Ensaios e Resenhas

abril 2012 / Ensaios e Resenhas / Experimento científico

Texto publicado na edição #144

Experimento científico

A Ilha é a terceira obra da trilogia romanesca de Flávio Carneiro, que se inicia com O campeonato (2002, reeditada […]

> Por HENRIQUE MARQUES SAMYN

A Ilha é a terceira obra da trilogia romanesca de Flávio Carneiro, que se inicia com O campeonato (2002, reeditada em 2009) e prossegue com A confissão (2006). A trilogia constitui uma espécie de experiência literária, por meio da qual o escritor efetiva um diálogo com três vertentes ficcionais de inegável força na contemporaneidade: os gêneros policial e fantástico, no primeiro e segundo volumes, respectivamente; e a ficção científica, no livro mais recente. Desse modo, o tour de force literário é concluído com uma obra que, se não deixa de ser uma experiência literária, tem como assunto fulcral uma experiência científica; e que, para além disso, acaba por tratar deste tema fundamental que é a experiência humana.

A ilha que intitula o romance, vale dizer, é o Rio de Janeiro — ou, mais precisamente, a cópia de um pedaço da capital fluminense, que preserva diversas de suas paisagens características: o Leme, a Lagoa, o morro de Santa Teresa. No âmbito da obra, trata-se do produto de um sofisticadíssimo processo de pesquisas e inovações tecnológicas, que envolve desde múltiplas formas de clonagem (da humana à mineral) até a fabricação artificial de antimatéria. Trata-se, em outras palavras, de uma ilha replicada, habitada por clones humanos, cuidadosamente planejada para constituir uma espécie de realidade utópica, de modo a oferecer possíveis soluções para os problemas de um planeta no qual a vida, em meados do século 21, já se revelava inviável. Toda a história do empreendimento é minuciosamente construída pelo autor, que se dedicou a fabular avanços científicos talvez não tão implausíveis — sobretudo se levarmos em conta que seu ponto de partida são feitos reais, como a pioneira criação de vida sintética, em 2010, pelo biólogo estadunidense Craig Venter. Não obstante, conquanto a dimensão propriamente científica da obra seja elaborada com minúcia, A ilha está longe de ser um livro composto apenas por exibições de erudição ou pedantismo; é esta a obra de um autor que sabe como explorar habilmente os dilemas de seus personagens, para os quais as questões tecnológicas representam, com efeito, chaves capazes de explicar lancinantes dilemas existenciais.

Bernardo, o jovem franciscano enamorado pela belíssima Clara, e Catarina, audaciosa adolescente, amiga de Bernardo — por quem, aliás, nutre ambíguos afetos —, são duas das figuras que acabam por se envolver na tarefa de explicar o que é aquela ilha que habitam e que se torna subitamente o palco de estranhos acontecimentos. O primeiro indício são três garrafas que inesperadamente aparecem, trazendo três mapas similares (que apresentam, contudo, cruciais diferenças entre si: a posição em que neles surge representada a ilha, mais ou menos próxima de um continente figurado a certa distância; frases neles gravadas, na verdade versículos do Gênesis bíblico). Os jovens, assim como Pepe — inventor e mestre de Bernardo e de Andador, o louco da ilha que tem como fiel acompanhante e único ouvinte seu cachorro, Ramon —, acabarão por conhecer o segredo da ilha, sua estranha origem e seu terrível futuro; isso não significa, no entanto, que sejam capazes de mudar seus próprios destinos, inseparáveis daquele pedaço de terra flutuante. Com efeito, quanto mais as coisas se esclarecem, mais se torna claro quão desesperadora é a sua situação. As respostas, tão buscadas, são ao fim simplesmente inúteis — e não é acidental que estejam encerradas numa obra de ficção, criada no âmbito de uma outra obra.

De fato, é através de um romance que os protagonistas de A ilha descobrem como e por que foram parar na condição em que se encontram; um romance que, sob a máscara da literatura, encerra verdades inconvenientes acerca de um projeto que leva as inovações científicas a níveis assombrosos — e perigosos. “O que soa como tola ficção pode ser apenas o futuro, em vias de se tornar realidade”, lemos a certa altura. Nesse patente desprezo à matéria ficcional, aguda denúncia do pragmatismo contemporâneo, vislumbra-se o quanto Flávio Carneiro concebe sua própria obra como uma admoestação, cuja pertinência é indiscutível. A literatura, apesar de suas “tolices”, diz mais sobre os homens do que sonha a vã tecnocracia.

A ilha é, afinal, um livro trágico. E o que confere maior força a essa dimensão do romance é precisamente a leveza da narrativa, que habilmente joga com as expectativas do leitor. É a história de homens que são vítimas de outros homens, cuja busca por soluções técnicas acaba por eliminar qualquer vestígio de humanismo, capazes de reduzir seus semelhantes a meros elementos de um experimento científico, eliminando-os sumariamente quando os resultados são alcançados. Na contramão de tendências reacionárias que grassam na contemporaneidade, Flávio Carneiro faz essa denúncia sem recorrer a apelos moralistas ou ao obscurantismo anticientífico; manejando os instrumentos de que dispõe — os literários —, compõe um romance que pode, sem favor, ser qualificado como uma pequena obra-prima.

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Flávio Carneiro

Flávio Carneiro. Foto: Divulgação

Nascido em Goiânia, em 1962, Flávio Carneiro mudou-se para o Rio de Janeiro no início dos anos 80. É escritor, crítico literário, roteirista e ensaísta, tendo recebido diversos prêmios literários. Atua como professor de literatura na UERJ.

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Flávio Carneiro
Rocco
208 págs.