Ensaios e Resenhas

fevereiro 2019 / Ensaios e Resenhas / Existe poesia gay?

Texto publicado na edição #226

Existe poesia gay?

A antologia "Poesia gay brasileira" traz a pluralidade de toda a sigla LGBTQIA+ e serve como fonte de representatividade

> Por Tatiany Leite

Amanda Machado e Marina Moura organizadora da antologia Poesia gay brasileira

Amanda Machado e Marina Moura organizadora da antologia Poesia gay brasileira

Em tempos de discussões políticas com pautas LGBTQIA+ em voga, precisamos falar (gritar) sobre a literatura gay. Além disso, também precisamos não nos calar. Pensar sobre o “amor do mesmo sexo, de pares literários”.

Uma pesquisa de anos resultou na reunião, em um único lugar, de 127 poemas com a temática criada por nomes icônicos como Hilda Hilst, Caio Fernando Abreu, Cassandra Rios, Maria Firmino dos Reis, dentre outros, totalizando 44 autores dos mais variados gêneros e orientações sexuais. O “documento fundamental não só pra literatura, mas pra história”, como diz Jean Wyllys, foi organizado pela pesquisadora Amanda Machado e a jornalista e poeta Marina Moura.

Engana-se, porém, quem acredita que literatura gay é algo moderno (ou que sua nomenclatura seja nova). Safo (Era Medieval), Maquiavel (1469-1527), Oscar Wilde (1854-1900) e Cassandra Rios (1932-2002) já resistiam desde os primórdios literários (e, nesta antologia, existem do século 19 ao 21). Mas, a pergunta que fica é: Estamos parados ou caminhamos? Já podemos nos amar? Nos reconhecer? Ou só resistimos para não nos calarmos?

Foi do Maranhão, aliás, que surgiu Maria Firmina, mulher negra e primeira brasileira a falar sobre gays em 1850, trazendo “Havia expressão tão bela,/ Tão maga, tão sedutora,/ que eu mesmo julguei-a anjo,/ Eloá, fada, ou arcanjo”, completando num ímpeto, “Porque, quero-la — só eu”. E, ainda, logo depois desta, aparece Mário de Andrade, que, enquanto escritor moderno de Macunaíma, nome importantíssimo na literatura, preferiu esconder sua sexualidade e suprir termos em suas poesias homoafetivas que seus colegas (neste caso, Manuel Bandeira) achavam impublicáveis, como no trecho “tive quatro amores eternos…/ O primeiro era uma donzela,/ O segundo… eclipse, boi que fala, cataclisma”.

Outra questão, também importante, é entender a abertura complexa no que chamamos de literatura gay. Como bem explica Wyllys no prefácio do livro, trata-se apenas de “marcar posição política”, uma vez que só existe poesia “e esta não tem orientação sexual ou pode ter todas”. Por isso mesmo, nem todos os autores trazidos são, de fato, LGBTQ+, porém, trazem em suas palavras todo o universo de um mundo plural e por isso foram reunidos — ou menos, vasculhados — nos mais diversos meios.

Não é segredo que a poesia, por si só, já é uma forma de demonstrar afeto. E é por isso que esse foi o gênero escolhido como fonte principal. Acontece que sua maneira de reprodução, em tempos distantes, não era necessariamente apenas em livros: os poemas puderam ser declamados, publicados em jornais, coletâneas, revistas ou encontrados perdidos entre arquivos e memórias. O foco foi único: trazer a pluralidade de toda a sigla (LGBTQIA+) e, portanto, ser a fonte de representatividade necessária, uma vez que ousamos, todos, “flertar com claridades”.

LGBTQI+ além do G
Apesar de o nome englobar apenas uma única letra da sigla, o intuito das organizadoras foi deixar tudo às claras, coisa rara no meio. É verdade que já existiam outras obras que trazem grandes poesias diversas, como Poemas do amor mal­dito, organizada por Gasparino Damata e Walmir Ayala em 1969. Mas esta é a primeira vez que a minoria está estampada na cara do leitor: isto é um livro de poesia. Gay.

Mas é a temática que importa, ainda mais sabendo que alguns dos nomes escolhidos não fazem parte de nenhuma das siglas (como Drummond e Hilda Hilst), mas trazem, por sua vez, pérolas como “que o pecado cristão, ora jungido/ ao mistério pagão, mais o alanceia,/ baixemos nossos olhos ao desígnio/ da natureza ambígua e reticente:/ ela tece, dobrando-lhe o amargor, outra forma de amar no acerbo amor.”, ou ainda “Mas um dia…/ Acabou-se da turba a fantasia / O reizinho gritou/ Na rampa e na sacada/ Ao meio-dia;/ Ando cansado/ De exibir meu mastruço/ Para quem nem é russo./ E quero sem demora/ Um buraco negro/ Para raspar meu ganso/ Quero um cu cabeludo!/ E foi assim/ Que o reino inteiro/ Sucumbiu de susto/ Diante de tal evento…/ Desse reino perdido”.

Outra que merece atenção é Angélica Freitas, que traz em sua poesia artistas com personalidades conhecidas, como Gertrude Stein (que teve Alice B. Toklas como amante) escutando que “lésbicas são um desperdício ele disse/ você já ouviu falar em Mussolini?”. O horror estampado na voz de Ezra Pound lembra muito algumas discussões atuais, que pode fazer essa antologia ser alocada na estante escondida, no alto para ninguém alcançar, enquanto algum livreiro despercebido fala de algum político renomado.

Neste livro, como diz Francisco Bittencourt, “até o poema é fornicado”, e continua: “Entre milhões de tentativas uma foda é divina,/ igual ao nascimento de um poema”. Justamente por isso, os poemas são vários e cheios de gritos, urros, erros num mundo que — apesar de parecer diferente — só o é porque o controle da sexualidade nos foi tirada. “É maldito o cu”, como dizem.

E é também proibido. Mesmo aos que colocam esta obra no alto da estante, atrás de outros títulos que pareçam mais amigáveis, seguimos com uma antologia que arranca risos e representa muito bem sua promessa: diversidade, pluralidade, poesia, ou melhor, poesia gay. Além de, claro, muita qualidade.

 

 

Poesia_Gay_Brasileira_226

Poesia gay brasileira
Org.: Amanda Machado & Marina Moura
Machado
287 págs.

 

AS ORGANIZADORAS
Amanda Machado
É mineira de Belo Horizonte. Designer especialista em projetos editoriais, é formada em Letras e Mestra em Estudos Literários pela UFMG. Atuou junto a povos indígenas assessorando o trabalho de produção de livros para escolas indígenas. Como professora da rede municipal de ensino de Belo Horizonte, orientou jovens no desenvolvimento de projetos editoriais, como livros e outros.

Marina Moura
É paulistana de nascença, com passagem em Belo Horizonte. Jornalista e poeta, escreveu o livro Com quantos J se faz um Jornalismo Literário, junto da jornalista Marina Venuto. Editoração, revisão de textos e francesices são atividades que a cativam.

 

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