Paiol Literário

março 2012 / Paiol Literário / Fabrício Carpinejar

Texto publicado na edição #104

Fabrício Carpinejar

O poeta e cronista gaúcho Fabrício Carpinejar foi o convidado da edição de novembro do Paiol Literário — projeto desenvolvido […]

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José Castello e Fabrício Carpinejar no Paiol Literário. Foto: Matheus Dias

O poeta e cronista gaúcho Fabrício Carpinejar foi o convidado da edição de novembro do Paiol Literário — projeto desenvolvido pelo Rascunho em parceria com o Sesi Paraná e a Fundação Cultural de Curitiba. Carpinejar nasceu em Caxias do Sul, em 1972, e atualmente mora na cidade de São Leopoldo. Formado em jornalismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, coordena o Curso Superior de Formação de Escritores e Agentes Literários da Unisinos. É autor de diversos livros, como As solas do sol, Um terno de pássaros ao Sul, Terceira sede, Biografia de uma árvore, O amor esquece de começar e Canalha!. No dia 6 do mês passado, no Teatro Paiol, em Curitiba, durante o bate-papo mediado pelo escritor e jornalista José Castello, Carpinejar falou sobre seu método de produção de crônicas e poesias e sua relação com os leitores — de seus muitos livros e blogs —, discorreu acerca da canalhice masculina e arriscou opiniões sobre psicanálise, sexo, literatura, vida amorosa e familiar e muitos outros temas.

• A sala da penumbra
Não acredito que a literatura possa mudar o mundo. Acredito que ela pode confundi-lo bastante. Que a gente precisa dessa confusão. Que com a confusão, o mistério e a intriga, a gente se sente mais alerta, mais atento. A literatura produziu isto em mim: um estranhamento para recuperar a intimidade das coisas. Ou seja, a literatura, de certa forma, me protegeu da claridade da clareza, me permitiu duvidar um pouco mais. Ficar um pouco mais nessa sala da penumbra. Um exemplo: quando pequeno, eu tinha a mania de me aproximar de quem era deslocado, excluído da sala. Então, se aquela pessoa tivesse algum problema, eu me tornava automaticamente seu amigo, me projetava nesse colega. Mas eu não conseguia me defender; eu aprendi a me defender defendendo aquelas pessoas. Meu olhar sempre foi periférico nas amizades. Eu me sentia muito encabulado para ter coragem, mas não encabulado para defender os outros. A literatura não deixa de ser isso. Tu cria amigos imaginários que passa a proteger. Porque tu não é capaz de se proteger. Tu precisa dos outros para se proteger. Talvez seja uma insuficiência, um desvio. E tu fica meio envaidecido por tomar essa atitude protetora contigo. Mas tu tem essa generosidade de lidar com os outros.

• Contagioso
A literatura é contágio. É uma forma de organizar sua vida. É uma forma higiênica de lidar com a imaginação, de lidar com a memória, de filtrar os fatos. A gente estava conversando nos bastidores sobre a questão da obsessão. No hotel, tenho que distribuir todas as minhas camisas, tenho que fazer todas as ponderações de espaço como se eu estivesse numa casa. Mesmo que eu fique só um dia no hotel. E eu carrego esses hábitos. Fazer literatura é conseguir, de certa forma, aperfeiçoar essa obsessão. Sou capaz de carregar um saquinho de naftalina para botar nas gavetas do hotel. Mas não é por medo. É para manter o cheiro de casa. São esses detalhes que fazem a literatura. Continuo passando xampu e condicionador na minha cabeça. Não há necessidade, mas preciso passar. Só o ato de passar já me deixa mais tranqüilo, mais relaxado. Eu acho que a literatura, nesse sentido, alforria a doença. Aquilo que poderia ser catalogado como uma enfermidade acaba sendo a sua saúde. Se eu não tivesse essas obsessões, não cuidaria tanto da frase, do manuseio, do ritmo, da melodia, de tentar me fixar em sensações, de me aprofundar nelas.

• Hermético Chitão
Antes de publicar, eu usava macacão sem camisa. É bom nem imaginar. Cabelo comprido, Chitãozinho & Xororó, até a cintura. E brincos da Nina Hagen. Sabe aqueles brincos de cruz? De latão mesmo. Eu me sentia altamente glorioso. E vestia um chapéu do [Renato] Borghetti da gaita, lá de Porto Alegre. A literatura nos dá a disciplina da imagem, objetivamente. Tu passa a duvidar de ti. Tu passa, de certa forma, a não ter medo de se expor. No meu primeiro livro, As solas do sol, eu era hermético, evasivo. Escrevia para me esconder. Escrevia para me enterrar. Escrevia para não ser encontrado. Escrevia periodicamente. Sem publicar e para me esconder. Numa linguagem mais culta e com pouco apelo ao cotidiano. Acho que o fato de ter sido pai jovem, a premência das tarefas, do cotidiano, me fez pensar: “Pô! Por que vou me esconder? Por que vou me adiar? Se não posso me adiar como pai, se não posso me adiar como marido, por que vou me adiar na escrita? Por que vou me protelar na escrita?”. E assim fui me abrindo, me raspando, me lixando.

• Eu sou babaca
No livro Um terno de pássaros ao Sul, encontrei minha dicção. Tem essa conversa do filho com o pai ausente, que fui trabalhando com duas freqüências: a freqüência ficcional e a freqüência bibliográfica. Ali, descobri que me confessar não faria diferença. A melhor forma de esconder um segredo é mostrá-lo. Ou seja, tu vai guardá-lo na luz, está tudo visível. Mas as pessoas não vão pensar que tu é tão babaca de contar aquilo que é mais valioso para ti. Pois eu conto. Eu sou babaca. Conto o que é mais valioso de mim. Isso, para mim, foi uma independência, a hora em que me tornei inconseqüente.

• Vingança da infância
De certa forma, vinguei-me da infância. Porque, na minha infância, eu não saía no recreio com medo dos apelidos, da gozação. Ficava na sala de aula. Sei que a minha térmica dava três voltas. Então, eu ficava abrindo e fechando a térmica, dando três voltas, abrindo e fechando. Houve muitos recreios em que a térmica era meu cofre, meu segredo. Eu ficava ali girando, enroscando e desenroscando a térmica. Até hoje, o barulho dela é nítido para mim.

Fake
O conto é minha caixa preta. Comecei escrevendo contos. A partir dos 17 anos. Meus poemas são contos decantados. Por isso, acho que carrego uma poesia mais narrativa. Acho que sou um falso poeta. E também não sou um verdadeiro contista. Então, eu sou falso. Sou fake.

• Livros com endereço
Na literatura, a gente pode mudar tudo, menos o sentimento. Não tem como disfarçá-lo. Ele não pode ser falso, artificial. O impulso tem que ser verdadeiro. E, se tu vai escrever tendo alguém a quem mandar aquela carta, aquele texto, eu acho que ele se abre. É uma emergência aquilo que tu sabe que vai ser lido. Tem uma proximidade, tem uma tensão. Por exemplo, já escrevi um livro inteiro para o dono de uma tabacaria lá em São Leopoldo. O Pedro. Eu convivia com ele e tentava imaginar a sua vida. E o imaginei lendo. Imaginei, um dia, ele lendo um livro que realmente era para ele. Sempre gostei dessa hipótese. É interessante trabalhar com um endereço, porque é um livro que não será devolvido. O endereço não é inexistente. Para o Pedro, eu fiz o Terceira sede. Acho que ele nunca leu. Vai que fica ofendido? Mas escrevi para ele.

“Carrego uma poesia mais narrativa. Acho que sou um falso poeta. E também não sou um verdadeiro contista. Então, eu sou falso. Sou fake.”

 

• Poesia e natação
O esforço da poesia é um esforço de sair de si. A gente tem a idéia de que a poesia é entrar em si. Mas poesia, para mim, é o movimento da natação. Temos que mergulhar na nossa subjetividade, subir para respirar na objetividade e mergulhar de volta. Tem muito poeta que morre afogado na subjetividade. Ele pensa que falar de si é suficiente. Não é. Tu tem que vir à tona. Tem que ver até que ponto nadou. Tu tem que te localizar. Tu precisa de tempo. Tem que ter uma cartografia precisa. Tu precisa de “condutores”. Um exemplo de condutor é a minha avó. Ela tinha uma camisa cujos botões eu usava para jogar futebol de mesa. Eu roubava aqueles botões, porque era difícil conseguir aquela bolinha para jogar. E comecei roubando um. Fui roubando os primeiros de baixo. E os roubos aconteciam sempre no verão, quando eu me encontrava com ela em Guaporé. Seu nome é Nona Elisa. No Rio Grande do Sul, tu recebe a denominação de nona por reconhecimento afetivo. Tu pode terminar tua vida como avó. Mas receber o nona é um mérito. É um título. E a Nona Elisa nunca me censurava. Eu tirava, todo verão, um botão do seu casaco. E o que era muito bonito é que ela não me censurava. Percebia, mas não me falava nada. E era a camisa favorita dela. Azul. É algo meio freudiano, porque fui despindo a minha avó [risos]. Mas aquela camisa sem botões é o condutor da minha afetividade, da minha ternura pela minha avó.

• Meus dentes de vampiro
Gosto de escrever pensando em alguém. É uma forma de sair, de me abandonar. Ainda mais na crônica, que é uma conversa. Você tem a vacilação, você tem a imperfeição. De repente, tu solta uma frase e não é bem aquilo, mas tu não a apaga. Tu deixa aquela frase e a reformula novamente no próprio texto. Isso é muito bonito, esse vaivém, esse vaivém da conversa. Com o poema, é como se eu o estivesse escrevendo para alguém. Com a crônica, é como se eu estivesse falando ao telefone com alguém. A crônica é mais neurastênica. Meio histriônica. Não me vejam fazendo uma crônica. É muito engraçado o meu jeito de rir. Eu tenho os meus dentes de vampiro. Os meus dentes tortos. E vibro muito com o texto. Eu danço. Se faço uma frase de que gosto, saio de uma tensão habitual. De certa forma, eu me arrebento com o texto.

• Produção de silêncio
Se tu vai ler um poema e a outra pessoa fala “ai, que bonito”, saiba que ela não gostou daquilo. Se um poema provoca uma resposta rápida numa pessoa, significa que ela não está nem aí para ele. Porque o poema produz silêncio. Eu sei que um poema é bom pela extensão do silêncio de quem o lê.

• Comer juntos
Acho que há tanta desagregação familiar porque as famílias não almoçam nem jantam juntas. É tão importante olhar para o outro, encarar o outro, saber decifrar esse silêncio, essa soletração. É muito fácil saber se alguém está fingindo ou não, se alguém está enganando a sua emoção ou não, quando jantamos e almoçamos com ele. Porque a fome traz uma honestidade que nenhum outro momento traz. […] Cada um dos meus três irmãos tinha a sua cadeira. Então, tenho algumas teses. Sou mais amigo do Miguel porque ele se sentava ao meu lado à mesa. Se fosse o Rodrigo, ele seria mais meu amigo. Se fosse a Carla, ela seria mais minha amiga. O fato de me passar o sal e a cumbuca, de a gente brincar com a caixa de palitos Gina, com o sal Cisne, fez com que o Miguel fosse mais meu confidente. Então, nosso lugar determina a nossa amizade.

• A mãe
Minha mãe [a escritora Maria Carpi] escreve. Minha mãe é uma torrente, uma hidrelétrica. É muito engraçado quando participo de uma palestra e minha mãe está assistindo. Se ela estivesse aqui, levantaria o dedo e diria: “Mentira, não foi assim”. Ela sempre faz isso. Não suporta que eu tome a memória dos meus irmãos emprestada. Ela é muito gozada. Tem uma história dela que ficou folclórica. Minha mãe tem uns 15 livros inéditos. Ela é mais inédita do que publicada — tem oito livros publicados. E sempre diz que não lembra dos próprios poemas. Pensei que ela estava brincando, trovando. Pois peguei uns poemas da minha mãe, anotei-os e liguei para ela: “Mãe, fiz três poemas lindos, posso te mostrar?”. E fui para a casa dela. Li um poema e ela disse: “Pára”. Ficou toda emocionada. E depois: “Pode continuar”. Continuei, terminei. E ela disse: “Nunca acreditei que tu faria isso”. Gelei. “São teus poemas mais bonitos, são teus melhores poemas”. Ela amou. E eu os publiquei no meu livro. Se ela não se lembra deles, eles não são dela [risos]. Claro que não fiz isso. Não faria isso com a minha mãe.

• Piá travado, homem hiperativo
Tenho quatro blogs. Um é o meu, Fabrício Carpinejar; tem outro de futebol, que é o Rolo Compressor, em que escrevo sobre o meu time, o Inter; tenho também o Consultório Poético, em que respondo dúvidas amorosas; e outro de literatura. Sou colunista da revista Crescer e do Estadão de domingo. Sou hiperativo. O fato de ter sido travado na infância me tornou hiperativo na vida adulta.

“O escritor é aquele ser tão objetivo que vai conseguir te dar aquilo que tu já tinha: uma espécie de devolução, um despertar. Vai despertar o sublime no insignificante.”

 

• Blogs e alucinações
No meu blog [www.fabriciocarpinejar.blogger.com.br], tenho leitores desde 2003. São confidentes, na verdade. Consigo saber o que eles pensam, no que acreditam, só pelos comentários que fazem sobre os meus textos. O blog é difícil porque, ali, tu tem que saber exercitar e administrar tua solidão. Tem gente que não suporta blog, porque até tu conseguir engatar um é difícil. Imagine: tu faz um blog e ninguém responde. Tu pensa que vai fazer um blog e todo mundo vai entrar lá. Que agora tu vai ser conhecido. Agora vai ser consagrado. E ninguém entra. Fica aquele contador parado. E, daí, tu começa a ter alucinações. Começa mesmo. Encontra o primeiro comentário do teu blog e vê que é da tua mãe. “Ah, muito bonito o teu blog, continue assim”. Até tua mãe já notou que ninguém lê o teu blog, é por isso que ela entrou. E, de repente, tu percebe que até tua mãe cansou de ir ao teu blog. E tu começa a ser laranja. Tu passa a deixar comentários no teu blog como se fossem de outro. E o pior de tudo: tu começa a responder a esses comentários. Tu começa a responder aos e-mails falsos.

• O caminho da crônica
Minha crônica de ontem, por exemplo, era sobre a maravilha de escutar uma mulher trepando: “Ai, meu Deus”. Tu pensa que uma mulher, trepando, nunca vai dizer “ai, meu Deus”. Não é o momento mais apropriado. Vai parecer que Deus está ali, transando junto, vai parecer um triângulo amoroso. “Ai, meu Deus, ai, meu Deus, ai, meu Deus”. Uma trepada mística. E pensei: “Vou escrever sobre isso”. Ficaria legal começar com “ai, meu Deus”. E algumas mulheres são muito refinadas, são muito religiosas nessa adoração ao corpo. Tanto que, além do “ai, meu Deus”, elas falam “ai, meu Jesus”. Daí, já vira uma orgia. Tu te sente um instrumento da relação dela com a levitação. É assim com a crônica e com o poema. Vem a idéia, eu anoto e então sai um “ai, meu Deus, ai, meu Jesus”. Fico estruturando todo o texto mentalmente. Quando vou ao computador, ele já está pronto. A frase está pronta, tudo está pronto. Não demoro no computador, porque tenho pouco tempo para ir até ele. Então, tenho que trabalhar o texto dentro dessa idéia de “caminhada”. Porque o texto de crônica se torna muito melhor se você “caminhar”. Tu tem os recuos, as interrupções. Um texto de crônica tem que ter uma interrupção. Não pode ser aquela linha reta.

• Idéias, lampejos
São idéias. São lampejos. Hoje, por exemplo, entrei numa loja de ferragens. Adoro entrar em lojas de ferragens, não sei por quê. Não sei nada de ferragens, mas entro em tudo que é ferragem que vejo aberta. E era muito estranho: a loja tinha um balcão e um velhinho, ali. Um balcão cheio de cascas de tangerina, forrado de cascas de tangerina. Ele deve ter comido umas 13 tangerinas e deixou aquelas cascas ali. Muito esquisito. Mas a crônica é conversação. Isso vai servir de âncora para uma crônica? Não encontrei como. Outro exemplo: parto do princípio de que não tenho solidão. Certo? Tenho essa idéia de que homem não tem solidão. O que faço com isso? Como é que um homem não tem solidão? Daí tu fica tenso tentando encontrar a resposta. O teu olhar fica flutuante, expressivo. A melhor coisa é isso. E, de repente, vem. O que eu nunca vi: um homem deixando uma cueca no box do banheiro. A falta de cueca no box do banheiro mostra que o homem não tem solidão. A mulher pode ficar sozinha no término de uma relação, o homem tem a mania de emendar. Terminou, já está com outra. Tem fobia de ficar sozinho. Se ele lavasse sua cueca no box, aprenderia a solidão. A crônica tem essa gratuidade.

• Poema é assobio
O poema é assobio. Ou seja: vou construir todo um livro na minha cabeça. Sem escrever nada. Porque assim tu elimina a gordura. Fico excitado com essa angústia. O que é um computador sem a ameaça do vírus? Nada. Acho que preciso disso.

• Segredos devassados
Antes de publicá-los, sei meus poemas de cor. Depois que os publico, os esqueço. Esqueço para me sentir aberto. Porque o escritor tem uma disponibilidade. Acho que é isso que o caracteriza. Ele tem uma disponibilidade, vai ver aquilo que a gente não enxerga, que não enxergamos porque não nos interessa, mas que está ali, na nossa cara. O escritor é o óbvio, e não o sobrenatural. E todos buscam o sobrenatural. Todos buscam a idealização, a adivinhação. O escritor é aquele ser tão objetivo que vai conseguir te dar aquilo que tu já tinha: uma espécie de devolução, um despertar. Vai despertar o sublime no insignificante. E, aí, a poesia tem aquela coisa de cantar, de cristalizar. Ela é muito mais rápida, muito mais relâmpago. A poesia é desafogo. Tu vai lá e bababá. Tu está desaforando a poesia. Se tu quer ser gentil, tu vai fazer prosa. Poesia tem uma rispidez, é concentrada. Tu está ali, falando aquilo que ninguém teve coragem de dizer, nem para ti nem para outro. Não tem como ler um livro e ficar tranqüilo. Quem lê um bom livro de poesia fica com insônia. Tu te desestabiliza, e é esse o desaforo. Mas é um desaforo de algo que tu já sabia. Porque, na verdade, a gente costuma guardar segredos. A gente pode guardar segredos abomináveis, mas se a gente sabe que alguém já sabe desse segredo — que nunca nos incomodou e pode ser abominável —, ele passa a nos incomodar. Então, se a gente pega um livro de poesia e descobre que o autor sabe mais, sabe aquilo que a gente estava escondendo, eu acho que isso incomoda.

• Escrever é desaparecer
Tu tem que respeitar o ritmo de cada um. Tu tem que despertar o gosto, retirar essa esfera sacrossanta da literatura. É questão de leitura, leitura minuciosa. […] Escrever não é fazer discípulos. Escrever é desaparecer. Ou seja, eu não posso impor o meu estilo. Eu não ensino o meu estilo. Tu tem que ensinar as pessoas a ter ferramentas para dominar seu estilo. Eu acho que é muito disso e muito de leitura, de confronto. Por exemplo, uma leitura em grupo numa sala de aula. Tu percebe que aquele texto lido não é o teu braço, aquele texto é outra consciência, algo que cada um lê de um jeito. Se tu criticar aquele texto, não estará criticando a pessoa que o escreveu. Tu aprende que não é nada pessoal. Isso é importante. O escritor pensa que a vida dele é a literatura e começa a trabalhar a literatura como uma religião. E não admite que alguém possa colocar isso em risco. Eu acho que a literatura não tem essa mística que ela carrega.

• Colecionar obituários
Muitos escritores sabem que não escrevem bem. Mas preferem a gaveta a enfrentar a verdade. Acabam culpando a falta de oportunidades. Tem uma coisa que acho muito bonita na literatura: o leitor nasce com o autor. A gente tem aquela visão de que os leitores de poesia estão nos esperando. Não estão. É a tua literatura que vai criar os teus leitores. Teu leitor vai nascer com o teu texto. São gêmeos. Não existem, por exemplo, os leitores de Drummond esperando o próximo Drummond. Não há próximo Drummond. Havia um escritor que começava ler o jornal pelo obituário. Eu achava aquilo muito triste. E ele dizia: “Ah, morreu um leitor meu”. E colecionava obituários. Não é para se colecionar obituários. Não gosto daquela coisa do isolamento na literatura. Literatura tem que ter solidão, não isolamento. A solidão inclui tudo: os teus varais, teus filhos, tua mulher, o barulho de casa, a conversa com teu vizinho. Isso é solidão, é o teu território. Essa tua compulsão de dizer meu armazém, minha padaria, minha mulher, meu filho. Meu, meu, meu. Pode me chamar de possessivo, mas acho isso bonito. Tenho orgulho. Mas isolar-se é se distanciar do diálogo. É tu pensar que aquilo que faz é tão importante que não pode ser negado. Tem que ser negado. Não há livro que não tenha sido recusado. Meus dois primeiros livros, eu queimei. Botei fora. Acho que tu precisa disso, precisa de senso de humor, precisa rir.

• Outras demandas
Tenho uma certa reserva em relação ao escritor que só fala de literatura. Algo falta na vida dele. Algo falta. Quero saber como ele vive, para que time torce, o que faz para se divertir. Falta ele não ficar tão envaidecido com sua própria condição. Um pouco dessa tormenta coloquial e cotidiana da casa, dos filhos. Na hora em que tu está te sentindo o máximo, chega o teu filho e fala: “Pai, vem me ajudar aqui”. E tu percebe que há outras demandas práticas e tal. Que, para o teu filho, tanto faz se tu é escritor ou não é escritor. O que é importante é o jeito com que tu te relaciona com isso.

• Meio que um estupro
Eu leio muita poesia. Eu leio com voracidade. Leio romance, leio de tudo, tudo mesmo. Gosto de biografias. Adoro leituras misturadas. Ler um livro de ensaio ao mesmo tempo em que estou lendo um romance, ao mesmo tempo em que leio um livro de poesia. Gosto dessa simultaneidade. Se não gosto de um livro, eu não o termino. Se não me pegou, não insisto. Porque me parece meio que um estupro. A gente parte do princípio de que, se não leu um livro até o fim, não o leu. Mas, às vezes, o próprio escritor que escreveu o livro não o leu até o fim.

• Um livro alegre
Quero colocar meu humor na poesia. Sou muito bem-humorado, e minha poesia sempre teve aquela inclinação renascentista, triste. Não entendo como não passei isso para a poesia — porque, para a crônica, eu já estou passando. Quero trazer essa informalidade para a poesia sem que ela vire piada. Eu não quero o poema-piada. Quero aquele riso inteligente. Aquele riso de satisfação. Aquela ironia fina. Então, estou tentando procurar isso nos poemas. Estou tentando celebrar as alegrias. Estou tentando um livro alegre.

• Coitadinho do canalha
Criei toda uma teoria sobre os canalhas. O que é o canalha? O homem ficou meio perplexo, desorientado, porque a mulher mudou. Evoluiu muito fácil. E o homem ficou assistindo àquilo. Mudou tudo. “E agora, o que é que eu faço?” Acho que há uma crise da masculinidade. Em suma: há uma grande crise da masculinidade. O homem perdeu muito tempo provando que era homem. Perdeu muito do seu tempo. Toda hora era: “Ah, se tu não fizer isso, tu não é homem! Se tu não abrir o vidro de pepino, tu não é homem. Se tu não matar a barata, tu não é homem. Se tu não conquistar aquela menina, tu não é homem”. Tudo isso. “Tu não é homem.” Com os amigos, até hoje, é isso: “Ah, se tu não for lá, tu não é homem”. Por isso defendo a inteligência gay. Porque o gay não precisa provar que é gay. Ele tem isso muito bem resolvido, é uma escolha. E o homem tem que escolher ser homem. E homem não escolhe que é homem. Daí, uso toda a crise da masculinidade para pegar um referencial de sedução, que é o canalha. A mulher quer um homem comportadinho e tal, mas não suporta o homem comportadinho. Ela não quer um canalha, mas é seduzida por um. Então, o canalha seria esse novo metrossexual, aberto e disponível, mas que é um homem. O canalha é muito mais perigoso porque seduz com o feminino. Ele não vai ser preconceituoso. Ele vai seduzir a mulher. O canalha é o Don Juan brasileiro. Ele seduz a mulher sendo transparente. Ou seja, a mulher está conversando com ele, mas vai se descobrindo nele. A mulher se apaixona por ela mesma e não sabe. Ela pensa o seguinte: “Foi ele que me descobriu, ele me entende tanto”. O canalha não tem o que fazer. O canalha não se despede. E a mulher sempre fica esperando o retorno do canalha. É o Dom Sebastião do sexo. E ele tem uma coragem para amar… Tem uma franqueza… E ele não faz propaganda enganosa como “cafajeste”. O cafajeste ilude, o canalha não. Ele diz na cara: “Olha, eu não tenho jeito, não presto, não adianta tentar”. E a mulher se sente desafiada com isso. Quanto mais tu fala que tu é imprestável, mais ela te quer. Então ela pensa: “Coitadinho!”.

“É tua literatura que vai criar teus leitores. Teu leitor vai nascer com o teu texto. São gêmeos. Não existem leitores de Drummond esperando o próximo Drummond.”

 

• O órfão, o viúvo e o casal
Um dos grandes concorrentes do canalha é o órfão. Aquele abandonado. Tu o adota. Porque tu não tem como se separar de um filho. Então, o órfão sempre consegue as mulheres. E tem o viúvo. O viúvo é o único homem que foi fiel. Então, eu estou brincando com isso. Mas eu acho que o meu livro Canalha! tem algo a dizer sobre o casamento também. Porque tu pode ser um canalha casado, tratar tua mulher como uma amante, por exemplo. Eu vejo e defendo que os casais aprendam com os amantes os horários quebrados. Porque o casal é assim: tu está casado, tu tem certa estabilidade, certo conforto. Então tu vai esperar os teus filhos dormirem, vai esperar a casa se aquietar, vai esperar o telefone não tocar, e o telefone vai tocar, e vai ser um amigo que faz tempo que não fala contigo. Vai esperar que não toque o interfone e ele vai tocar. Tu tem que esperar tudo dar certo para poder trepar. E isso não acontece. E o que o amante faz? O amante tem uma folguinha no almoço, no lanche, sei lá, e vai ao motel. Os casais deviam lotar os motéis. Mas, daí, o que acontece? Se pintar uma chance de madrugada, é a glória.

• Ouvir até o fim
Fiz psicanálise, uma consulta. O psicólogo me entregou um formulário a que eu tinha de responder. Múltipla escolha. E nunca me dei bem com múltipla escolha. Meu teste vocacional deu engenheiro. Quando deu engenheiro, eu fugi. E, nesse teste de múltipla escolha, tinha lá: “Gosta de homens?”. E… Gosto. Do meu pai, do meu filho. Na época, eu gostava do meu pai, eu tinha os meus irmãos. Daí, larguei, não fui mais. Eu tinha que me apresentar pelo formulário. Acho que a gente está sobrecarregando o psicólogo, o terapeuta e o psicanalista. Porque a gente parte do princípio de que, se temos algum problema, precisamos ter um psicólogo. Se a gente tem um problema com o filho, tem que colocar o filho no psicólogo. Se a gente tem um problema no casamento, a gente tem que fazer terapia de casal. A gente não fala em casa, na família. A gente está fugindo. A gente não se permite ser infeliz dentro de casa. A gente é capaz de fazer uma listinha de supermercado com os nossos problemas, para não esquecer de contá-los ao nosso terapeuta, mas é capaz de esquecer de falar com o marido. Esquecer de falar com a mulher. A psicologia está substituindo as amizades, de certa forma. Mas os psicólogos não vão conseguir dar conta de toda essa demanda. Tenho problemas sexuais? “Ah, vou falar com a minha terapeuta.” Então, tudo é com o terapeuta. Tu não vai falar com a tua mulher. O botequim, o boteco, a mesa de bar, se encontrar com um amigo, se confessar, receber o exemplo dele, a contrapartida. Nada. Então, o que está acontecendo? Como a gente está condicionado a ir ao consultório, a gente fala, fala, fala, fala e não sabe mais ouvir. Em casa, a gente não está mais ouvindo. Por isso é que eu fiz as unhas. Eu não entendia por que minha mulher ia à manicure e voltava mais alegre. Eu pensava que ela tinha um caso com a manicure. Daí, comecei a fazer as unhas e comecei a voltar mais alegre de lá. E minha mulher pensou que eu tinha um caso com a manicure. Mas a manicure fazia a única coisa que eu não fazia: ouvir. Ouvir até o fim. Ouvir sem julgamento, sem sentença. É isso que nos falta: ouvir. Ouvir uma pessoa até o fim.

• Sou a drag queen da poesia brasileira
Camaleão? Sim, sou. Na poesia, adoro mudar o meu ponto de vista. Então, já fui uma criança, já fui um velho, já fui o pai, já fui a mãe. Eu sou um camaleão, eu sou um transformista, eu sou a drag queen da poesia brasileira. Não, não põe essa frase no Rascunho.

• Vá escrever
Partimos do princípio de que temos grandes histórias, mas o que faz uma grande história é o jeito que nós a escrevemos. E todo mundo pode dizer: “Eu tenho uma vida maravilhosa, ela poderia render um livro”. Mas vá escrever! Tu vai ver que não vai sair do primeiro parágrafo. Vai ser tudo monótono, tedioso.

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