundidades subliminares de compreensão, que tornam possíveis as epifanias.

 

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Um homem bom
Thiago Barbalho
Iluminuras
96 págs.

 

 

AUTOR
Thiago Barbalho
Nasceu em Natal (RN), em 1984 e vive em São Paulo (SP). Estudou filosofia e direito e cursou mestrado em filosofia. Criou o selo editorial independente Edições Vira. É colunista do site Ornitorrinco e tem alguns poemas em tradução para o inglês a sair na antologia de poesia brasileira contemporânea pela scramble books, de Nova York. É autor de Thiago Barbalho vai para o fundo do poço (2012) e Doritos (2013).

 

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